Conhecendo a Vontade de Deus

Data de publicação: 23/08/2011
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Edição 44 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 44

Por Pedro Arruda

De maneira geral, podemos dizer que há duas atitudes que norteiam a busca do conhecimento da vontade de Deus:

1. Curiosidade e desejo de controlar o destino

Nesse caso, a pessoa se coloca diante do desafio de desvendar um mistério. É como decifrar um enigma. É assim para a maioria das pessoas e, talvez, essa busca do desconhecido seja exatamente o mais atraente de toda a questão, pois faz dela uma aventura, quer espiritual, quer intelectual. Dessa forma, o interessado se esforça para conhecer a vontade de Deus isoladamente, tratando-a como um ente próprio, e comporta-se como que movido por um certo fascínio pelo mistério do místico, desvendando, assim, seu objetivo, que não é outro senão a satisfação dessa curiosidade e/ou, em decorrência, o entendimento de como se dar bem na vida.

Considera-se o conhecimento da vontade de Deus como o conhecimento do futuro, ou melhor, como a manipulação do próprio futuro, de maneira a evitar as tragédias e alcançar a felicidade, partindo do pressuposto que Deus quer a felicidade das pessoas. Essa atitude é a mesma que leva a pessoa a ler a Bíblia, especialmente livros como Daniel ou Apocalipse, como estivesse consultando um horóscopo ou os escritos de Nostradamus.

Aqui não se trata de conhecer alguém – Deus -, mas de conhecer algo – a vontade de Deus -, como quem procura um objeto. Mesmo que isso seja feito através de uma exaustiva pesquisa, como se faz para conhecer um personagem inacessível, quer por se tratar de uma pessoa famosa e distante, quer por ser alguém importante na história, dando a impressão de que se procura conhecer alguém e não algo, pelo fato de não se permitir que o pesquisado interfira nas conclusões, ele acaba reduzido, assim mesmo, a um objeto.

2. Desejo de conhecer e se relacionar com Deus

Quando queremos conhecer a vontade de Deus, não devemos partir de nossas necessidades ou curiosidades, mas primeiro admitir que Deus é soberano e tem seus próprios meios ou caminhos para executar seus planos. Assim, devemos nos aproximar dele, como de uma pessoa viva e ativa, dispostos a aceitar a sua intervenção em nossa vida. Dessa forma, conhecer a vontade de Deus é uma conseqüência de conhecer Deus e, portanto, esse deve ser o objetivo principal. Ou seja, conhecer a pessoa de Deus.

É preciso ter a atitude própria de quem quer conhecer mais profundamente alguém com quem já se trava um relacionamento, que é ser acessível a perguntas diretas, cujas respostas permitam conclusões que confirmem ou corrijam a compreensão a respeito de determinado assunto. Pressupõe-se um relacionamento de confiança; há uma certeza de que aquilo que o outro fez, fará, deixou ou deixará de fazer será sempre o melhor, mesmo quando contraria a lógica humana. Portanto, conhecer Deus e sua vontade implica aliança e compromisso de ambas as partes.

Adquire-se o conhecimento de Deus e de sua vontade passo a passo, pois, à medida que compreendemos e aceitamos, abre-se a possibilidade para novas e maiores revelações. Num primeiro passo, devemos ter consciência de que há coisas na vida sobre as quais não tivemos a menor participação nem quaisquer condições de opinar. Nossa atitude sobre essas coisas pode desembaraçar completamente a perspectiva ou tornar-se um obstáculo intransponível para conhecer Deus e sua vontade.

Ninguém pode escolher nascer, muito menos a época, o local, os progenitores ou as condições em geral para esse importantíssimo fato. Tudo isso faz parte do pacote chamado vida, que Deus deu como presente para nós (Sl 139). Quando nos queixamos dessas coisas, além de sermos ingratos, estamos indiretamente dizendo a Deus que poderíamos ter feito melhor que ele. Assim, decididamente não estamos reconhecendo a soberania de Deus sobre nós e, ainda, lançamos desconfiança sobre as intenções ou capacidade dele de cuidar de nosso futuro; uma vez que já falhou no passado, pode falhar novamente e, portanto, preferimos nos acautelar e dirigir, nós mesmos, a nossa vida.

Reconhecer e aceitar a soberania de Deus sobre aquilo que não tivemos escolha determina nossa atitude com as escolhas sobre as quais temos responsabilidades, bem como o grau de participação que desejamos que Deus tenha nelas. O que estudar, com quem casar, onde morar, onde trabalhar, quantos filhos ter, quando fazer determinada mudança são questões que angustiam a todos em certos momentos da vida, acerca das quais desejamos que Deus fale claramente conosco sobre o que devemos fazer.

Muito nos ajudará saber de antemão que Deus deseja se fazer conhecido e, portanto, revela-se a nós por sua própria iniciativa (Am 3.3). Essa é uma grande distinção entre nosso Deus e os deuses daquelas religiões que lhes dão um determinado endereço e em cujo local recebem adoração. Ao invés de ser procurado, é Deus quem procura os homens. Desde o princípio foi assim. Embora pudesse fazer tudo sozinho, preferiu desde sempre contar com a parceria do homem, apesar de todo o prejuízo que este pode trazer aos seus planos. Mesmo quando o homem pecou, Deus saiu a procurá-lo e chamá-lo. Dessa forma, ele também não quer fazer nada sem antes revelar seus segredos aos seus servos, os profetas, ou seja, às pessoas qualificadas para atuarem como porta-vozes.

Saber que Deus não quer ocultar de nós nada que nos seja necessário apenas aumenta nossa angústia na medida em que não conseguimos ouvir a sua voz. Quando alinhamos nossa aceitação das coisas sobre as quais não tivemos a oportunidade de escolha, expressando nossa convicção de que Deus assim procedeu por amor a nós, com a verdade de que nosso Deus é um Deus que se revela, estamos nos habilitando aos passos seguintes para conhecer Deus e sua vontade.

Pedro Arruda faz parte do Conselho Editorial da revista Impacto, reside em Barueri, SP e é um dos coordenadores de uma comunhão de grupos espalhados por várias cidades e estados do Brasil.

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