Série “Comunhão Nossa de Cada Dia”-Parte V-Comunhão ou Divisão?

Data de publicação: 13/07/2011
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Edição 58 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 58

Por: Pedro Arruda

Comunhão e divisão são tão antagônicas quanto luz e trevas – desde quando as intenções de Lúcifer divergiram das de Deus. A partir daí, nosso adversário passou a usar – com muito êxito – a natureza da divisão como arma estratégica para enganar a humanidade. Começando com a primitiva Eva, usou sua sutileza para separá-la de Deus, caminho que seu marido também tomou logo a seguir. Como conseqüência imediata, cada um perdeu a própria integralidade devido à morte do espírito. A alma e o corpo, como partes sobreviventes desprovidas do espírito integralizador, remanesceram em conflito.

O homem separado de Deus, portanto, é um ser com divisões interiores expostas. Como pecador, traz em si a natureza divisionista, oposta à vontade de Deus, que é a unidade. Somente após o novo nascimento é que o homem tem possibilidade de integralizar-se novamente sob o comando do espírito, sujeito, por sua vez, ao Espírito Santo.

Os primeiros cristãos, por meio da experiência de conversão autêntica, reequiparam-se dessa unidade interior, o que os capacitou a mudar para um estilo de vida orientado pelo espírito; nada faziam sob perspectiva secular ou particular, mas tudo, absolutamente tudo, era para o reino de Deus – uma autêntica experiência de ser igreja.

Comunhão Como Objetivo e Não Como Meio

Satanás sempre tentou enfiar uma cunha nas pequenas brechas para rachar aquela igreja, como no episódio de Ananias e Safira (At 5.1-11), no atendimento às viúvas dos hebreus e dos helenistas (At 6.1-7), na observância da lei, especialmente da circuncisão, na adoção da graça (At 15.1-31) e nas disputas entre Paulo e Barnabé (At 15.36-40) e entre Paulo e Pedro (Gl 2.11,14). Contudo, a igreja superou todos os obstáculos e não se dividiu, pois manteve a comunhão em prioridade absoluta.

Era uma questão de natureza para aqueles cristãos, que não cogitavam dar vazão ao espírito divisionista. Esforçavam-se tanto para evitar o surgimento de divisões quanto para impedir sua concretização. Mantinham a unidade porque tinham como objetivo a comunhão. A doutrina dos apóstolos, o partir do pão e as orações protegiam a comunhão. Não se reuniam para ter comunhão, mas por ter comunhão é que se reuniam.

Rejeitar o espírito de divisão é uma questão de conversão, de dizer de que lado estamos. Se Deus preferiu a comunhão, como podemos optar pela divisão? Uma vez reconciliados e plenamente submissos à vontade do Senhor, estamos aptos a levar a outros o ministério de reconciliação (2 Co 5.17-20), fazendo de todos um só em Cristo, sem qualquer parede separatória (Cl 3.9-11). A comunhão produz a comunidade que tem o propósito de manifestar a vontade de Deus e dar visibilidade a seu governo.

Assim como o espírito precisa do corpo, a comunhão necessita da comunidade para expressar-se. Porém, à semelhança de um corpo autônomo que imagina ter vida própria sem o espírito, a comunidade desvinculada da comunhão comete grande erro quando se autovaloriza como um fim em si mesma. Tal qual um homem religioso, cujo corpo carece do espírito de vida, assim é a comunidade sem comunhão; um organismo morto que perdeu a finalidade de sua existência.

A comunidade que, ao invés de comunhão, manifesta divisão, presta um desserviço ao reino de Deus. É imperativo que a comunhão seja restaurada como finalidade e não apenas como um acessório ou meio para outra coisa qualquer. É inútil tentar salvar a comunidade em si, pois sua vida e saúde espiritual dependem do pré-requisito da comunhão. Se compreendêssemos isso, veríamos que nada justifica a divisão, nem mesmo as razões mais nobres que se costumam usar, tais como divergência de visão, doutrina, liberdade, governo ou outras. A igreja que não prioriza a comunhão encontra-se fragilmente exposta à divisão, colocando em dúvida se realmente está servindo a Deus ou a si mesma.

Não é Questão de Decisão, Mas de Coração

A obra mais importante de Jesus foi o cumprimento da vontade do Pai em tudo. Para ele, não era uma alternativa opcional ou acessória, mas o centro da vida. Nossa atitude não pode ser diferente se desejamos, de fato, experimentar semelhante comunhão e união com Deus, o que implica, inexoravelmente, usar a mesma consideração para com todos os que estiverem dentro da mesma vontade. Quando entendemos essa realidade, deixamos de perguntar a Deus sobre o que eu posso fazer ou deixar de fazer e passamos a perguntar se ele quer que eu faça determinada coisa.

Isso muda radicalmente a tolerância ao pecado. É como substituir o mandamento passivo de não matar, com o simples dever de omitir-se desse ato, pela atitude ativa de amar ao próximo como a si mesmo.

