Cumprindo o “Ide” Através do Projeto Família

Data de publicação: 04/08/2011
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Edição 50 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 50

Por: Mauricio Bronzatto

Adriana Marques, 34, começou a se encontrar com o evangelho em maio de 2002, ocasião em que, por motivos profissionais, deslocava-se freqüentemente de Recife para São Paulo. Trazia do nordeste, além de projetos na área da informática, muita inquietação interior. Recém-chegada à capital paulista, fez amizade com Lúcia Cabral, com quem dividia espaço na empresa. Das conversas preliminares que mantinha com a nova amiga, surgiu um convite inesperado para participar de um encontro de aprofundamento para ministros cristãos que ocorreria no final de semana imediato, o primeiro que passaria em São Paulo. Decidida (marca registrada de Adriana), não pensou duas vezes. Ao invés de retornar a Recife, acompanhou Lúcia a Sorocaba, cidade do interior paulista.

Aquele final de semana revolucionaria sua vida. A decisão de receber Jesus como seu Senhor e Salvador seguiu-se de um verdadeiro redirecionamento de motivações, prioridades e realizações. Todo o seu dinamismo e voluntariedade, em contato com o novo reino, ganharam profundidade e novos contornos. Adriana passou a se envolver com as pessoas dos grupos familiares de igrejas nos lares nos quais Lúcia tomava parte.

Cumprida sua missão profissional em São Paulo, retornou a Recife, em janeiro de 2004, desejosa de desenvolver um trabalho que fizesse diferença significativa para a comunidade que a viu crescer . O retorno do marido, Ricardo Corrêa de Araújo, 39, aos caminhos de Deus, ocorrido no Natal do ano anterior, representou para Adriana o sinal verde para colocar a mão no arado e sair a campo para atender às sempre renovadas necessidades da messe do Senhor.

Abaixo, em entrevista à Revista Impacto, essa mulher visionária e empreendedora, ao falar dos projetos cujos encargos recebeu das mãos de Deus e aos quais vem atendendo sem vinculação a nenhuma instituição, dá um testemunho eloqüente de determinação, perseverança e entrega, e daquilo em que se podem transformar os cinco pães e os dois peixinhos quando os colocamos nas mãos de Jesus.

Como teve início o Projeto Guerreiros de Jesus?

Adriana: Na verdade, o embrião deste projeto existe desde maio de 2002, ocasião em que participei de um encontro na cidade de Sorocaba. Ali me dei conta da importância da família. Sempre estive muito ocupada com a minha carreira profissional, me ausentando de Recife e principalmente da minha família. Uma frase que ficou martelando, principalmente à noite, quando todos tivemos que nos recolher cedo, foi: “A Família é o principal alvo de Deus; não somente eu, mas eu e a minha casa devemos servir ao Senhor”.

Assim que saí daquele encontro maravilhoso, onde verdadeiramente descobri qual era a minha missão, “Ide e Evangelizai por todas as nações” , virei a noite do domingo para a segunda escrevendo um projeto que chamei “Projeto Família – Igreja Gloriosa”.

Dois anos mais tarde, em agosto de 2004, iniciamos um trabalho de evangelização com 7 crianças da comunidade de Água Fria, aqui em Recife, a pedido de meu filho, Antônio Ricardo Corrêa de Araújo, à época com apenas 7 anos. Deus me mostrou que, além da minha família, eu tinha que falar sobre Jesus para outras famílias, eu tinha que sair do quadrado e ir além das fronteiras. Iniciamos, então, o projeto “Guerreiros de Jesus”, que atende atualmente 124 crianças moradoras de uma invasão de terreno entre as ruas prof. Lourdes Dutra e Belo Jardim, contígua ao bairro da Água Fria, zona norte de Recife, onde moram meus pais.

O que é exatamente o Projeto?

Adriana: Nossa intenção é manter um local adequado para abrigo transitório, alimentação e higiene, bem como para formação cristã de crianças de 4 a 15 anos através de atividades interdisciplinares, envolvendo artesanato, música, atividades físicas e pedagógicas, além de assistência médica e psicológica enquanto suas mães trabalham ou qualificam-se para o mercado de trabalho. Por enquanto, estamos realizando apenas o estudo da Palavra de Deus. Esse atendimento se dá aos sábados, no período das 9:00 às 12:00 horas, em três turmas, conforme a faixa etária. Ao final, servimos-lhes um lanche. Usamos, para isso, a garagem da casa dos meus pais, onde durante a semana funciona a escolinha de alfabetização da minha cunhada, Maria Jeanne.

Qual a média de freqüência aos sábados?

