Dar Até Doer

Data de publicação: 06/12/2011
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Edição 10 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

O texto a seguir é uma transcrição condensada de um discurso feito no Café da Manhã da Oração Nacional (National Prayer Breakfast) em 3 de fevereiro de 1994, ao qual estiveram presentes o Presidente Bill Clinton , o Vice Presidente Al Gore, e muitos membros do Congresso dos EUA. Consideramos que se trata de uma exortação profética para os nossos dias.

Madre Teresa

No último dia Jesus dirá aos que estiverem à sua direita: “Vinde, entrai no Reino. Porque eu estava com fome e me destes de comer, estava doente e me visitastes.” Então Jesus se voltará para aqueles à sua esquerda e dirá: “Afastai-vos de mim porque eu estava com fome e não me alimentastes, estava com sede e não me destes de beber, estava doente e não me visitastes.” Estes perguntarão: “Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou doente e não te ajudamos?” E Jesus lhes responderá: “Todas as vezes que negastes auxílio a um destes mais pequeninos, foi a mim que o negastes!” (veja Mateus 25.34-45).

São Francisco de Assis entendeu muito bem estas palavras de Jesus e sua vida é expressa por uma oração. Sempre me pergunto se naquela época, há 800 anos atrás, quando S.Francisco viveu, havia as mesmas dificuldades que temos hoje. Agradeçamos a Deus pela oportunidade que ele nos deu hoje de vir aqui para orarmos juntos.

Jesus veio para trazer boas novas para os pobres. Ele nos ensinou o que são essas boas novas quando disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (João 14.27). Ele não veio para dar a paz do mundo, que consiste apenas em não incomodarmos uns aos outros. Ele veio para dar a paz do coração que vem do amor – de fazer o bem para os outros.

E Deus amou ao mundo tanto que deu seu Filho – este amor foi uma doação. Deus deu seu Filho para a Virgem Maria, e o que ela fez com ele? Tão logo Jesus entrou na vida de Maria, imediatamente ela foi correndo dar aquelas boas novas para alguém. E quando chegou na casa de sua prima Isabel, a Escritura nos conta que a criança por nascer – a criança no ventre de Isabel – pulou de alegria. Ainda no ventre de Maria, Jesus trouxe paz a João Batista – que pulou de alegria no ventre de Isabel.

E como se isto não bastasse, como se não fosse suficientemente maravilhoso que Deus o Filho se tornasse um de nós e trouxesse paz e alegria enquanto ainda no ventre de Maria, Jesus também morreu na cruz para mostrar um amor maior ainda. Ele morreu por você e por mim, e pelo leproso e por aquele homem morrendo de fome e por aquela pessoa nua deitada na rua, não somente em Calcutá, mas na África e em toda a parte. Nossas irmãs servem estas pessoas pobres em 105 países em todo o mundo. Jesus insiste em que nos amemos uns aos outros como ele ama cada um de nós. Jesus deu a sua vida a fim de nos amar e nos ensina que também temos de dar o que for necessário para fazer o bem uns aos outros. E nisto Jesus diz muito claramente: “Amai como eu vos amei.”

Jesus morreu na cruz porque esta era a única maneira que ele podia fazer o bem para nós, salvando-nos do egoísmo do nosso pecado. Ele entregou tudo para fazer a vontade do Pai, para nos mostrar que nós, também, devemos estar dispostos a entregar tudo para fazer a vontade de Deus – amando-nos uns aos outros como ele ama cada um de nós. Se não estivermos dispostos a dar o que for necessário para fazer o bem uns aos outros, o pecado ainda está em nós. É por isso que nós, também, precisamos dar uns aos outros até doer.

Não é suficiente dizer: “Eu amo a Deus”, mas também tenho que amar o meu próximo. João diz que você é um mentiroso se diz que ama a Deus e não ama ao seu próximo. Como você pode amar a Deus, a quem não vê, se você não ama ao seu próximo a quem vê, em quem você toca, com quem você vive? (1 João 4.20). Por isso é muito importante que entendamos que amor, para ser verdadeiro, tem que doer. Preciso estar disposto a dar o que for necessário para não ferir outras pessoas e, na verdade, fazer-lhes o bem. Isto exige que eu esteja disposto a dar até doer. De outro modo não há verdadeiro amor em mim e acabo levando injustiça e não paz para aqueles que estão ao meu redor.

