Ciência e Fé: A Dança Dinâmica e Vibrante do Deus Tripessoal

Data de publicação: 16/11/2011
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Edição 22 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 22

Por: C. S. Lewis

Peço ao leitor que fixe claramente um certo quadro em sua mente. Imagine dois livros sobre uma mesa, um em cima do outro. O livro de baixo mantém, evidentemente, o de cima; suporta-o. É por causa do livro de baixo que o de cima está em repouso, cinco centímetros acima da superfície da mesa, ao invés de tocá-la. Chamemos de A o livro de baixo e de B o de cima. A posição de A é causa da posição de B. Certo?

Imaginemos agora (e isso sem dúvida não poderia acontecer, mas servirá como ilustração) que os dois livros sempre estiveram nesta posição. A posição de B teria sido sempre, neste caso, um efeito da posição de A. Assim mesmo, a posição de A não teria existido antes da de B. Em outras palavras, neste caso o efeito não ocorre depois da causa. Sem dúvida, os efeitos normalmente ocorrem depois: primeiro comemos o pepino, depois vem a indigestão. Mas não é assim com todas as causas e efeitos. Você logo verá por que acho isto importante.

Deus é um Ser que contém três Pessoas, embora continue sendo um só Ser. Você sabe que no espaço é possível mover-se de três formas: para a esquerda ou para a direita; para trás ou para frente; para cima ou para baixo. Qualquer direção é uma dessas três, ou uma combinação delas. São as três dimensões. Veja agora o seguinte. Se fizer uso de apenas uma dimensão, você poderá traçar apenas uma linha reta. Se usar duas, poderá traçar uma figura, por exemplo, um quadrado. Um quadrado é formado por quatro segmentos de linhas retas. Agora, um passo mais: se você usar as três dimensões, poderá construir um corpo sólido como, por exemplo, um cubo, que tem a forma de um dado. Um cubo é formado por seis quadrados.

Será que dá para perceber o que quero dizer? Um mundo de uma dimensão seria uma linha reta. Num mundo bidimensional ainda teríamos linhas retas, mas muitas linhas perfazem uma figura. Num mundo tridimensional ainda teríamos figuras, mas muitas figuras perfazem um corpo sólido. Em outras palavras, ao avançar para níveis mais reais e mais complexos, você não deixa para trás as coisas que encontrou nos níveis mais simples; você ainda permanece com elas, mas combinadas de novas maneiras, maneiras que você jamais poderia ter imaginado, se apenas conhecesse os níveis mais simples.

Ora, na concepção cristã de Deus, este mesmo princípio é válido. O nível humano é simples e um tanto vazio. No nível humano, uma pessoa é um ser e duas pessoas são dois seres distintos, assim como em duas dimensões (por exemplo, numa folha de papel) um quadrado é uma figura, e dois quadrados são duas figuras distintas. No nível divino, também há personalidades, mas aí elas se combinam de novas maneiras, as quais nós não podemos imaginar, por não vivermos nesse nível. Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que é três Pessoas, sendo porém, um só Ser; é como o cubo, que tem seis quadrados, mas é um só cubo. Não podemos conceber um Ser assim em sua plenitude, como não poderíamos imaginar direito o que seria um cubo, se fôssemos feitos com a capacidade de perceber apenas duas dimensões no espaço. Mas podemos ter uma vaga noção do que ele é. E se assim fizermos, estaremos, pela primeira vez em nossas vidas, obtendo uma idéia positiva, embora vaga, de algo super-pessoal, de algo que é mais do que uma pessoa. Trata-se de algo que jamais suspeitaríamos e, contudo, ao sermos informados a respeito, consideramos a coisa mais natural do mundo, pois tudo se encaixa tão bem com todas as coisas que já conhecemos.

Mas talvez alguém pergunte: “Se não podemos imaginar um Ser tripessoal, então que adianta falar dele?” Na verdade, não adianta nada mesmo falar dele. O que importa é ser realmente envolvido nessa vida tripessoal, e isso pode começar a qualquer momento: hoje mesmo, se você quiser.

A Diferença Entre Gerar e Fazer

Portanto, Deus é um Ser que contém três Pessoas, embora continue sendo um só Ser, assim como um cubo contém seis quadrados, sem deixar de ser um só corpo. Mas, quando procuro explicar o relacionamento destas três pessoas, tenho que usar termos que nos dão a impressão de que uma delas teria existido antes das outras. A Primeira Pessoa é chamada Pai, e a Segunda Filho. Dizemos que a Primeira gera ou produz a Segunda; chamamos a isso geração, não feitura. Há diferença entre gerar e fazer. Um homem gera um filho, mas faz uma estátua. Deus gera Cristo; mas faz os homens. O que Deus gera é Deus, assim como o que o homem gera é homem. O que Deus cria não é Deus, assim como o que o homem faz não é homem. Essa é a razão pela qual os homens não são filhos de Deus no sentido em que Cristo é. Podem ser como Deus sob alguns aspectos, mas não são seres da mesma espécie. Parecem-se mais com estátuas ou imagens de Deus.