Adriana: É muito rara a falta destas crianças, atualmente a freqüência mínima é de 100 crianças.

O Projeto parece ter uma abrangência bastante grande…

Adriana: Sim, queremos proporcionar a cada uma destas crianças vivências que as sensibilizem quanto a sua relação consigo mesmas, com o próximo e com Deus. Mas não é só isso. Estamos em busca também dos seus familiares. Desejamos a participação efetiva deles na formação plena dos menores. Estamos tentando reciclar nas famílias noções de higiene, alimentação e saúde. Quando cativamos a atenção dos pais para o Projeto, passamos também a incentivá-los promovendo-lhes alternativas para a qualificação profissional, sobretudo das mães, no sentido de prepará-las para atender às demandas do mercado de trabalho.

Vocês já têm podido colher algum fruto do trabalho?

Adriana: Os resultados que observamos têm nos fortalecido para prosseguir. Adolescentes da turma C me ajudam com as turmas A e B; ficam todos divididos em 6 círculos. Há evidente mudança nos valores e nos comportamentos dos meninos: não picham mais as casas, deixaram de praticar os pequenos roubos, não jogam pedras nas casas próximas à favela, não fumam maconha nem vendem mais drogas. A cada dois meses, promovemos a “Caminhada da Evangelização Familiar”, ocasião em que saímos em mutirão para distribuição de literatura cristã de casa em casa. As crianças estão aprendendo a ter comunhão com Deus através dos devocionais semanais. Toda semana fazemos coleta de pilhas usadas nas ruas próximas à favela, a fim de fazermos o descarte de forma correta. Através do “Projeto Apadrinhamento”, iniciado em julho de 2006, temos 15 crianças fazendo atividades esportivas no Clube Santa Cruz, com instalações próximas ao local: três vezes por semana, meninos a partir de 7 anos fazem futebol, e meninas e meninos com idade inferior a 7 anos fazem natação. Além disso, temos procurado envolver os menores no “Projeto Cuidar”.

O que é o Projeto Cuidar?

Adriana: Adotamos um abrigo com 25 idosas e nos comprometemos a mensalmente visitá-las. Passamos uma tarde com elas, conversando, dançando, exibindo peças teatrais com temáticas cristãs e lanchando com elas. Com essa integração, as crianças já estão visitando sozinhas o abrigo, e este é o objetivo do Projeto: promover uma troca de afetos entre a criança e o idoso. Com isso, as crianças aprendem a valorizá-los e a respeitá-los.

Como é possível viabilizar financeiramente estes projetos?

Adriana: Eu e meu marido doamos em torno de 20 cestas básicas durante o mês, conforme as visitas que realizamos à casa das crianças. O critério para entrega é o das condições encontradas: quem está em piores condições tem prioridade. Mas o que fazemos não seria possível sem a ajuda de preciosos amigos, verdadeiros anônimos que têm alavancado os projetos. Contamos com 15 amigos que recentemente se tornaram colaboradores mensais, os padrinhos das atividades esportivas. Para os eventos maiores, cerca de 20 amigos nos ajudam. E para as festas da Páscoa, Dia das Crianças e Natal, conseguimos mobilizar em torno de 80 colaboradores. Só para ter uma idéia, no Natal de 2006, foram arrecadadas 4,7 toneladas de alimentos, que distribuímos para 367 famílias da favela que haviam sido cadastradas anteriormente. Na Páscoa de 2006, doamos 65 ceias para as famílias das crianças mais carentes do Projeto. Já na Páscoa deste ano, doamos 100 ceias, 100 kg de peixes e 1.000 pães. Somos um grupo de voluntários sem engajamento em atividades políticas. Para angariar os recursos necessários, recorremos aos amigos, e para ampliarmos e darmos continuidade, escolhemos a forma de apadrinhamento individual das crianças e gestantes. Como as necessidades dessas crianças e dessas gestantes extrapolaram o suporte material, surgiu a idéia de enviar aos padrinhos doadores notícias específicas sobre a situação delas, iniciando, assim, um processo de comunicação afetiva entre a criança ou a mãe gestante e o padrinho e consolidando, gradativamente, o sistema de apadrinhamento.

Pelo que podemos perceber, o trabalho com as crianças constituiu-se uma porta de entrada para outros tipos de atendimento, no caso o das gestantes.

Adriana: É verdade. Em janeiro de 2005, Deus falou ao meu coração que, além das crianças, eu tinha que mostrar o seu amor para as gestantes daquela comunidade e, em maio de 2005, eu e uma amiga do trabalho, a Juliana, iniciamos o projeto “Família Gestante”, com 20 gestantes carentes. Para isso, as indicações do Posto de Saúde do bairro ajudaram muito.