Doeu em Jesus o nos amar. Fomos criados à sua imagem para coisas maiores, para amar e ser amados. Precisamos nos “revestir de Cristo” como nos diz a Escritura. E assim, fomos criados para amar como ele nos ama. Jesus se faz a si mesmo o faminto, o nu, o sem teto, o rejeitado, e diz: “A mim o fizestes.” No último dia ele dirá àqueles que estiverem à sua direita: “O que fizestes a um destes mais pequeninos, a mim o fizestes” e àqueles que estiverem à sua esquerda dirá: “Tudo o que vos negastes a fazer por um destes mais pequeninos, a mim o negastes.”

Quando estava morrendo na cruz, Jesus disse: “Tenho sede”. Jesus tem sede do nosso amor e esta é a sede de todos, pobres e ricos igualmente. Todos nós temos sede pelo amor dos outros, para que eles se dêem ao trabalho de não nos machucar e de fazer-nos o bem. Este é o significado do verdadeiro amor, dar até doer.

Jamais poderei me esquecer da experiência que tive quando visitei um asilo onde se colocam todos aqueles idosos pais de filhos e filhas que os deixam lá para se esquecerem deles. Vi que naquele lar estes velhos tinham tudo – boa comida, lugar confortável, televisão, tudo, mas todos ficavam olhando para a porta. E não vi um único sorriso nas suas faces.  Voltei-me para uma das irmãs e lhe perguntei: “Por que estas pessoas, que têm todo o conforto aqui, ficam todas olhando para a porta? Por que é que não sorriem?”

Estou tão acostumada a ver os sorrisos do nosso povo. Mesmo aqueles que estão morrendo sorriem. Uma das irmãs disse: “É assim quase todos os dias. Eles estão na expectativa; esperam que um filho ou uma filha venha visitá-los. Estão magoados porque foram esquecidos.” Vejam, esta ausência de amor traz pobreza espiritual. Talvez na nossa própria família tenhamos alguém que está se sentindo só, que se sente doente, que está aborrecido. E nós, estamos lá?  Será que estamos dispostos a dar até doer a fim de estarmos com nossas famílias, ou colocamos nossos próprios interesses em primeiro lugar? Estas são as perguntas que devemos fazer a nós mesmos. Lembremo-nos de que o amor começa em casa, e precisamos também lembrar que “o futuro da humanidade está na família”.

Fiquei surpresa ao ver no Ocidente tantos adolescentes se entregando às drogas e tentei descobrir por que.  Por que é assim, se as pessoas no Ocidente têm muito mais coisas do que as pessoas no Oriente?  E a resposta foi: “Porque não há ninguém na família para recebê-las.” Nossas crianças dependem de nós para tudo — para sua saúde, seu alimento, sua segurança, para aprenderem a conhecer e amar a Deus. Elas nos procuram para tudo isto, com esperança, confiança e expectativa.  Mas com freqüência o pai e a mãe estão tão ocupados que não têm tempo para seus filhos, ou talvez eles nem sejam casados ou talvez tenham desistido do casamento. Por isso as crianças vão para as ruas e se envolvem em drogas e outras coisas. Estamos falando de amor pela criança, que é onde o amor e a paz devem começar. Estas são as coisas que impedem a paz.

Mas eu sinto que o maior destruidor da paz hoje em dia é o aborto porque é uma guerra contra a criança, um assassinato direto de uma criança inocente, causado pela própria mãe. Como podemos persuadir uma mulher a não cometer um aborto?  Como sempre, devemos persuadi-la pelo amor, e precisamos nos lembrar de que amor significa estar disposto a dar até doer. Jesus deu até a sua vida para nos amar. Assim, a mãe que esteja pensando em fazer um aborto deveria ser ajudada a amar, isto é, a dar até que doa seus planos, ou seu tempo livre, e a respeitar a vida de seu filho. O pai daquela criança, quem quer que seja, também precisa dar até doer.

Através do aborto, a mãe não aprende  a amar, mas mata o próprio filho para resolver os problemas dela. E, pelo aborto, o pai é ensinado que ele não precisa ter nenhuma responsabilidade pela criança que ele trouxe ao mundo. Este pai provavelmente colocará outras mulheres na mesma situação. Então o aborto somente traz mais aborto. Qualquer país que aprove o aborto não está ensinando  seu povo a amar, mas a usar qualquer tipo de violência para conseguir o que querem. É por isto que o maior destruidor da vida e da paz é o aborto.

Quando tiro uma pessoa das ruas, faminta, dou-lhe um prato de arroz ou um pedaço de pão. Mas uma pessoa que é desprezada, que se sente indesejada, não amada, aterrorizada, a pessoa que foi jogada fora da sociedade — esta pobreza espiritual é muito mais difícil de vencer. E o aborto faz com que uma pessoa seja espiritualmente pobre, e esta é a pior pobreza e a mais difícil de ser vencida.