Uma estátua tem a forma de homem, mas não é viva. Do mesmo modo, o homem tem a forma ou semelhança de Deus, mas não recebeu a espécie de vida que Deus tem. Tudo o que Deus fez tem alguma semelhança com Ele. O espaço é semelhante a Deus na imensidão; não que a grandeza do espaço seja da mesma espécie da grandeza de Deus, mas ela de certa maneira a simboliza, ou é uma tradução da mesma em termos não espirituais. No homem, encontramos a mais completa semelhança com Deus que nos é dada a conhecer. O homem não somente vive, mas ama e raciocina; a vida biológica atinge nele o nível mais elevado que se conhece.
Quem Existiu Primeiro: Deus ou Jesus?

Se Deus gerou Jesus, a palavra Pai é, assim, a única palavra a usar. Mas infelizmente, ela dá a entender que existiu primeiro, assim como na espécie humana um pai existe antes de seu filho. Mas tal não é o caso. Não há antes nem depois na geração divina. E essa é a razão por que julgo importante esclarecer como uma coisa pode ser a fonte, ou a causa, ou a origem de outra, sem existir antes dela. O Filho existe porque o Pai existe, mas nunca houve um tempo em que o Pai ainda não tivesse produzido o Filho.

Talvez o melhor meio para se pensar no assunto seja o seguinte. Pedi há pouco que você imaginasse dois livros; provavelmente você o fez, isto é, fez um ato de imaginação e, como conseqüência, houve uma interpretação mental. Evidentemente o ato de imaginar foi a causa, e a representação mental, o efeito. Mas isso não quer dizer que primeiro você imaginou e depois obteve a representação. No mesmo instante em que imaginou, você teve a representação mental. A sua vontade conservou a representação por todo o tempo. Esse ato de vontade e a representação começaram a existir no mesmo instante e cessaram no mesmo instante. Se houvesse um ser que tivesse sempre existido, e se estivesse sempre imaginando uma certa coisa, esse ato estaria sempre produzindo uma representação mental, mas a representação seria tão eterna quanto o próprio ato.

Do mesmo modo, deve-se pensar no Filho como fluindo sempre do Pai, assim como a luz flui da lâmpada, o calor do fogo, ou os pensamentos da mente. Ele é a expressão da personalidade do Pai, o que o Pai tem a dizer. E nunca houve um tempo em que o Pai deixou de dizer a sua palavra.

Mas todas essas ilustrações de luz e calor dão impressão de que o Pai e o Filho são duas coisas em vez de duas Pessoas. Assim, afinal a representação do Novo Testamento de um Pai e um Filho vem a ser muito mais precisa do que qualquer outra com a qual tentemos substituí-la.

É isso que sempre acontece quando as palavras da Bíblia são abandonadas. Podemos abandoná-las temporariamente, sem dúvida, a fim de esclarecer algum ponto especial. Mas devemos sempre voltar a elas. Certamente Deus sabe descrever a si mesmo muito melhor do que nós. Deus sabe que Pai e Filho representam melhor a relação entre a Primeira e a Segunda Pessoa da Trindade do que qualquer outra coisa que possamos pensar. O mais importante é saber que a Trindade é uma relação de amor. O Pai se alegra em seu Filho; o Filho corresponde ao afeto de seu Pai.

Sem Trindade não Existe Amor

Veja a importância prática de tudo isso. Todo o mundo gosta de repetir a informação cristã: “Deus é amor”. Mas essa gente parece não perceber que as palavras “Deus é amor” não significam nada se Deus não for em sua essência pelo menos duas pessoas. Amor é algo que uma pessoa tem por outra. Se Deus fosse uma só Pessoa, então antes de o mundo existir ele não teria amor. Sem dúvida, o que querem dizer com essa expressão é muitas vezes algo totalmente diferente, isto é, que o “amor é Deus”.  O que querem dizer é que nossos sentimentos de amor, de qualquer maneira, quando quer que apareçam, e sejam quais forem os seus efeitos, devem ser tratados com grande respeito. Talvez devam: mas isto não é o que os cristãos querem dizer ao afirmarem: “Deus é amor”. Os cristãos crêem que a atividade vital e dinâmica do amor sempre se encontrou em Deus e foi causa de tudo que foi criado.

A União Entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo

E esta é a diferença mais importante entre o Cristianismo e todas as demais religiões: Deus não é uma coisa estática, nem mesmo uma pessoa, mas uma atividade dinâmica e vibrante, uma vida tal como um drama. E se eu não for considerado irreverente, direi que é quase como uma espécie de dança. A união entre o Pai e o Filho é tão viva e tão concreta que a própria união é também uma Pessoa. Sei que isso quase não dá para conceber, mas vejamos a coisa da seguinte forma. Sabemos que entre os homens, quando se reúnem em família, ou num clube, ou num sindicato, fala-se do “espírito” dessa família, desse clube ou desse sindicato. Fala-se do seu “espírito” porque cada um dos membros, quando juntos, segue determinados modos de falar e de se comportar que não aconteceriam individualmente. É como se uma espécie de personalidade comunitária passasse a existir. É claro que não é uma pessoa real, mas se parece um pouco com uma pessoa. Mas esta é precisamente uma das diferenças entre Deus e nós. O que decorre da vida conjunta do Pai e do Filho é uma Pessoa real; de fato, é a terceira das três Pessoas que são Deus.

