Série “Comunhão Nossa de Cada Dia”–Parte XI-Comunhão e Fé

Data de publicação: 29/04/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 64 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 64

Por Pedro Arruda

Temo que o conceito de fé, nos dias de hoje, esteja muito mais associado com a filosofia de autoajuda do que com aquele que é apresentado na Bíblia. Tem-se tornado refém da busca de felicidade humana que só dá atenção aos aspectos do sobrenatural que promovem sucesso pessoal, especialmente no plano material e físico. Estamos rodeados por uma grande nuvem de testemunhas contemporâneas que, num emaranhado de vozes, proclamam na mídia: “Eu consegui!”. Como já ouvimos bastante sobre esse aspecto da fé, pretendo ater-me ao que se relaciona com o sucesso do propósito de Deus, a fim de acharmos nele um aliado na prática da comunhão.

Em Hebreus 11, o famoso capítulo sobre a fé, encontramos duas categorias de pessoas: as que foram livradas do sofrimento (vv. 3-35) e as que não foram (vv. 35-38). É importante notar que, em ambos os casos, as pessoas eram provadas em relação à fidelidade a Deus, ao contrário do que se nota atualmente, quando nem sempre a tribulação decorre do compromisso com Deus. Portanto, esse capítulo mostra-nos a fé como uma ferramenta para nos manter fiéis a Deus.

Para que devemos usar a fé?

Temos de considerar, primeiramente, que a fé é um dom de Deus a todos, fazendo parte, de certa forma, de cada pessoa desde o início de sua existência. Posteriormente, à medida que amadurece, o homem vai tomando consciência e passa a ser responsável pelo seu uso, podendo até lançar mão dela para voltar-se contra o Criador e negar sua existência. Como a existência de Deus não pode ser provada cientificamente, pois nem sequer pode fazer parte de uma experiência repetível de laboratório, qualquer afirmativa ou negativa nesse sentido é uma declaração de fé. Ou seja, é uma questão de fé declarar que se crê na existência ou na inexistência de Deus.

Deus nos equipou com a fé a fim de possibilitar que víssemos as coisas do ponto de vista dele, pois isso é o que ocorre quando damos crédito ao que ele fala. Sabemos que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6) e, também, que é a obediência que mais lhe agrada (assim como é a rebeldia que mais lhe desagrada – 1 Sm 15.22,23). Portanto, o uso mais precioso que podemos fazer da fé é aplicá-la a favor de nossa obediência a Deus.

Se, por um lado, só podemos agradar a Deus por meio da fé, o inverso também é verdade, pois tudo o que não é de fé é pecado (Rm 14.23). Isso pode parecer-nos estranho, pois, devido ao fato de sermos acostumados a exercitar a fé para conquistar coisas para nós, não vemos sentido em relacionar a ação desprovida de fé com o pecado. Chegamos até mesmo a considerar que a fé não é necessária para muitas coisas que fazemos. Por exemplo, se dispomos de recursos, cumpre a nós decidir se devemos adquirir ou não determinado bem. Entendemos que somente necessitaríamos de fé caso não tivéssemos tais recursos. Esse pensamento é próprio do uso da fé em benefício próprio. Se considerássemos que a fé tem, como função principal, prover-nos condições para agradar a Deus, nosso foco não seria a suficiência de recursos, mas a vontade do Senhor. O importante seria ponderar se tal negócio corresponde ou não a ela. Somente pela fé temos condições de conhecer a vontade de Deus e de obedecê-la.

Existe um campo neutro?

Portanto, a distância entre agradar a Deus e pecar é tão ínfima que não permite uma faixa intermediária de neutralidade em que eu possa agir sob a indiferença de Deus. Muitos imaginam que haja tal espaço de flexibilidade no qual, para Deus, tanto faz se agimos de um jeito ou de outro; desde que não o ofendamos, também não precisamos agradar-lhe. Nesse caso, o homem poderia não se comprometer com Deus e, ao mesmo tempo, não ser perturbado por Satanás, pois pensa que ali ninguém tem direito sobre ele; sente que está acima do bem e do mal, pois, afinal, não está fazendo nada de errado.

Se queremos experimentar verdadeira comunhão, temos de saber que Deus se importa com tudo, absolutamente tudo a nosso respeito. Assim vivia a Igreja quando nasceu: tinham tudo em comum, reuniam-se todos os dias, tinham um só coração, alma e corpo. Nada do que possuíam era considerado de uso ou propriedade particular. Essa não era apenas uma regra de economia, mas um estilo de vida que ia muito além dos bens materiais; tudo o que faziam levava em conta as implicações daquele ato para o reino de Deus. Os primeiros cristãos não concebiam que pudesse existir um espaço neutro sem interferência de Deus. Faziam tudo como se fosse para o Senhor.

