Dependência Radical

Data de publicação: 04/08/2011
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Edição 50 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 50

Por: Eliasaf de Assis

Recuperando Vidas em Feira de Santana

A primeira impressão

Eles estavam cantando, e as vozes foram a primeira coisa que notei. Cantavam alto e forte, sem preocupações melódicas, no timbre de quem canta endereçando sua adoração ao Altíssimo em uma causa desesperada. Nas dezenas de homens reunidos em uma grande área avarandada, via-se a fé esculpida nos rostos pela resignação e pelo sofrimento. Alguém disse que “um homem conhece o valor da lágrima de outro homem”. Acho que passei por esse fenômeno especial, uma identificação que ocorre quando visitamos uma casa de recuperação, um grupo de ajuda mútua ou doamos tempo de qualidade para ouvir quem luta contra o vício. Se dermos lugar ao Espírito Santo, ele nos irmanará.

Alguém tomou a palavra e pregou com autoridade e empatia sobre como Deus não faz acepção de pessoas, como vê todos os homens igualmente. Instantaneamente me vi tão necessitado e dependente quanto qualquer um dos presentes.

Quando acabou o culto, aproximei-me de um rapaz que estivera sentado durante toda a reunião. A poucos metros, entendi o motivo: notei que ele se recuperava de um ferimento a bala. Em uma trajetória curiosa, uma única bala perfurou seu glúteo e deu a volta em seu corpo, ziguezagueando até o outro lado. Havia suturas em várias partes do tronco e também na coxa, onde a bala, sem que eu consiga entender como, foi parar.

“No escuro, aproximaram-se de mim e atiraram à queima-roupa, pelas costas. Ainda consegui correr”, ele me disse, enquanto manquejava me mostrando o sítio. “A bala estava envenenada. Isso se faz retirando o projétil do cartucho e mergulhando-o em substâncias nocivas, como ácido de bateria de carro. Tem que ficar de molho um tempo. É trabalhoso, o cartucho tem que ser montado de novo, usando uma prensa”, me explicou. “Quando cheguei ao hospital, embora tenham extraído a bala, meu corpo infeccionava em razão do envenenamento.”

Impressionei-me com o ato de ódio que consumiu um empenhado e detalhado artesanato no objetivo de matar aquele homem. Como se vence uma força maligna como essa? Como fazer dessa história um padrão diferente das lendárias revanches do Nordeste do Brasil, que causam um ciclo sem fim de vingança? Havia alguma resposta ali, sussurrada quando se notava o cuidado divino em cada item, do alimento ao companheirismo.

Para onde olhava, podia concluir: esta é uma grande e trabalhosa família. Demanda cuidado, oração, atenção, lágrimas e, sobretudo, paternidade. Experiência inédita, imagino, para muitos internos. Ali no sítio, acolhido e iluminado, o rapaz com quem eu falava, um testemunho dentre muitos, lembrava-se do que havia ouvido da Palavra de Deus na infância. “Fui poupado por um motivo. Hoje eu quero a Deus, quero me acertar com ele”, concluiu.

O Testemunho de Beto

O homem que lidera a casa, Alberto de Santana (conhecido como Pr. Beto), circula entre eles como um pai. Seu carro rebocou até o sítio uma pequena carreta com doações de alimentos, agora sendo descarregados. Beto é a própria imagem da iniciativa. Casado há 20 anos, é pai de cinco filhos. Simpático e falante, a energia e disposição divinas parecem crepitar ao seu redor. Move muito as mãos enquanto fala, mesmo enquanto dirige, o que me deixou “atento” durante toda a viagem de carro feita até ali. Pastor de uma igreja local há 6 anos (Igreja Evangélica Gênesis), também é apresentador de um programa de rádio evangélico na cidade há 7 anos, um feito notável, considerando que muitos outros programas vieram e passaram.

Nasceu em Feira de Santana e viveu 13 anos no estado de São Paulo. Lá foi um comerciante bem-sucedido. Mas sua vida era marcada pelo alcoolismo e pelo adultério. Sua esposa, Rosemary, falou-me certa vez sobre esse período:

O Beto estava emocionalmente envolvido com outra pessoa. Nos separamos e então tive um encontro com Deus. Por aqueles dias, “a outra” disse algo que me menosprezava, e o Beto, irado, a deixou. Aproximava-se um feriado, e eu o recebi de volta, dirigida pelo Senhor. Cozinhei pra ele, tratei-o com carinho. Cheguei a lhe perguntar o que eu poderia fazer para me tornar uma melhor esposa. Tocado e em lágrimas, Beto pediu que eu orasse para que ele se encontrasse com Deus da mesma forma que eu. Mais tarde, através de um programa de televisão, ele se achegou a Deus arrependido.

