Série “Comunhão Nossa de Cada Dia”-Parte X-Comunhão e a Palavra de Deus

Data de publicação: 29/04/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 63 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 63

Por Pedro Arruda

De modo geral, a palavra é o elemento fundamental da comunicação. É um signo universal que engloba conceitos, ideias e tudo o que é necessário até mesmo para o pensamento, que é um estágio anterior e pré-requisito à comunicação. Assim, podemos localizar dois momentos bem distintos da palavra: pensamento e linguagem.

A palavra enquanto pensamento faz parte integrante da pessoa. Pode, talvez, até ser considerada sua essência, pois ali residem todas as elaborações, a interação entre razão e emoção na qual todas as coisas são planejadas quer venham a transformar-se em ações, quer não. Diz respeito à intimidade, àquilo que se processa no interior da pessoa.

Posteriormente, parte de tudo o que se passou no pensamento será exposta num outro estágio que denominamos linguagem. É a exteriorização da palavra, que pode ser expressa pela fala, por gestos, pela escrita, etc. É a mesma palavra em várias formas assim como a água pode apresentar-se em estados diferentes, como sólido, líquido e gasoso, sem mudar sua essência.

Obviamente, a quantidade de palavras nos pensamentos é muito maior do que a que se transforma em linguagem, pois, ao comunicar-se, a pessoa escolhe as palavras para determinada finalidade objetiva e omite aquelas que julga desnecessárias ou inconvenientes às suas intenções. Embora a comunicação por meio de palavras seja insuficiente para conhecer uma pessoa, ainda assim podemos considerar que constitui o principal ponto de partida para tal conhecimento, pois as palavras têm origem no interior de cada um. Não é por acaso que, muitas vezes, enquanto ouvimos alguém, surgem dúvidas em nosso interior tais como: “O que ele quer dizer com isso?” ou “Aonde ele quer chegar?”. Paralelamente, tentamos usar as palavras que chegam a nós por meio da fala, das expressões ou da escrita para espiar o interior de nosso interlocutor, aproveitando as frestas abertas por sua comunicação. Ou seja, ouvimos a linguagem, mas, ao mesmo tempo, fazemos um esforço para desvelar o pensamento.

Isso acontece porque sabemos que pode não haver uma total correspondência entre o pensamento e a linguagem de cada pessoa. As pessoas mudam no transcorrer do tempo, quer pelo desenvolvimento natural em direção à maturidade, quer por mudanças de opinião como de quem experimenta uma genuína conversão de vida, quer porque sua linguagem também está a serviço de intenções veladas. Concluímos, então, que somente a linguagem não basta para realmente conhecermos a pessoa; é imprescindível que conheçamos também seus pensamentos.

Podemos aplicar esse mesmo raciocínio a Deus desde que guardemos algumas diferenças. Em primeiro lugar, Deus não muda, pois não está sujeito a qualquer desenvolvimento. Ele sempre é; portanto, sua palavra também é imutável. Em segundo lugar, Deus não mente; consequentemente, não falseia entre o pensamento e a linguagem. Sendo assim, ao contrário do homem, há perfeita coerência entre o que Deus pensa e o que fala.

Entretanto, há pontos na comunicação divina que guardam relação com a comunicação humana. A limitação da linguagem é uma delas. João escreveu que, por falta de espaço no mundo, não daria para escrever tudo o que Jesus ensinou e fez. Podemos imaginar o esforço para colocar em palavras suas visões apocalípticas ou a espiritualidade que perpassava no coração. Na Bíblia, encontramos, muitas vezes, os autores recorrendo a expressões que mostram a limitação das palavras. Por exemplo, João traduz o tamanho do amor de Deus por “de tal maneira” (Jo 3.16), enquanto Paulo tenta expressá-lo dizendo que precisamos compreendê-lo em toda a sua “largura, comprimento, altura e profundidade” embora exceda “todo entendimento” (Ef 3.17-19). Depois, Paulo ainda afirma que Deus faz “tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos” (Ef 3.20) e, por fim, para “jogar a tolha”, ele se refere ao que ouviu quando foi arrebatado como “palavras inefáveis” (indescritíveis por palavras humanas), “as quais não é licito ao homem referir” (2 Co 12.4). Evidentemente, quando relacionamos Comunhão com a Palavra de Deus, estamos referindo-nos ao âmbito da Palavra enquanto pensamento e não somente como linguagem.