E como tem sido a aceitação por parte das gestantes?

Adriana: Bastante favorável. Por meio do Projeto, damos orientações médicas, odontológicas e sobre planejamento familiar a elas. Quando entram no nono mês de gravidez recebem um enxoval básico, necessário aos primeiros meses de vida do bebê. Atualmente temos um encontro a cada quinze dias, aos sábados, das 15:00 às 17:00hs. Temos informações de que o índice de aleitamento materno cresceu consideravelmente, e o de gravidezes de adolescentes recuou. Uma novidade interessante em relação ao planejamento familiar foi que desenvolvemos uma pulseira com bolinhas vermelhas e brancas representando o ciclo feminino. As bolinhas vermelhas indicam o período fértil e chamam a atenção das mulheres para o uso de preservativos durante as relações sexuais. Essa providência tem sido acompanhada de palestras, inclusive para adolescentes, sobre planejamento familiar. Porém a grande conquista do Projeto foi proporcionar a cada 15 dias a presença de um médico cardiologista/clínico geral para atender a comunidade. Esse profissional tinha ouvido falar do que estávamos fazendo e se interessou. Marcou um dia para conhecer os trabalhos e se tornou mais um voluntário. Criou-se uma agenda na favela, que fica sob a responsabilidade de uma das mães, para o agendamento de 20 consultas a cada quinzena. Já conseguimos atender cerca de 100 gestantes neste projeto. Atualmente estamos trabalhando com 20 gestantes. Já estamos no sexto grupo.

Onde o atendimento é prestado?

Adriana: No terraço da casa dos meus pais, a duas quadras da favela. E os exames são realizados nas clínicas particulares com as quais fizemos parceria. As gestantes são avaliadas uma vez por mês, e a comunidade, na outra visita.

A fonte dos recursos humanos e financeiros para atender às gestantes é semelhante à do projeto dos guerreiros?

Adriana: Exato, temos nove voluntários para atender a cada uma das nove oficinas que criamos. Essas oficinas prestam informações variadas que vão desde a concepção do feto até o nascimento. Durante o período das oficinas, as mães recebem cestas básicas. Três amigos investem financeiramente no projeto.

Gostaria de que você falasse um pouco do “Projeto Moradia Solidária”.

Adriana: Este projeto nasceu da necessidade de mostrar que as pessoas precisam ter seu direito à moradia digna garantido, e de que pequenos atos voluntários podem realizar verdadeiros milagres. Em setembro de 2005, como as chuvas foram bastante fortes, muitas famílias ficaram desabrigadas, devido às casas serem de taipas, às enchentes ou por serem destruídas pelo desmoronamento das barreiras. Com isso, visitei três casas que estavam em condições precárias e tive compaixão daquelas famílias. Estamos atrás de voluntários que possam doar materiais e mão-de-obra para garantir o sonho da casa própria a algumas famílias carentes.

Houve algum êxito neste sentido desde que o projeto foi criado?

Adriana: Graças à colaboração financeira de dois amigos e à mão-de-obra voluntária de 10 moradores da comunidade, conseguimos construir três casas em 2005. Para 2006, nossa meta é construir mais duas casas, além de um muro de sustentação que cubra toda uma área de risco para que as casas não estejam sujeitas a desbarrancamentos.

Gostaria que você contasse um pouco da experiência que vem tendo na evangelização de garotas e garotos de programa.

Adriana: Tenho chamado esta ação de “Projeto Amor Incondicional”. Creio sinceramente que precisamos sensibilizar as pessoas que são terrivelmente discriminadas pela sociedade. Elas precisam saber que existe um Deus que as ama da forma como são. Ultimamente, tendo observado a quantidade imensa de classificados em que garotos e garotas comercializam seu próprio corpo, através das páginas de jornais, não consegui ficar indiferente. Passei a enviar mensagens do amor incondicional de Deus aos números de celulares anunciados, e fiz isso por 40 dias. Dos 86 números selecionados na noite em que Deus colocou este projeto no meu coração, ao final dos 40 dias, 64 números deixaram de oferecer os seus serviços. Durante todo o período em que as mensagens estão sendo enviadas, contamos com um forte trabalho de intercessão em que 12 pessoas estão solidamente engajadas. Ainda este ano, temos a intenção de promover um chá que reúna esse público-alvo a fim de que possamos ministrar uma palavra sobre o amor incondicional de Deus por suas vidas.

Há algum trabalho de discipulado sendo realizado?