Como ocorre com a fé, a unidade não pode depender das circunstâncias, mas da atitude em relação à comunhão que há no coração. Diante de fatos que se apresentam, dividir ou prosseguir na unidade não é uma decisão a ser tomada, mas tão-somente a manifestação do que somos. Se sou dividido, manifesto a divisão que há em mim. Se sou integral – alma e corpo comandados pelo espírito –, manifesto a minha unidade interna. Portanto, trata-se da manifestação de um princípio que está no coração: o de comunhão e unidade do Espírito Santo ou da divisão de Satanás.

Devemos sempre lembrar que a natureza do pecado de divisão foi sutilmente instalada dentro de nós pelo inimigo divisionista de Deus. Usando a maneira de pensar deste mundo, ele inicia seu trabalho dividindo nossa vida em secular e sacra como uma forma estratégica de concorrer com a vontade de Deus e de deixar-nos indecisos entre as duas alternativas. Essa dicotomia aparece nos ambientes de maneira geral, mas principalmente na família e na igreja, ao fazermos acepção de pessoas, excluindo aquelas com as quais não queremos conviver. Não se trata de preferir algumas, o que é legítimo, mas de rejeitar outras, o que não é, absolutamente, uma atitude do Espírito Santo. Esta dicotomia escraviza-nos como dependentes das circunstâncias, que passam a dirigir nossa vida.

A razão que leva alguns casais a se separarem, enquanto outros permanecem unidos, não são as circunstâncias diferentes que enfrentam, mas a atitude que têm diante do casamento. Quando alguém se dispõe a servir o pecado da divisão, torna-se servo dele (Rm 6.16). O mesmo espírito divisionista opera na família, entre os casais, e na igreja, entre líderes, grupos ou irmãos; o que muda é a frente de batalha. A rendição numa das frentes não nos tornará mais resistentes em outra; pelo contrário, fortalecerá o inimigo dando-lhe mais terreno. A consistência da unidade familiar refletirá diretamente sobre a igreja, e vice-versa.

O inimigo que a igreja enfrenta, nos dias atuais, não é mais poderoso do que aquele que enfrentou nos tempos primitivos, e as circunstâncias não são mais adversas agora do que antes. A mesma ameaça de divisão que pairava sobre a igreja primitiva também está sobre a igreja atual; a diferença da reação é porque aquela considerava a perseverança na comunhão prioridade absoluta e não tinha tolerância alguma à divisão. As mudanças que acontecem exteriormente à igreja não justificam seu declínio. O que de fato mudou foi a atitude dos cristãos, que abandonaram a comunhão como princípio de unidade, passando a tratá-la como algo apenas desejável sempre que possível e assumiram a divisão como alternativa saudável. Ora, os cristãos, ao praticarem a divisão, inconscientemente atentam contra a vontade de Deus (Jo 17.23), entorpecidos pelo engano do conhecimento do bem e do mal numa base estranha.

Tanto a tolerância a iniciativas divisionistas quanto a omissão de evitá-las são uma sutil subordinação a Satanás! Estas podem manifestar-se por meio de uma conivência disfarçada quando um lado deseja, ocultamente ou não, que o outro tome a iniciativa primeiro e dê causa à separação – como cônjuges que desejam a morte ou o adultério do outro, pretendendo parecer vítima inocente diante das pessoas e até mesmo de Deus. Isso é tratar politicamente a questão da divisão com a estrita preocupação de preservar a reputação, enquanto Deus verifica se a atitude está coerente com sua vontade (Mt 5.20-28). Ele espera que resistamos até ao sangue, combatendo esse pecado também (Hb 12.4), fazendo de tudo para evitar que o outro tome a iniciativa, ainda que tal divisão ofereça uma sensação de alívio. Não podemos, mesquinhamente, encarar a divisão apenas com a preocupação de explicar nossa aparente inocência às pessoas. Tais explicações, por mais malabaristas que sejam, serão apenas a história de como fui enganado pelo diabo e tornei-me seu parceiro.

Há ainda aqueles que, totalmente desiludidos com a igreja atual, recusam qualquer tipo de reunião até que um milagre restabeleça as condições ideais da igreja para, então, dela participar. Essa atitude, aparentemente neutra, é apenas mais uma divisionista como a daqueles que se diziam ser de Cristo diante de outros que se diziam de Paulo ou de Cefas. Uma das justificativas para não se reunir é a ausência de reuniões fixas na igreja primitiva. Ora, a igreja primitiva não adotava uma agenda de reuniões pela mesma razão que não tratava de dízimos. Os cristãos daquela época estavam juntos todos os dias; era quase uma reunião permanente, e tinham tudo em comum. Assim, só justificaria a adoção de uma agenda de reuniões e uma doutrina sobre contribuições dizimistas se tivessem a intenção de restringir os encontros e limitar as contribuições (At 2.42-46; 4.32-35).

Assim como Deus elegeu a comunhão como caminho para a unidade, Satanás escolheu a divisão para separar os homens de Deus e uns dos outros a fim de uni-los a si. A escolha de um desses dois princípios determinará de que lado estamos na batalha. Detalhe: não existe a neutralidade de uma terceira via puramente humana.

Na próxima edição:Comunhão e separação à maneira de Deus

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