Cheiro de Céu

Data de publicação: 12/01/2012
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Edição 70 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Débora e Ricardo de Oliveira

Em março de 2010, arqueólogos encontraram na Grécia, na cidade de Tessália, um sítio arqueológico de milhares de anos de idade. Na cidade, já famosa por ter sido destino de duas das cartas de Paulo, foi encontrado, em escavações, um muro construído durante o período mais rigoroso da última época glacial. Certamente, a construção foi erguida como proteção contra o frio.

Ficamos fascinados com o trabalho de arqueólogos, com seus pequenos pincéis, que vão varrendo o pó até encontrar alguma coisa encoberta que não faça parte nem do pó nem do solo. Pode ser uma caneca, panela, ponta de lança, estrada, fogueira ou osso, não importa. Tudo o que servir para revelar épocas passadas é importante para esses profissionais como ferramentas para obterem uma imagem melhor de como os homens viviam ou de como era o mundo em tempos passados.

Há, contudo, uma espécie de arqueologia ainda mais útil do que aquela encontrada na Grécia. Trata-se daquela que tenta, utilizando indícios presentes neste mundo, entender aquele que existia anteriormente; encontrar por meio da criação chaves ao coração do Criador.

Essa “arqueologia” não é estranha aos cristãos. Chesterton, por exemplo, faz inúmeras menções ao “naufrágio cósmico” em seus livros, colocando-se na pele de um náufrago que, ao acordar numa praia deserta sem memória, recolhe os destroços da embarcação tentando entender o que aconteceu. Phillip Yancey, por sua vez, em seu livro Rumores de outro mundo, tenta encontrar, neste mundo, aquilo que tem cheiro do céu, como se o mundo um dia tivesse sido como um odre cheio de vinho, mas que se esvaziou. Ao cheirar o odre, podemos ter certeza do que estava dentro dele. Algumas coisas neste mundo cheiram a Deus, cheiram a uma imagem eterna que uma imagem terrena e imperfeita pode revelar.

Você, com certeza, já se deparou com alguma coisa que, de tão maravilhosa, não parece ser deste mundo ou ter tido seu início nele. Não estamos falando apenas de uma bela sobremesa (se é isso o que você pensou); podemos usar uma música, uma paisagem, um perfume ou uma ótima história como exemplos dessas coisas que nos tocam tão fundo, de forma tão marcante, que só podemos afirmar: isso não é daqui, só pode ter vindo de Deus!

Existe algo, porém, que para muitos é a imagem mais evidente de uma gota de vinho que foi deixada aqui para sinalizar o mundo futuro: o amor romântico. O seu nome técnico não importa. Alguns chamam de paixão, outros simplesmente de amor, outros, ainda, de romance. Todavia, o que se quer dizer com esses termos é que estamos imbuídos de um sentimento tão poderoso que aquilo que é nosso (sentimentos, interesses, objetivos, etc.) perde importância ao ser confrontado com o objeto do nosso amor. Renunciamos a nós mesmos pelo bem do outro. Somos impelidos a nos unir ao nosso amado, e fazemos isso com uma humildade que não nos é própria. Lutamos por ele mais do que um gladiador seria capaz de lutar contra leões. Dedicamos-lhe um serviço maior do que um garçom de restaurante renomado poderia oferecer. Nosso desejo de estar perto é maior do que a força de dois ímãs separados por uma folha de papel. Tudo isso, fazemos voluntariamente.

C. S. Lewis define os benefícios do amor romântico com a experiência de um homem que, somente aos 59 anos de idade, descobre pela primeira vez o romance:

Apaixonar-se é um fato de tal natureza que temos razão em rejeitar como intolerável a ideia de que deva ser transitório. Ele transpõe com um único salto o espesso muro de nossa individualidade; torna até mesmo o apetite altruísta; põe de lado, como trivialidade, nossa felicidade pessoal; e planta interesses de outra pessoa no centro de nosso ser. Espontaneamente e sem esforço, nós cumprimos (para uma pessoa) a lei que nos manda amar nosso próximo como a nós mesmos. É uma imagem, uma amostra do que poderemos ser para todos se o Amor Absoluto reinar em nós sem rivais. É até mesmo (quando bem usado) uma preparação para isso. (LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005. P. 158)

Impressionante o paralelo que o autor faz entre o amor romântico que temos em relação a apenas uma pessoa e aquele amor que encherá nosso coração em relação a todas as pessoas, após a volta de Cristo (ou, quem sabe, até antes!). É como se o romance nos familiarizasse com algo ainda mais sublime, verdadeiro e sólido do que ele mesmo: a prática do amor verdadeiro que será a marca registrada do povo de Deus por toda a eternidade!

Entretanto, nem tudo são flores. Deus, conhecedor de nossa limitação, nos desafiou na menor escala que nos é possível desafiar. Não precisamos amar todas as pessoas deste mundo de uma só vez – nem deste mundo, deste continente, país, estado ou cidade. Até amar todos os nossos familiares já nos seria um desafio grande demais. Precisamos amar o mínimo, ou seja, uma única pessoa (só porque não é possível amar meia pessoa). Não faremos isso obrigados, mas com um sentimento de êxtase sem precedentes. Após esse passo inicial, saberemos o que é o amor, podendo estendê-lo aos nossos filhos (talvez, o segundo passo nessa jornada) e, depois, às pessoas mais próximas, expandindo-o como as ondas na superfície da água quando perturbada por uma pedra.

Não há pessoa mais próxima do que aquele que divide a nossa cama e a nossa mesa, que dividirá a educação dos filhos e os cuidados com os pais idosos. O romance, que culmina no casamento, é o oferecimento real de um próximo realmente próximo, um recorte vivo do “próximo” do mandamento de Cristo. A ele, amarás.

Outro desafio lançado é o fato de que as uniões não permanecem da mesma forma como se iniciaram. Parece que o amor tão evidente no começo do romance se desgasta a tal ponto que vira alvo de piadinhas (no fundo, esconde corações decepcionados com o amor) como esta: “se casamento fosse bom, não precisaria de testemunhas”. O que não se deve ignorar é que o amor romântico é tão importante para nós que ainda nos dá a oportunidade não só de exercitar o amor, mas também paciência, diligência, longanimidade, dentre outras qualidades inspiradas por Deus. É só pensar da seguinte forma: Deus quer que tenhamos corações perdoadores? É evidente que sim, pois se não perdoarmos os pecados dos homens, não teremos os próprios pecados perdoados. Deus quer que os homens nos ofendam? É evidente que não. Contudo, não é possível ter um (desejável) sem o outro (indesejável), assim como não é possível ter o amor romântico (desejável) sem desprender esforço para sua manutenção (indesejável).

Por essas e outras razões, permanecer solteiro é exceção e não regra. Deve ser fruto de um chamado, não do medo, do egoísmo, da intolerância ou de algum trauma de infância. Tais coisas estão militando contra nós a fim de não conhecermos a realidade sobrenatural do amor romântico, fazendo-nos permanecer na superficialidade do amor. Seríamos capazes, nesse contexto, de calcular o prejuízo de uma pessoa que, por um motivo que não a vontade de Deus, se recusa a abrir-se para um relacionamento amoroso?

Outras coisas podem até exalar o cheiro de céu, mas o romance de todos é o mais prático; portanto, o mais belo.

Débora é arquiteta e Ricardo é advogado, são casados e participam de grupos de comunhão na cidade de Barueri, SP, onde residem.