Percebemos, então, que João e Paulo estavam no pensamento de Deus quanto à Palavra, embora tivessem de transmiti-lo sob a limitação da linguagem. Assim, também, podemos entender quando a Escritura diz que Moisés conhecia os caminhos do Senhor enquanto o povo só via seus feitos (Sl 103.7). Moisés, como legislador, mais do que a letra, conhecia também o espírito da lei. Da mesma forma, Davi – um homem segundo o coração de Deus –, em cuja boca foram antecipados até palavras, situações e sentimentos que Jesus viria expressar em sua encarnação. Enquanto Moisés se destacava pela razão, como legislador, entrando em detalhes da mais acurada engenharia, Davi notabilizou-se pela emoção do coração, transformando em arte (como poesia, dança, música e outras) aquilo que pulsava no coração de Deus.

Esses autores bíblicos não tinham a consciência da importância do que escreviam ou de como seria preservado para as futuras gerações. Tampouco Paulo e João sabiam que estavam escrevendo a Bíblia; tanto eles quanto os destinatários imediatos das missivas julgavam ser apenas cartas pessoais. Porém, acima de tudo, esses textos reproduziam em linguagem a palavra que procedia diretamente do pensamento de Deus. Isso era o que, de fato, tornava-os importantes.

Deus tem meios multiformes para se comunicar com o homem, e a Bíblia é um deles. Seja qual for o meio, a linguagem sempre será insuficiente para uma compreensão plena. Por isso, é necessário conhecer também o pensamento de Deus no qual se origina a linguagem.

No embate com Jesus durante a tentação no deserto, Satanás apoderou-se da linguagem para tentar induzir Jesus ao pecado, afirmando a cada proposta: “pois está escrito”. Mas enquanto ele se atinha ao raso da linguagem, Jesus ancorou-se no profundo pensamento, fonte da palavra, e advertiu-lhe que têm valor para a vida as palavras que procedem da boca de Deus: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Um pouco depois, fulminou-o com sua exclusividade ao Pai: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.10).

Portanto, não basta apenas linguagem, pois esta pode ser distorcida segundo as intenções de quem a está usando. A procedência também tem de ser original e autêntica. A água só pode ser considerada viva enquanto está em contato direto com sua fonte. A partir do momento em que é engarrafada, começa a contar seu prazo de validade e está sujeita a alterações.

A Bíblia não deve ser usada como um amuleto cristão, pois, como objeto, não tem nenhum poder divino em si. As palavras ali impressas somente terão efeito ao reagir com um coração que as receber como palavra de Deus. Isso só é possível mediante a ação do Espírito Santo que as escreveu conhecendo o pensamento de Deus e que, agora, é poderoso para revelá-las ao leitor. É ele que faz a conexão entre linguagem e pensamento, autenticando a fonte da palavra, a boca de Deus.

Pode parecer paradoxal, mas é possível alguém ler a Bíblia e aumentar ainda mais seus pecados se a ler com intenções erradas, como tentar tirar proveito para si, com fins estranhos àquilo que a própria Bíblia ensina. Há quem leia a Bíblia, especialmente os livros proféticos, como Daniel e Apocalipse, para fazer correlações com os escritos de Nostradamus e outros autores esotéricos, nivelando todos como ferramentas para tentar adivinhar o futuro e fazer prognósticos. Restringir a Palavra de Deus apenas à linguagem pode conduzir-nos a erros, principalmente se a interpretarmos segundo intenções pessoais.

Jesus é a Palavra de Deus de acordo com o evangelho de João. Porém, Jesus não era apenas a linguagem de Deus; era também seu próprio pensamento, a exata expressão de seu ser. Jesus, como homem, foi a linguagem encarnada do pensamento do Pai. Como o Pai pensava, Jesus agia. Essa foi sua missão. Depois de sua ascensão, enviou o Espírito Santo para guiar-nos a toda a verdade, dando continuidade, assim, a seu ministério junto aos homens. Sendo este, agora, um ministério coletivo, é imprescindível a comunhão como a temos conceituado ao longo desta série, ou seja, um ambiente de inter-relacionamento no qual não prevalece a vontade das pessoas, seja a de alguém mais expressivo, seja a média ou a soma de todas as opiniões, e, sim, o resultado do esvaziamento completo de todos em favor da direção exclusiva da vontade de Deus.

Para se viver nesse ambiente, é imperioso que cada um se disponha a encontrar o pensamento de Deus e não se limitar apenas à linguagem da Palavra de Deus que é insuficiente até para prover a comunhão.

O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual  estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 1.1-3).

Se desejamos experimentar a verdadeira comunhão, não podemos contentar-nos com o raso da linguagem bíblica; é preciso, por intermédio do Espírito Santo, associá-la diretamente à fonte de seu pensamento. Por outro lado, a vida em comunhão permite um ambiente para a manifestação da Palavra, vinda do profundo de seu pensamento. Essa reciprocidade cria um ciclo continuo de fortalecimento da prevalência diretiva da vontade de Deus.

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