De Volta ao Primeiro Degrau

Data de publicação: 09/12/2011
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Edição 06 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 06

Por: Mateus Ferraz

Muitas vezes, embora tão próximos de nossas conquistas, Deus nos leva ao primeiro degrau, para mostrar-nos a importância do aprendizado. 

Um dos processos mais interessantes da vida é o processo de desenvolvimento humano. É maravilhoso ver o bebê aos poucos se tornando homem, passando por suas transformações características e aprendendo passo a passo a complexidade da vida. É interessante avaliarmos nosso crescimento. Por que não nascemos maduros? Por que passamos por tantas etapas e fases diferenciadas? Por que o processo de aprendizado e amadurecimento é tão árduo e longo, e por que não dizer, tão infinito? Por que precisamos levar alguns tombos para aprender a andar? Por que os primeiros atos de comunicação começam com os famosos “gugu dada” e não com frases complexas de significado profundo?

Tudo isso revela a forma carinhosa como Deus cria. Ele não se preocupou em embutir no ser humano pensamentos previamente estabelecidos por ele, mas nos deu a chance de podermos aprendê-los ou não. Isso faz de nós seres especiais, dotados de vontade própria. Através disso, Deus revela o seu caráter paterno, mostrando que deseja ver cada filho se desenvolvendo em cada fase de seu crescimento físico, intelectual e espiritual.

Certa vez, eu estava observando um pequeno garoto com menos de um ano em sua tentativa esforçada de subir alguns degraus de uma escada. Ele mal sabia engatinhar, mas enxergava aqueles degraus como o maior desafio de sua vida. Seu pai o observava de perto. Com muita força de vontade, ele estendia suas pequeninas mãos para alcançar o primeiro degrau. Com um esforço desgastante, se equilibrava para não pôr a perder toda sua jornada. O pai somente observava. Um degrau se foi, faltavam três. Sem desanimar, o garotinho prosseguia com olhar conquistador de um alpinista. Cada degrau alcançado aumentava pouco a pouco seu sorriso. Nada mais parecia entretê-lo. Nem os brinquedos à sua volta, nem as pessoas que conversavam ao seu redor, nem mesmo a presença do seu pai a vigiá-lo. O que ele desejava era apenas chegar em seu destino. Faltando apenas um degrau, para alcançar sua façanha infantil, o pai observador, muito carinhosamente o pega no colo e o coloca no início da escada novamente. Todo aquele esforço, tão perto de seu destino e ele se vê novamente no início da escada sendo obrigado a iniciar sua escalada novamente.

Observando este fato tão corriqueiro, comecei a pensar no tratamento de Deus para conosco. Algumas vezes tenho a impressão que fui levado de volta ao início da escada. Você já se sentiu assim? Tão perto de conseguir o que mais quer, e em questão de segundos, estar tão longe do objeto de sua conquista. É algo frustrante, desgastante e desmotivador. Quando julgamos estar aptos e maduros para alcançar o que queremos, Deus nos leva de volta ao primeiro degrau. Depois de ver nosso alvo tão próximo, somos levados a contemplá-lo como uma distante paisagem no horizonte.

Todo aprendizado é traumatizante. É assim porque aprender implica em reconhecer suas limitações. Ninguém aprende nada se não reconhece que não sabe. Ninguém aceita os ensinamentos do mestre se não o considera mais sábio do que a si próprio. Aprender significa desvencilhar-se de seus limitados e superficiais conhecimentos, e reconhecer que não são suficientes. Isso é algo extremamente difícil para o ser humano, cujo caráter está tão impregnado com soberba e auto-suficiência. Dificilmente assumimos a necessidade de aprender, mesmo que o Mestre seja Jesus Cristo. Às vezes agimos como crianças mimadas que não querem progredir espiritualmente.

Talvez, nossa atitude seja esta devido à comodidade que encontramos enquanto meninos. O erro de uma criança é mais tolerável. Quando se tem um ano, ninguém o julga por tropeçar ou cair, ao contrário tratam-nos com carinho, curando nossas feridas, levantando-nos e cuidando de nossos traumas. É realmente cômodo ser menino. Ninguém o cobra por suas faltas, sempre existe alguém por perto, uma mão adulta que o levante, e que o leve para cama quando adormece em frente ao televisor. O “sim” é mais freqüente do que o “não”. O choro se torna uma arma de conquista. “Quem não chora, não mama…” diz o ditado popular. E é assim que muitos agem na vida espiritual. Por que crescer, se é tão cômodo permanecer pequeno? Para que aprender, se é um processo tão doloroso e desmotivador? Muitos se escondem do aprendizado como o infante que foge da escola. Às vezes, queremos que Deus nos pegue no colo e nos leve até o último degrau, e quando ele toma a atitude certa de um Pai amoroso, colocando-nos no início da escada a fim de que aprendamos a galgar os degraus da vida, agimos como crianças mimadas, apelando ao choro de um bebê.

O apóstolo Paulo entendeu muito bem essa deficiência humana. Em I Co 13.11, ele sabiamente escreveu:

“Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Existe um momento de rompimento com a meninice. Embora cômoda, esta situação prejudica nosso caráter. Existe um momento em que se faz necessário o crescimento. O alimento sólido se torna imprescindível. As correções e admoestações do Pai se fazem necessárias. Crescer é libertar-se dos medos e inseguranças peculiares da infância e começar a galgar os rústicos e pedregosos degraus da vida.

Jesus disse: “Aprendei de mim” (Mt 11.29). O Pai enviou seu único filho para nos deixar a cartilha da fé. E isso não foi feito para que ficássemos sempre escondidos atrás da infantilidade e da imaturidade. No reino de Deus tudo nasce pequeno, mas tem a responsabilidade de crescer. Imaturidade é reclamar quando a primeira lição é aplicada. A primeira lição da cartilha de Deus, é “Aprenda a aprender!”. E isso só acontece quando nossos recursos se acabam e precisamos reconhecer em Deus a única fonte da vida e sabedoria. Se não aprendemos a primeira lição, nunca poderemos prosseguir no aprendizado de Deus e ficaremos confinados à limitação da imaturidade.

Deus não deixa de ser Pai quando seus filhos crescem. Não precisamos temer que ele um dia nos mande para fora de casa. Nem esperar amedrontados uma frase do tipo: “Você está bem crescidinho para resolver seus problemas sozinho”. Nas horas difíceis, o colo do Pai ainda está disponível. A mão amiga ainda é amiga o suficiente para levantar, suportar e amparar. Mas Deus demonstra a excelência da amizade e da paternidade ao corrigir e ensinar o filho a quem ama (Hb 12.6)

Não se recuse a aprender. Pode ser doloroso, cansativo e às vezes desanimador. Mas com certeza valerá à pena ouvir o Mestre dizer no dia de sua graduação: “Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor!” (Mt 25.21).

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