Um dos motivos por que deixamos de perguntar ao Senhor a respeito de certas decisões é o receio de uma resposta semelhante àquela que foi dada ao jovem rico, quando ele perguntou o que deveria fazer para entrar na vida eterna. Na verdade, esse receio não é tanto por causa do risco da resposta, mas pela previsibilidade de nossa reação ser igual à dele. Assim, parece-nos melhor não perguntarmos para não nos comprometermos, imaginando que, acobertados por uma pseudoignorância, possamos continuar a agir livremente dentro de nossa vontade pessoal.

Atitudes como essas demonstram o quanto nossa fé é falha quando maldirecionada, ou seja, a nosso favor. Não aprendemos a dirigir nossa fé para seu sentido original, o de agradar a Deus. Por isso, permitimos manifestar em nós a mesma desconfiança que Satanás implantou em Eva quando a convenceu a acreditar numa mentira, fazendo-a supor que poderia haver outra possibilidade para a vida melhor do que a proposta por Deus.

Outra razão para as pessoas terem receio da vontade do Senhor é porque a veem como uma obrigação em contraposição à graça falsamente conceituada como liberdade de fazer a própria vontade. Ora, experimentar a graça é desejar e poder fazer a vontade de Deus, independente da lei. Ter a possibilidade de conhecer e fazer a vontade de Deus não pode ser entendido como obrigação frustradora de nossa felicidade. Muito pelo contrário, é grande dádiva, graça por excelência que recebemos no momento da salvação, pois é muito superior à nossa.

O propósito da fé nos personagens bíblicos

Há algo que teima em ficar escondido nos dias de hoje quando se lê sobre as ocorrências de fé dos personagens bíblicos: as intervenções miraculosas eram para dar curso ao plano de Deus e não simplesmente para prover um benefício pessoal a alguém. Havia claramente esse contexto na vida deles.

Veja Noé, que integrou toda a sua vida num ministério, fazendo atividades dentro de uma profissão que pode ser considerada completamente secular. Ele foi poupado do dilúvio para dar prosseguimento ao plano de Deus de executar o maior projeto de preservação de espécies de que se tem notícia.

Abraão, talvez o homem mais citado como exemplo de prosperidade material, possuiu tanto porque estava no contexto de seu chamado. Contudo, a mais importante jornada de fé da vida de Abraão não teve ligação com a posse de bens, mas ao desapego deles. Trata-se da jornada subjetiva que transformou Abraão de um caldeu idólatra no pai na fé. Ele, de fato, recebeu muitos bens; no entanto, não o vemos fazendo campanha a favor deles. No final da vida, alojado no território da Terra Prometida, seu coração já estava na cidade que tem fundamentos. Os bens materiais que Deus deu a Abraão eram inerentes ao seu chamado, da mesma forma que não os ter o era para o chamado de Jesus.

Não podemos, de forma alguma, negar que Deus abençoa pessoalmente, pois nós mesmos somos prova disso. Contudo, se não encontrarmos nexo entre a bênção particular e o cumprimento de nossa vocação, pouco poderemos glorificar a Deus pelo milagre recebido. Foi assim com Ana, a mãe do profeta Samuel que revelou Davi como rei; foi assim com cada um que Jesus curou nos dias de seu ministério, com o aleijado, da porta Formosa do Templo, que recebeu a cura por intermédio de Pedro e João, e com todos os demais. Nenhum milagre foi algo aleatório ou desperdiçado ao propósito de Deus. Deus tem mais interesse no milagre do que o próprio beneficiado, e descobrir as razões disso nos habilitará a darmos a glória devida ao seu nome. Sem essa compreensão, o valor do milagre fica reduzidíssimo.

Realidade espiritual e aparência natural

No cenário bíblico, podemos perceber a existência de duas dimensões que, para efeitos didáticos, chamaremos de realidade espiritual e aparência natural. Elas surgiram desde o encontro de Satanás com Eva e são representadas pelas duas árvores discriminadas como a árvore da vida e a do conhecimento do bem e do mal. Após ceder à tentação, Eva e Adão foram, por assim dizer, transportados de uma dimensão para outra. Deus, na verdade, não planejava deixá-los sem conhecimento, mas iria iluminá-los via árvore da vida, baseado na verdade. Com o pecado, porém, a busca do conhecimento passou a ser feita com base na aparência natural que, desde aquele início, baseou-se na mentira de Satanás.

