Como Será a Igreja do Século XXI?

Data de publicação: 16/12/2011
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Edição 02 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 02

Desde o seu início no dia de Pentecostes, durante o seu declínio na Idade Média e progressiva restauração a partir dos dias da Reforma até hoje, a igreja do nosso Senhor Jesus Cristo tem passado por mudanças constantes em sua maneira de crer, de agir e de se expressar no mundo. Tão grandes foram estas mudanças que é provável que se os fiéis de qualquer época determinada da história da igreja fossem transportados de repente para outra, teriam dificuldade não apenas para se encaixarem na igreja daquela época mas até para a reconhecerem como sendo uma legítima expressão do Cristianismo. No entanto, a igreja que hoje existe na face da terra é o resultado de todas estas transformações que ocorreram durante a história. Por mais que repudiemos determina das fases e expressões da igreja, não podemos negar que todas tiveram participação em nossa formação.

À medida que nos aproximamos do início não só de um novo século mas de um novo milênio, urge discernirmos quais serão as próximas mudanças que ocorrerão na igreja. Mencionamos acima que durante sua história a igreja tem mudado sempre, mas há um aspecto novo no mundo que a cerca hoje — a velocidade das mudanças. Coisas que antes levavam séculos para mudar atualmente levam apenas décadas. O mundo todo (científico, tecnológico, econômico, político, social) está num ritmo alucinante de transformação. Se os profissionais em qualquer área não se atualizarem constantemente, de um momento para outro podem tornar-se obsoletos e serem descartados da máquina mundial.

E a igreja? Se mudanças têm sido uma constante em sua história, quanto mais serão necessárias hoje! Como exemplo basta observar o que aconteceu com as igrejas que rejeitaram o derramamento do Espírito que começou no início deste século. Aquilo que no início era descartado como o “fanatismo” de um bando de pessoas humildes em Los Angeles, EUA, hoje se tornou praticamente condição essencial para existência. As igrejas tradicionais estão quase nos últimos suspiros enquanto os sucessivos derramamentos do Espírito neste século têm produzido a maior colheita de almas da história, mudando a face de nações inteiras.

Mas será que a igreja atual está pronta para a segunda vinda de Jesus? Será que está expressando fielmente ao mundo o mistério do reino dos céus que Jesus veio trazer na sua primeira vinda? Será que a semente que ele plantou está produzindo muitas sementes iguais a ela e prontas para a colheita (Jo 12.24)? Será que a igreja representa uma alternativa válida de vida para o mundo em que vive? Será que tem as respostas para as perguntas que o mundo está fazendo? Será que está pronta para enfrentar os desafios do século XXI? Será que vai parar no tempo e gradativamente se tornar obsoleta? Por outro lado, será que vai se contextualizar tanto que perderá sua própria essência? Quais são as nossas opções para o futuro? Como podemos manter, ou quem sabe, redescobrir, a essência do evangelho puro e ao mesmo tempo sobreviver no mundo moderno?

Para responder estas perguntas precisamos nos colocar diante de Deus com muita humildade, coragem, dedicação, zelo e desespero. Precisamos parar de procurar soluções fáceis para manter o povo contente e confortável na igreja, a última “moda evangélica”, o mais novo truque ou idéia para segurar o interesse das pessoas através de satisfazer os seus desejos egoístas de alegria, dinheiro, saúde ou conforto. Precisamos buscar visão para o futuro na Palavra, na oração, na comunhão e no estudo da história.

Não temos a pretensão de conhecer todas as respostas mas queremos neste artigo fazer um apelo apaixonado para quem tem ouvidos para ouvir dar prioridade à busca delas. Queremos também levantar questões, fatos e princípios que podem servir como pontos de partida nesta procura.