As pessoas materialmente pobres podem ser pessoas maravilhosas. Podem às vezes não ter nada para comer ou um lar para morar, mas elas ainda podem ser pessoas maravilhosas quando são espiritualmente ricas. Numa noite nós saímos e recolhemos quatro pessoas das ruas. E uma delas estava numa condição terrível. Eu disse para  as irmãs: “Tomem conta dessas três; eu tomarei conta daquela que parece estar em pior condição.” Fiz por ela tudo que meu amor podia fazer. Coloquei-a na cama, e havia um belo sorriso na sua face. Ela tomou firme a minha mão, e disse somente uma palavra: “Obrigada”. E morreu.

Não pude deixar de examinar a minha consciência diante dela. Perguntei: “O que eu diria, se estivesse no lugar dela?” E minha resposta foi muito simples. Eu procuraria atrair um pouco de atenção para mim mesma. Teria dito: “Estou com fome, estou morrendo, estou sentindo dor” ou qualquer coisa parecida. Mas ela me deu muito mais; me deu seu amor e gratidão. E morreu com um sorriso na sua face.

Lembro-me também daquele homem que  recolhemos do esgoto, metade comido por vermes, e depois que o trouxemos para o lar, ele disse somente isto: “Tenho vivido como um animal nas ruas, mas vou morrer como um anjo, bem amado e bem cuidado.”  Então, depois que removemos todos os vermes do seu corpo, tudo o que ele disse, com um sorriso bem grande, foi: “Irmã, vou para casa com Deus”. E morreu. Foi tão lindo ver a grandeza daquele homem que podia falar aquelas palavras, sem culpar ninguém ou fazer comparações. Como um anjo, esta é a grandeza das pessoas que são ricas espiritualmente mesmo quando sejam materialmente pobres.

Tive a mais extraordinária experiência de amar o próximo com uma família hindu. Um homem veio a nossa casa e disse: “Madre Teresa, há uma família que não come há muito tempo. Faça alguma coisa.” Então peguei um pouco de arroz e fui lá imediatamente. E vi as crianças, seus olhinhos brilhando de fome. Não sei se vocês já viram a fome. Mas eu a vejo com freqüência. E a mãe da família pegou o arroz que  lhe dei e saiu. Quando voltou, perguntei-lhe: “Onde você foi ? O que você fez?“ Ela então me deu uma resposta muito simples: “Eles também estão com fome.” O que me impressionou foi que ela sabia – e quem eram eles?  Uma família muçulmana.  Não comi mais arroz naquela noite porque eu queria que eles, hindus e muçulmanos, sentissem a alegria de compartilhar.

Mas havia também aquelas crianças, radiantes de alegria, compartilhando a alegria e a paz com sua mãe porque ela tinha o amor de dar até doer. E vejam, é aqui que o amor começa – em casa, na família.

Então, como mostra o exemplo desta família, Deus nunca nos esquecerá e há algo que você e eu sempre podemos fazer. Podemos manter a alegria de amar a Jesus em nossos corações, e compartilhar esta alegria com todos que venham a entrar em contato conosco. Estabeleçamos porém um ponto; que, da nossa parte, nenhuma criança será indesejada, desamada, abandonada, assassinada ou jogada fora. E vamos dar até doer — com um sorriso.

Extraído e adaptado da revista “The Morning Star Journal”, nº 3, 1994.

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Pensamentos de Madre Teresa sobre o amor:

Não pense que o amor, para ser verdadeiro precisa ser extraordinário. O que é necessário é continuar amando. Como uma lâmpada arde, se não for através da alimentação contínua de gotinhas de azeite? Quando não há azeite, não há luz e o Noivo dirá: “Não vos conheço”.

Queridos, o que são gotinhas de azeite em nossas lâmpadas? São as coisas pequenas da vida cotidiana: a alegria, a generosidade, as coisinhas boas, a humildade e a paciência. A simples preocupação com outra pessoa. A nossa maneira de calar-nos, de ouvir, de perdoar, de falar e de agir. Estas são as verdadeiras gotinhas de azeite que fazem nossas lâmpadas arder com vigor por toda nossa vida. Não procure Jesus longe, pois Ele não está lá. Ele está em você, cuide de sua lâmpada e você O verá.

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“Senhor, Tu me amas melhor do que eu sei como me amar”
François de la Mothe Fenelon