Na dimensão da aparência natural, Satanás encontra condições para agir, baseando toda a sua estratégia exclusivamente na mentira, que é de sua autoria. Como ele não dispõe de nenhuma verdade, só lhe resta maquiar a mentira para dar a aparência de verdade. Ele procurará, de todos os meios, manter-nos cativos a essa dimensão da aparência natural, até misturando um pouco de verdade à sua mentira com o intuito de apresentá-la como verdade pura. Seu objetivo é alcançado à medida que damos crédito à suas mentiras.

Por outro lado, a verdade está na dimensão da realidade espiritual desde a sua base. É plenamente sólida e confiável. Contudo, devido ao pecado, seu acesso está velado, a menos que o homem aceite a revelação dessa verdade. O único meio para isso é por meio da fé que nos liberta mediante o conhecimento revelado da verdade.

Logo, de maneira geral, embora Satanás se esforce para impedir que usemos a fé, seu empenho maior é para impedir nosso acesso à realidade espiritual, pois é isso que o desmascara completamente, escancarando seus ardis e disfarces e liberando-nos completamente de suas garras. Ele não se importa tanto que uma pessoa creia a ponto de receber uma cura física desde que não resulte na descoberta de realidade espiritual.

Quando o povo de Israel chegou à divisa da Terra Prometida, travou-se uma imensa batalha invisível aos olhos naturais, pois essas duas dimensões estavam em choque no coração dos hebreus. A dimensão da realidade espiritual foi representada pela postura de Josué e Calebe, enquanto os outros dez espias argumentavam com base na aparência natural (Nm 13,14). Seguir a aparência natural era raciocinar de maneira lógica, mas seguir a realidade espiritual era uma decisão de fé. Essa prova servia para dizer-lhes que, antes de habitarem a Terra Prometida, eles precisavam decidir em qual dimensão iriam viver. Como povo do Senhor, deveriam permanecer alicerçados na realidade espiritual para diferenciar-se dos outros que se baseavam na aparência natural. Fé e obediência são indissociáveis.

Outro exemplo bastante elucidativo é o episódio em que o exército da Síria cerca o profeta Eliseu. O seu moço, Geazi, vê apenas a aparência natural e se desespera; porém, depois que Eliseu ora para que seus olhos sejam abertos à realidade espiritual, ele, então, enxerga as milícias celestiais de anjos que estão sujeitando o exército inimigo (2 Rs 6.15-19).

Portanto, o justo viver pela fé significa que, para manter-nos na dimensão da realidade espiritual, é necessário um exercício constante de fé para que não recuemos e deixemos de desfrutar do prazer do Senhor em nossa alma. Os ensinamentos de Jesus, no Sermão da Montanha, só podem ser compreendidos corretamente se vistos a partir da perspectiva da realidade espiritual. Por isso, os judeus religiosos, fincados na aparência natural, tinham tanta dificuldade, para não dizer incapacidade, de assimilá-los.

Um dos embates mais tensos de Jesus com os judeus religiosos está registrado no evangelho de João (cap. 8). Não é para menos, pois ali o Senhor denuncia, com toda a clareza, a estratégia que Satanás usa, historicamente, para tentar sobrepor a realidade espiritual com aparência natural.

Portanto, se pretendemos, de fato, viver em comunhão, precisamos optar pela dimensão da realidade espiritual, na qual experimentamos a vontade de Deus como boa e agradável. Porém, se nos mantivermos presos à aparência natural, tentaremos sempre buscar o melhor em nós mesmos – e quão miseráveis e enganados seremos!

Usar a fé para trocar o nosso ponto de vista pelo de Deus é usá-la para agradar-lhe, para não pecar e para conhecer e executar o seu propósito. Se a considerarmos como um recurso para manutenção de nossa fidelidade, vamos descobrir que não devemos ter receio de viver segundo a sua vontade, pois ela é, de fato, infinitamente superior à nossa, e jamais encontraremos alternativa que nos seja mais agradável. Vamos descobrir, como diz o salmista, que nossa felicidade é andar nos caminhos do Senhor, ansiar por seus mandamentos e por sua lei, desejar os seus estatutos e desfrutar do prazer da sua palavra.

Quando esse for nosso sentimento a respeito da vontade do Senhor, saberemos que, por meio da fé, aprendemos a ver do ponto de vista dele. Passamos a ver a realidade espiritual que é invisível aos olhos naturais. É nessa dimensão que se experimenta a comunhão. Assim como pelo pecado o homem foi transferido para a dimensão da aparência natural, pela fé podemos ser restaurados à dimensão da realidade espiritual da comunhão.

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