Ainda que não entendamos muita coisa que aconteceu com a igreja (principalmente por que Deus permitiu que ela declinasse tão rapidamente), com a perspectiva proporcionada a nós por quase dois mil anos de história, podemos discernir nas parábolas de Jesus suas previsões a respeito da história da igreja. Tanto na parábola sobre a semente de mostarda quanto na que fala do fermento (Mt 13.31 -33), ele deixa claro que o evangelho cresceria assustadoramente sobre toda a face da terra ao mesmo tempo que seria contaminado com heresias, vaidade humana e espíritos malignos (basta um estudo elementar para ver o significado espiritual na Bíblia de aves do céu se aninhando nos ramos do pé de mostarda e de fermento levedando a massa toda). A parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-30) reforça este conceito sobre a mistura que contaminaria a igreja, mas além disso fala de uma separação final que também é enfatizada na parábola sobre a separação dos peixes bons dos / maus (Mt 13.47-50). Resumindo, podemos dizer que Jesus previa um grande crescimento, uma grande contaminação e uma grande separação ou purificação final. Os primeiros dois aspectos já aconteceram e ainda estão acontecendo. Quando virá o último?

Se enxergarmos a igreja como a videira que cresceu a partir da semente que Jesus plantou (que era ele mesmo, sua própria vida) veremos que o alvo dela é produzir muitas sementes iguais à semente original (Jo 12.24; Mc 4.26-29; Jo 15.5; 1 Co 3.9; Is 53.10,11; Rm 8.28,29). Se conhecemos o alvo da igreja torna-se mais fácil discernir quais mudanças são necessárias e quais são prejudiciais. Existem mudanças causadas pelo ambiente e mudanças produzidas pela vida interior. Precisamos discernir entre as duas. Durante a história a igreja vem sofrendo mudanças dos dois tipos. As do primeiro tipo fazem com que a igreja assimile os valores das culturas ao seu redor para evitar choques e perseguições e torná-la mais agradável às pessoas. As do segundo tipo visam levá-la ao seu objetivo final que é produzir uma grande colheita na terra de pessoas na imagem de Jesus. Ambas têm mudado o jeito de ser da igreja em cada geração.

Portanto, para a igreja atual ser preparada como noiva gloriosa para o retorno do seu Noivo (Ef 5.25-27), ela precisa não só sofrer aquelas mudanças naturais produzidas pela vida interior da planta quando esta se prepara para a fase final (a produção de sementes). Ela precisa também ser purificada das contaminações que surgiram durante a história e que deturparam a sua verdadeira essência. No processo normal da vida, mudanças são necessárias. No final da história, Deus não quer uma cópia da igreja de Atos. Ele quer uma igreja que ultrapassará àquela, que não terá apenas o frescor do primeiro amor mas também a maturidade produzida pelo tempo. Infelizmente, porém, não podemos nos preocupar apenas com o processo natural de mudança rumo à perfeição. Precisamos também de mudanças que desfaçam as mudanças espúrias que têm feito a igreja conformar-se com este mundo. Cremos que a igreja do século XXI terá de mudar nos dois sentidos.

Para cooperarmos com esse processo precisamos entender o que é a essência  da  igreja. Usando a outra ilustração bíblica mais usada para descrever a igreja, a da construção de um edifício, precisamos não apenas tirar os escombros das gerações passadas mas também as  edificações mais recentes, lindas mas fora  do padrão apostólico, e achar o alicerce original para então construirmos com segurança. Como a igreja começou? O que o fundador dela tinha em mente? Como ele a enxergava? Qual era a sua estratégia?

A maneira que Jesus começou a igreja é extremamente estranha comparada à nossa maneira humana de fazer as coisas. Apesar da igreja ser o resultado mais sólido da sua vinda para a terra, ele quase não falou sobre ela quando estava aqui. Se nos baseássemos apenas nas suas palavras jamais entenderíamos que o seu propósito principal em vir à terra era fundar a igreja. Do ponto de vista humano, ele foi um fundador extremamente falho. Não deixou qualquer plano de organização ou sistema de governo para a igreja. Não definiu nenhum credo ou código de regras. Não prescreveu nenhuma liturgia ou forma de culto. Devido a essas omissões, a igreja praticamente desde o seu início até hoje vem brigando e discutindo sobre essas coisas.

