Como Devemos Nos Portar?

Data de publicação: 14/11/2011
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Edição 24 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 24

O artigo a seguir foi compilado a partir de várias contribuições escritas sobre o tema desta edição. Por falta de espaço, só pudemos incluir alguns pontos importantes destes textos. Organizamos os textos em perguntas e respostas para maior objetividade e facilidade na leitura. Os artigos que serviram de base para este texto foram escritos por: Eliasaf de Assis (São Paulo), Edgar Bravo Nogueira (Rio de Janeiro), Eduardo Ávila da Silva (Botucatu-SP), Márcio Nogueira (Campinas).

Temos alguns modelos positivos na Bíblia de servos de Deus em posições de autoridade no governo. Há exemplos negativos, que mostram o perigo e os erros que podem ser cometidos?

Existem vários, mas citaremos apenas dois aqui. O primeiro está em Gênesis 4.17, onde vemos que Caim fundou a primeira cidade humana, e batizou-a com o nome de seu filho. Desta forma, o livro de Gênesis conecta a poles (termo grego que designa cidade, e raiz da palavra política) e a vida política a um homem violento e motivado por interesses pessoais. E não é isso o que mais se observa na política hoje? A corrupção e a ineficiência se tornaram de tal maneira o padrão, que salvo evidência em contrário, suspeita-se de qualquer político ou candidato a cargos públicos neste país. O que procura? O que o motiva?

O outro exemplo está em Juízes 9. Abimeleque, filho de Gideão, fez uma “aliança política” com os moradores de Siquém. Abimeleque queria o poder, mas suas chances eram nulas, pois havia setenta irmãos com mais direito que ele. Como conseguiria o apoio do povo daquela cidade? Mostrando-lhes o quanto lucrariam se ele chegasse ao poder. Os outros filhos de Gideão não eram de Siquém, por isso só Abimeleque teria interesse em lhes dar privilégios especiais.

Então fizeram uma aliança suja, por interesses mútuos, que na verdade eram apenas interesses próprios. Para chegar ao poder, os dois lados se uniram para tirar os empecilhos do caminho: assassinando 69 dos irmãos de Abimeleque. Porém o fruto da ambição e dos métodos ilícitos não tardou: morte para Abimeleque, e morte e destruição para a cidade de Siquém. Uma lição sombria das conseqüências desastrosas que virão mais cedo ou mais tarde sobre aqueles que buscam o poder por motivos errados, à custa de outras vidas.

Qual a razão de tantos políticos corruptos atualmente?

É comum ouvir as pessoas falando mal do governo, em frases como: “Os políticos são sempre os mesmos”, isso é  “politicagem”. Mas quem são os políticos? Não fazem parte da nossa sociedade? Quem os escolheu? Não fomos nós, o povo? Nossa sociedade não tem consciência de que os políticos são o reflexo dela mesma.

Quantas vezes um cidadão comum suborna um guarda de trânsito, e este aceita? E quando um camelô paga propina a um fiscal, isso não é uma forma de troca de interesses, de favores? Ou quando alguém faz um “gato” (puxar ilegalmente luz ou água) em sua casa, isso não é roubo? E quando um comerciante trapaceia outro colega concorrente, isso não é jogo sujo?

É evidente que as coisas são mais complicadas na prática do que aqui em palavras, mas as regras gerais são as mesmas. Que diferença há entre os erros dos políticos e os erros da sociedade? São os mesmos, a não ser em dois pontos:

• Os políticos têm mais responsabilidade e deverão responder mais por isso.

• Eles usam o dinheiro público, e isso agrava suas faltas.

A sociedade brasileira, ao reclamar dos seus políticos, deve fazer uma profunda reflexão de suas próprias vidas. E os cristãos de maneira mais séria ainda precisam se examinar para ver até que ponto são cúmplices e coniventes com o mesmo tipo de corrupção e desonestidade que condenam nos políticos.

De que maneira os eleitores também são responsáveis pela corrupção e má administração pública?

Os eleitores são co-responsáveis com os políticos por grande parte dos desvios que ocorrem comumente em todos os níveis do governo. No fundo há uma atitude de que o dinheiro do governo não tem dono, e cada um tem que defender seu interesse e pegar uma parte do bolo. Falta uma maior consciência de justiça, do interesse da sociedade como um todo, e da responsabilidade de cada um de lutar para este fim.

Os políticos dependem de votos e os eleitores “vendem” seus votos a fim de ganhar vantagens para si ou para os grupos que representam. São alianças de Abimeleque, e os cristãos participam disso muitas vezes dentro dos mesmos moldes. O fato de buscarem vantagens para igrejas, ou empregos para seus “irmãos”, parece justificar suas atitudes tão interesseiras quanto qualquer outro grupo na sociedade.