Esta Pessoa é chamada, em linguagem técnica, o Espírito Santo ou o  “espírito”  de Deus. Não se preocupe nem fique surpreso se, em sua mente, ele for um tanto mais vago ou mais obscuro do que as outras duas Pessoas. Acho que há uma razão para ser assim. Na vida cristã não estamos normalmente com a atenção voltada para o Espírito Santo, mas ele está sempre agindo por nosso intermédio. Se pensamos no Pai como quem está “lá fora”, diante de nós, e no Filho como alguém do nosso lado, ajudando-nos a orar, tentando nos fazer filhos também, temos então de pensar na terceira Pessoa como algo dentro de nós, ou por trás de nós.

Há quem prefira começar com a terceira Pessoa, e depois retroceder em seu raciocínio. Deus é amor, e esse amor opera através dos homens, especialmente através da comunidade cristã. Mas é esse espírito de amor que flui entre o Pai e o Filho, por toda a eternidade.

O Bom Contágio

Pois bem, que importância tem tudo isso? Nada neste mundo é mais importante. Toda essa dança, ou drama, ou essência da vida tripessoal deve realizar-se em cada um de nós; ou (exprimindo de outro modo) cada um de nós deve ter essa mesma característica, deve tomar parte nessa dança. Não há outro caminho que nos conduza à felicidade para a qual fomos feitos. Tanto coisas boas como más, você sabe, são contagiantes. Quem quer se aquecer, que fique perto do fogo; quem quer se molhar, que entre na água. Se você quer alegria, poder, paz, vida eterna, aproxime-se ou mesmo seja absorvido pelo que as contém. Tais coisas não são assim como prêmios que Deus pudesse dar, se quisesse, a qualquer pessoa. São uma grande fonte de energia e beleza que jorra no verdadeiro centro da realidade. Se você estiver perto dessa fonte, a névoa úmida vai atingi-lo e o molhará; se não, você permanecerá seco. Uma vez que alguém se una a Deus, como deixará de viver para sempre? Uma vez que alguém se separe de Deus, que pode acontecer senão se secar e morrer?

Mas como se unir a Deus? Como é possível sermos levados à vida tripessoal?

Você se lembra do que disse sobre gerar e fazer? Não somos gerados por Deus, mas apenas feitos por ele; em nosso estado natural, não somos filhos de Deus, mas apenas (por assim dizer) estátuas. O que o homem não possui, em sua condição natural, é a vida espiritual, a espécie mais elevada e diferente de vida, existente em Deus. Usamos a mesma palavra vida para nos referir a duas essências, mas pensar que são a mesma coisa  é como pensar que a “grandeza” do espaço e a “grandeza de Deus” são a mesma espécie de grandeza. A diferença entre vida biológica e vida espiritual é, na realidade, tão importante que vou valer-me de dois nomes para diferenciá-las. A vida biológica, que recebemos pela natureza é Bios, e está sempre (como tudo o mais na natureza) tendendo a decair, só podendo estar preservada mediante subsídios permanentes da própria natureza (na forma de ar, água, alimento etc.). A vida espiritual, que existe em Deus desde toda a eternidade, e que fez todo o universo natural, é Zoe. Bios tem, certamente, uma semelhança longínqua ou simbólica com Zoe; mas trata-se apenas da semelhança que existe entre uma fotografia e um lugar, entre uma estátua e um homem. O homem que passasse da condição de Bios para a de Zoe, teria passado por uma transformação tão grande como a de uma estátua que passasse da condição de ser uma pedra esculpida para a de ser um homem real.

Portanto, não temos Zoe ou vida espiritual, mas somente Bios, ou vida biológica, que está se esvaindo até morrer. Ora, a promessa que o Cristianismo faz é que, se deixarmos Deus agir, poderemos participar de uma vida que foi gerada e não feita, de uma vida que sempre existiu e que sempre existirá. Cristo é o Filho de Deus. Se participarmos desta espécie de vida, também seremos filhos de Deus. Amaremos o Pai como o Filho o ama, e o Espírito Santo estará em nós. O Filho veio a este mundo e tornou-se homem a fim de dar aos outros homens o tipo de vida que Ele mesmo possui, através do que chamo de “o bom contágio”. Todo cristão deve tornar-se um pequeno Cristo. Este é simplesmente todo o propósito de tornar-se cristão.

Compilado por Elenir Eller Cordeiro de vários capítulos do livro Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis  (Livro IV – Além da personalidade, ou os primeiros passos na doutrina da Trindade.

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