Mas, afinal de contas, se ele não deu nada disso à igreja e praticamente nem a mencionou, como pode ser considerado o seu fundador? O que foi que ele fez que causou o seu surgimento? O que ele lhe deu que fez com que fosse a instituição mais duradoura, abrangente e vital que a humanidade já conheceu?

Em vez de dar à igreja uma organização, ele lhe deu a sua própria vida. Ele, como pessoa, é o alicerce e base da igreja. Foi em torno dele que ela surgiu. Ao receber o Espírito Santo os doze reconheceram que a mesma pessoa com quem tinham convivido por vários anos estava novamente presente entre eles e dentro deles (1 Jo 1.1-3). Não somente eles mas os de fora também reconheceram imediatamente que “haviam eles estado com Jesus” (At 4.13).

Jesus nunca deu a entender aos seus discípulos que veio começar uma nova religião que se separaria do judaísmo e competiria com ele. Ele nunca disse aos seus discípulos que teriam de deixar as sinagogas e o culto no templo para segui-lo. Pelo contrário, disse que não veio revogar a lei mas cumpri-la e que nem um i nem um til da lei seria mudado (Mt 5.17,18). Ele não estava preocupado em arregimentar os seus seguidores em uma nova organização religiosa. Não estava interessado em mudar o seu local de culto ou suas doutrinas. Ele queria dar-lhes a sua vida. Separou homens para “que estivessem com ele” (Mc 3.14). Foi esta vida diferente, poderosa e dinâmica, que levantou perseguição e fez a igreja aparecer na terra.

Apesar de descrever de diversas maneiras a sua missão na terra, praticamente todas podem ser resumidas na descrição que encontramos em Jo 17.4,6: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste”. Jesus veio trazer Deus a nós. Ele é Emanuel, Deus conosco. Ele é Jesus, Jeová salva. A igreja surgiu deste alicerce. “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16) disse Pedro e sobre esta pedra a igreja foi edificada.

Jesus deu a sua vida à igreja e cria que os outros assuntos seriam resolvidos progressivamente em cada época e lugar através desta vida operando dentro das pessoas. Ele disse aos discípulos que não os deixaria órfãos mas voltaria na pessoa do Consolador que lhes ensinaria todas as coisas e os conduziria a toda a verdade (Jo 14.16-18,26). Além disso, disse que “convém-vos que eu vá; pois se eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16.7). Jesus não veio para ser um grande herói para ser admirado e seguido por todos. Ele veio revelar a vida de Deus e foi embora para enviar o Espírito Santo que traria esta vida para dentro de cada um de nós. E agora está à destra do Pai confiando junto com o Pai que esta vida será suficiente para levantar uma igreja gloriosa sobre a terra antes da Segunda Vinda.

E você? Como você se posiciona diante de tudo isso? Você crê que Jesus volta para uma igreja gloriosa? O que você acha que falta para a igreja ser preparada para a volta do Noivo? Como você pode contribuir para esta preparação? Você está acomodado, apenas “assistindo” reuniões, ou está buscando ativamente encontrar o seu lugar e função no corpo de Cristo? Você está preocupado com as mudanças que precisam acontecer na igreja em preparação para o próximo século e milênio? Você está atento para a voz do Espírito e da Noiva (Ap 22.17)?

Harold Walker é membro do Conselho Editorial da Revista Impacto.

Uma resposta para “Como Será a Igreja do Século XXI?”

  1. VILMAR ADELCE ALVES disse:

    Creio na volta triunfante de JESUS sim, creio tbm que para se preparar p essa vida, a igreja precisa erradicar o egoísmo que é a raiz de todos os males