A situação política no Brasil é pior do que em outros países?

Evidentemente há países melhores e outros piores. A história política no Brasil é que não nos ajudou muito. Nossos “professores” do passado não foram dos melhores. A começar pelos portugueses, que vieram com o objetivo de explorar, dominar, fraudar e enganar desde os índios até os primeiros brasileiros que aqui nasceram. Toda a política era ditada pela metrópole e por interesses particulares. Havia corrupção desde a alta administração até o mais simples funcionário português. E essa semente gerou em nós os primeiros fundamentos da política.

Isto continuou por manifestações diferentes durante toda nossa história. Tivemos poucos verdadeiros patriotas, e também pouca tradição de partidos políticos com verdadeiras posições ideológicas. Tudo isto dificultou a aprendizagem de como lidar realmente com a democracia. Nos últimos anos, apesar de todos os problemas, a democracia brasileira tem amadurecido muito.

O eleitor cristão pode anular seu voto para não apoiar nenhum dos candidatos, se considera que todos são inadequados?

Não podemos falar de modo geral sobre todas as situações. Mas o princípio bíblico é orar pelos governantes e autoridades (1 Tm 2.1,2), e se sujeitar às leis como cidadãos exemplares, apesar de sermos “peregrinos e forasteiros” (1 Pe 2.11-17). Nos tempos bíblicos não havia a obrigação de votar, mas as recomendações do Novo Testamento não nos dão nenhuma base para nos isentar de nossas responsabilidades civis. Se devemos orar pelo governo, para que tenhamos uma “vida tranqüila e sossegada”, favorável à expansão do Reino de Deus, é claro também que devemos buscar uma orientação do Senhor para saber em quem votar, para o bem de toda a sociedade.

Na história de Abimeleque em Juízes 9 citada acima, há uma lição sobre os perigos da omissão. Dos setenta irmãos de Abimeleque, um escapou da morte, chamado Jotão. Quando os habitantes de Siquém foram aclamar Abimeleque como rei, Jotão lhes contou uma parábola sobre as árvores que se reuniram para escolher aquela que reinaria sobre as demais. A oliveira, a figueira e a videira se recusaram a deixar seu papel de dar fruto para se tornarem governantes. No final, o espinheiro foi o único que aceitou, mas prometeu que depois se seus súditos não estivessem contentes com seu governo, sairia fogo para consumi-los.

Aqui observamos que as árvores nobres se preservaram para não se “sujarem” com a política, e para manterem suas funções mais importantes, porém houve conseqüências negativas desta escolha. Abriram espaço para o espinheiro tomar conta da situação e impor seu governo destrutivo. E é isto que acontece quando nos omitimos. Achamos que estamos nos preservando da contaminação, mas estamos cedendo lugar para o espinheiro.

Um candidato cristão é sempre a melhor opção?

Se temos alguma experiência na política, sabemos que não. Temos exemplos disto, não só aqui, onde um maior número de representantes evangélicos não mudou nada significativo no país, mas também em outros países.

Por que não devemos optar automaticamente por um candidato cristão?

Primeiro, porque não devemos buscar interesses apenas do nosso grupo ou denominação, e em geral é isto que tem acontecido com candidatos cristãos.

Segundo, porque a condição espiritual e o comprometimento com o Reino de Deus de muitos candidatos cristãos nem sempre é muito recomendável.

Terceiro, porque se um cristão, mesmo tendo uma vida fiel a Deus no princípio, entrar na política sem um chamado claro de Deus, sem o apoio firme de uma retaguarda, e sem compreender as forças que dominam o sistema deste mundo, é muito provável que não resistirá às pressões e se tornará um político como qualquer um dos demais.

O que devemos procurar no candidato, então?

Primeiro, devemos procurar avaliar o caráter. Isto não é muito fácil às vezes, mesmo entre os cristãos. E temos de admitir que algumas pessoas que não levam o rótulo de cristão têm caráter melhor do que outras que usam este nome para se eleger.

Segundo, precisamos verificar a eficiência do candidato. Ele precisa ter qualificações para o cargo. É o mesmo que contratar um eletricista, um professor, um engenheiro. Se você conhece um que seja cristão e também um bom profissional, dê preferência a ele. Mas se não for uma pessoa qualificada, ou se for menos qualificada que outros, você vai dar preferência só porque é cristão? Na política, é a mesma coisa.