Adriana: As crianças de 4-15 são discipuladas e levam um devocional para fazerem com a sua família todos os dias. As que sabem ler devem trazer a cada encontro um resumo de uma matéria do Jornal GrupoNews (periódico produzido por amigos cristãos a quem estou ligada e distribuído bimestralmente a toda a comunidade – www.gruponews.com.br). As gestantes também são discipuladas durante o período do curso. Envio semanalmente um estudo pelos Correios para todas, as que participam e as que já participaram. Inclusive, muitas que já se beneficiaram do Projeto vão assistir às reuniões quinzenais com as novas turmas.

Os trabalhos têm sofrido oposições? Há confrontos? Perseguições? Os meninos que deixam as drogas não recebem assédio dos traficantes? Você não recebe assédio?

Adriana: Todo trabalho cristão sofre perseguições, principalmente as que não enxergamos com os olhos humanos. As lutas nos projetos são mais espirituais que carnais. Lidar com crianças e adolescentes que, em sua maioria, sobrevivem do tráfico, do roubo e da prostituição é muito difícil. São valores vivenciados desde a primeira infância. Então me apóio em outros valores, que são a esperança e a fé de um dia vê-los vivendo sem medos, de vê-los num trabalho digno, construindo uma família baseada nos valores cristãos. Quanto a perseguições físicas, não existem. Entro tranqüilamente pela favela, todos me estimam, sei respeitar os limites. Nunca critico quem quer que seja, pois a mudança terá que ser feita através do Espírito Santo nos seus corações.

Com o que você anda sonhando em relação à obra?

Adriana: Nosso objetivo para 2007 é ter um espaço físico maior dentro da comunidade para que estas crianças e seus familiares, durante a semana, tenham cursos e atividades seculares que lhes garantam acesso ao mercado de trabalho e, nos sábados, tenham um dia inteiro de consagração a Deus, ensaiando peças teatrais e danças como um meio de divulgarmos em outras comunidades o que Deus está fazendo na vida deles. Sonho em proporcionar discipulado para jovens, adultos e casais, sem vínculo denominacional, apenas com Jesus.

Relação dos Projetos:

PROJETO GUERREIROS DE JESUS

Missão: Proporcionar desenvolvimento humano, social, psicológico e afetivo, preparando a criança para a vida através da educação, atividades esportivas, artísticas e culturais, despertando nelas o valor da família, do trabalho, a conscientização da cidadania e o fortalecimento da fé cristã.

Crianças atendidas: 124

http://guerreiros.jesus.sites.uol.com.br/index.htm

PROJETO FAMÍLIA GESTANTE

Missão: Dar assistência às gestantes através de esclarecimentos, informações, orientações às futuras mamães que necessitam de amparo educacional, econômico e social para gerar um novo ser humano, e proporcionar-lhes a troca de experiências sobre o período de gestação.

Gestantes atendidas: 100

PROJETO MORADIA SOLIDÁRIA

Missão: Fornecer materiais de construção e organizar mutirões para construir casas dignas a famílias carentes.

Casas já construídas: 03

PROJETO VENCEDORES EM CRISTO JESUS

Missão: orar por todos os pedidos de oração recebidos por e-mail.

http://br.groups.yahoo.com/group/guerreirosdejesus jesusmeamasempre@hotmail.com

Solicitações recebidas: atualmente, 600 por dia

Adriana fica pessoalmente on-line no mínimo cinco dias na semana para orar pelas pessoas das 00:00 às 03:00. Já teve várias experiências de ser acordada com o endereço eletrônico de alguém em sua mente, e o Espírito Santo lhe revelar claramente o que tinha que escrever para aquela pessoa.

PROJETO AMOR INCONDICIONAL

Missão: Enviar mensagens do amor incondicional de Deus, via celular, durante 40 dias, aos garotos e garotas de programa que anunciam seus serviços nos classificados dos jornais.

Frutos do trabalho: Dos 86 números selecionados na noite em que Deus colocou este projeto no coração de Adriana, ao final dos 40 dias, 64 números haviam deixado de oferecer seus serviços.

PROJETO ALÉM DAS FRONTEIRAS

Missão: Dar oportunidade aos deficientes visuais de ler através do método Braille e de ouvir mensagens cristãs por meio da gravação de livros, disponibilizados, a seguir, aos institutos que cuidam de cegos, os quais se encarregam da distribuição por todo o estado de Pernambuco. Para isto conta com o envolvimento de cinco voluntários que digitam os livros no método Braille e de um voluntário responsável por gravar fitas de áudio com a narração de materiais cristãos.

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