Isso aconteceu em 1994. Desde então, a peculiaridade de seu temperamento e vocação fizeram com que o pastor da igreja em que se reuniam em São Paulo colocasse qualquer drogado que chegasse lá sob seus cuidados.

O Início da Casa em Feira de Santana

Quando chegou em Feira de Santana de mudança com a família, percebeu a necessidade da região e iniciou uma casa de recuperação. Ele notou que Deus levantava pessoas para suprir e nunca deixar faltar nada. O dono de um supermercado, sem vínculo ou confissão religiosa alguma, dispôs-se a ajudar. Semanalmente a casa pode contar com suprimentos doados generosamente pelo empresário que demonstra uma alegria exemplar em contribuir. Sob o toque de Deus, diversas pessoas ajudam sem questionar.

Beto iniciou seu trabalho com todo fôlego. Não cobra absolutamente nada de mensalidade ou inscrição. Deus colocou isso em seu coração. Como afirma: “De graça recebestes, de graça dai. Aqui, Deus proverá”. Ele também costuma dizer: “Deus providencia tudo, não deixa faltar nada. Se eu cobrar um real para internar alguém, é uma ofensa a ele! Ele me mata!”.

No centro de recuperação, encontra-se todo tipo de gente. Dentre eles, um andarilho que fez o trajeto de São Paulo à Feira de Santana… a pé! Em termos rodoviários, ele cruzou algo como 2.000 km. Hoje o andarilho percorre o “caminho estreito” e é obreiro, ensinando sobre caráter cristão. Havia um outro rapaz em um estado de dependência tão crônica que quando se recuperou nem a mãe dele acreditava!

Certa vez, receberam um sujeito mentalmente desequilibrado. Recém-chegado a casa, ele pediu para ajudar nos serviços… cortando lenha! Bom, o Beto deu um machado para o homem… O espanto patenteou-se nas pessoas em volta: “Ele é louco! E perigoso!”, diziam. Mas, no fim, o homem melhorou.

“Não tenho o pé preso com ninguém”

A casa encontrou muitas outras dificuldades para funcionar. Entre as mais trágicas: um dos internos, ao chegar, disse que ia se matar, o que acabou fazendo ao enforcar-se no dia seguinte.

Outro dia, uma denúncia. “Haveria um menor internado na casa sofrendo maus-tratos e passando fome”, disseram ao conselheiro tutelar; porém, ao aparecer por lá, este constatou que realmente havia um menor, porém bem alimentado, “viçoso” e com excelente aparência. A juíza do caso gostou tanto do trabalho que passou a enviar menores infratores aos finais de semana para assistirem ao culto.

A casa recebe alimentos de várias fontes. Responsáveis pela saúde pública estiveram lá, dentro da casa de recuperação, verificando se a casa servia alimento vencido. Quando o Beto chegou, foi logo perguntando: “Vocês entram por aí, nas casas das famílias, pra verificar o que tem na geladeira? Não? Então podem ir embora porque essa casa aqui é de uma família. Não tem dinheiro de político nenhum”.

“Trabalhamos documentados e legalizados, mas nunca pedimos dinheiro público ou aceitamos conchavos políticos. A obra é de Deus, e não tenho o pé preso com ninguém”.

Essa confiança tão integral é plenamente recompensada por Deus: “Certa vez levei todos os internos a um rodízio. Foi impactante para a maioria deles, que estavam muito emocionados, já que nunca haviam recebido algo assim”.

Recentemente, os donos do imóvel que ocupavam pediram o local, e tiveram que sair; a mudança causou-lhes muitos transtornos, além de uma incerteza quanto ao novo destino. O Senhor colocou fé no coração do Beto, e ele comprou um local muito melhor, pela fé, assumindo um compromisso de R$40.000,00, sem saber de onde viriam esses recursos. Qual não foi a sua surpresa ao descobrir, depois de fechado o negócio e já de posse do local, que havia naquela propriedade muitas toneladas de areia para construção que poderiam ser removidas sem nenhum prejuízo para o desenvolvimento dos seus planos para a casa de recuperação! Conclusão: Ele vendeu toda a areia e conseguiu pagar o custo total do local com esse dinheiro! Nosso Deus é maravilhoso!

Atualmente a casa de recuperação está com 65 internos e continua dependendo totalmente de Deus para o seu sustento!

Se você quer ajudar:
Alberto Santana
Caixa Econômica Federal
Ag. 4109
Poupança: 6302-4

Contato:
(75) 3486-1086 Casa de Recuperação
(75) 3224-4014 Residência

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