Terceiro, é importante conhecer as causas que ele defende. Qualquer candidato que não se inteirou sobre a causa do pobre não merece o nosso voto. E qualquer cristão que ajude a eleger um candidato que não contemple, em seu programa de governo ou em sua carreira política, o desamparado e o necessitado está colaborando com a miséria deste país. E a miséria não vaga por aí sozinha, mas encarnou-se na alma, na casa e na pele dos milhões de crianças pobres catando lixo em nossas favelas e sertões. Este número não é exagerado. São milhões mesmo.

Ao invés disso, na câmara de vereadores em São Paulo, por exemplo, de três mil projetos votados em 2001, mil e quinhentos eram para mudar nomes de ruas! Se Caim usou o nome de seu filho para nomear uma cidade, estes senhores deslavadamente o superaram, batizando mil e quinhentos pontos urbanos com o nome de seus prediletos. Esta não é uma questão de corrupção, mas da ociosidade e falta de produtividade de nossos representantes políticos.

O que a igreja poderia fazer nesta época de campanhas eleitorais para cumprir seu verdadeiro papel?

A igreja não deve se posicionar com partidos nem com candidatos específicos, mesmo que sejam membros daquela congregação. A igreja, porém, tem uma função importante: de dar ao povo uma visão e uma base de conhecimento. A visão dos propósitos de Deus é uma de suas funções mais importantes que deve ser feita continuamente, mas precisa também ser aplicada à situação política. Isto é especialmente importante no Brasil, onde milhões e milhões de pessoas votam sem ter qualquer noção real do que os candidatos representam, ou o que farão pelo país, estado ou município.

Primeiro, precisam tomar conhecimento da sua responsabilidade como cidadãos, e segundo dos princípios gerais da política, da situação atual, da economia, e das necessidades sociais. Os cristãos precisam ser treinados para conhecerem os fatos e para tomarem uma decisão pessoal diante de Deus. Em contraste com isto, as “ovelhas” geralmente são tratadas como se fossem crianças, sem maturidade ou responsabilidade pessoal. O líder é quem sabe por quem devem votar. Mas cada um prestará contas a Deus, e precisamos ajudá-los a assumir este dever individual.

Por que a igreja não tem contribuído mais como sal e luz neste mundo em que vivemos?

Não temos mais políticos cristãos com vida e testemunho por causa da condição doentia da própria igreja. Como os políticos terão visão mais ampla do Reino de Deus, se grande parte da igreja também não tem? Como esperamos que um candidato cristão tenha caráter, se a grande maioria dos membros das igrejas não o evidenciam? (Há lugares no interior, onde o comércio nem aceita cheques de evangélicos!) Como achamos que o cristão eleito para cargo público lutará pela causa dos pobres, se esta não é a prioridade da própria igreja? E como podemos sonhar com alguma frente unida dos cristãos para mudar alguma coisa no país, se não praticamos unidade entre cristãos da mesma cidade, nem procuramos apoiar projetos comuns do povo de Deus para abençoar os necessitados?

É claro, Deus pode levantar indivíduos a despeito da condição da igreja em geral, e isto tem acontecido muitas vezes no passado. Mas sem uma mudança radical na igreja como um todo, não veremos o sal tendo efeito maior na sociedade.

A igreja só pode ser sal através da atuação de cristãos na política?

Muito pelo contrário! Talvez se somasse todas as áreas onde os cristãos podem ser uma influência para Deus na sociedade, a política estaria em um dos últimos lugares. É possível cumprir uma missão para Deus na política, mas é algo bem raro ver isto acontecer de uma forma pura e marcante. Porém, há dezenas de outras áreas onde os cristãos podem marcar o mundo onde vivem, acima de tudo através de servir e abençoar aos necessitados, e de defender a justiça e os princípios de Deus aonde quer que estejam. A igreja deve sempre transmitir as palavras e a natureza de Deus, e muitas vezes esta voz alcança pessoas em posições de poder e influência por intermédio de representantes que não estão, eles próprios, nestas posições. Deus dá a cada pessoa um lugar de influência, como professores, jornalistas, escritores, e assim por diante.

João Batista não era político, nem tinha posição de poder. Mas denunciou o pecado de um governante, e foi preso e depois decapitado por causa de sua fidelidade. Portanto, nem toda a influência que chega a esses escalões de poder precisa ser exercida através de pessoas em posições de governo.

A igreja no Brasil tem alguma missão especial neste momento da história deste país e do mundo?

Com toda a certeza! O crescimento numérico, e a influência em potencial dos cristãos hoje não tem precedentes na história deste país. Isto não é um acaso, nem deve ser usado para a igreja promover a si mesma, ou buscar projeção e poder. Temos uma responsabilidade muito maior do que antes de nos unir, e de buscar em temor e quebrantamento o cumprimento da agenda de Deus para os próximos meses e anos. Mas corremos o risco de perder este momento também se seguirmos os caminhos humanos.

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