Carta Endereçada Aos Jovens do Brasil

Data de publicação: 23/10/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 28 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Meu nome é Patrícia, tenho 17 anos, e encontro-me no momento quase sem forças. Pedi à enfermeira Dani, minha amiga, para escrever esta carta que será endereçada aos jovens de todo o Brasil, antes que seja tarde demais.

Eu era uma jovem “sarada”, criada em uma excelente família de classe média alta de Florianópolis. Meu pai é engenheiro eletrônico de uma grande estatal e procurou sempre dar tudo do bom e do melhor para mim e para meus dois irmãos, inclusive a liberdade que eu nunca soube aproveitar.

Aos 13 anos participei e ganhei um concurso para modelo e manequim, na Agência Kasting, e fui até o final do concurso que selecionou as novas Paquitas do programa da Xuxa. Fui também selecionada para fazer um Book na Agência Elite em São Paulo. Sempre me destaquei pela minha beleza física, chamava atenção por onde passava. Estudava no melhor colégio de “Floripa”, Coração de Jesus.

Tinha todos os garotos do colégio aos meus pés. Nos finais de semana, freqüentava shopping, praias, e cinemas; curtia com minhas amigas tudo o que a vida tinha de melhor para oferecer a pessoas saradas, física e mentalmente.

Porém, como a vida nos prega algumas peças, o meu destino começou a mudar em outubro de 1994. Fui com uma turma de amigos para a OCTOBERFEST em Blumenau. Os meus pais confiavam em mim e me liberaram sem mais apego.

Em “Blu”, achei tudo legal, fizemos um esquenta no “Bude”, famoso barzinho da cidade. À noite, fomos à “PROEB” e ao “Pavilhão Galegão”, onde tinha um “show maneiro” da Banda Cavalinho Branco.

Aquela movimentação de gente era “trimaneira”. Eu já tinha experimentado algumas bebidas, tomava escondido da mamãe o Licor Amarula, mas nunca tinha ficado bêbada.

Na quinta-feira, primeiro dia da OCTOBER, tomei o meu primeiro porre de CHOPP. Que sensação legal, curti a noite inteira “doidona” e beijei uns 10 carinhas. Minhas amigas até colocavam o CHOPP numa mamadeira misturado com guaraná para enganar os “meganhas”, porque menor não podia beber; assim, bebemos a noite inteira e os “otários” nem perceberam.

Lá pelas 4 h da manhã, fui levada ao Posto Médico, quase em coma alcoólico, numa maca dos Bombeiros. Deram-me umas injeções de glicose para melhorar. Quando fui ao apartamento quase “vomitei as tripas”, mas o meu grito de liberdade já fora dado.

No dia seguinte aquela dor de cabeça horrível, um mal-estar daqueles com TPM. No sábado, conhecemos uma galera de São Paulo, que estavam alugando um “apê” no mesmo prédio. Nem imaginava que naquele dia eu estava sendo apresentada ao meu futuro assassino.

Bebi um pouco no sábado, a festa não estava legal, mas lá pelas 5h30 da manhã fomos ao “apê” dos garotos para curtir o restante da noite. Rolou de tudo e fui apresentada ao famoso baseado ”Cigarro de Maconha”, que me ofereceram. No começo resisti, mas chamaram a gente de “Catarina careta”, mexeram com nossos brios e acabamos experimentando.

Fiquei com uma sensação esquisita, de baixo astral, mas no dia seguinte, antes de ir embora, experimentei novamente. O garoto mais velho da turma, o “Marcos”, fazia carreirinho e cheirava um pó branco que descobri ser cocaína. Ofereceram-me, mas não tive coragem aquele dia. Retornamos à “Floripa”, mas percebi que alguma coisa tinha mudado. Eu sentia a necessidade de buscar novas experiências e não demorou muito para eu novamente deparar-me com meu assassino “DRUES”.

Aos poucos, meus melhores amigos foram se afastando quando comecei a me envolver com uma galera da pesada. Sem perceber, eu já era uma dependente química, a partir do momento que a droga começou a fazer parte do meu cotidiano.

Fiz viagens alucinantes, fumei maconha misturada com esterco de cavalo, experimentei cocaína misturada com um monte de porcaria. Eu e a galera descobrimos que, misturando cocaína com sangue, o efeito ficava mais forte; aos poucos não compartilhávamos a seringa e, sim, o sangue que cada um cedia para diluir o pó.

No início, a minha mesada cobria os meus custos com as malditas, porque a galera repartia e o preço era acessível. Comecei a comprar a “branca” a R$ 7,00 o grama, mas não demorou muito para conseguir somente a R$ 15,00, e eu precisava, no mínimo, de 5 doses diárias.
Saía na sexta-feira e retornava aos domingos com meus “novos amigos”. Às vezes, a gente conseguia o “extasy”, dançávamos nos “Points” a noite inteira e depois farra. O meu comportamento tinha mudado em casa; meus pais perceberam, mas no inicio eu disfarçava e dizia que eles não tinham nada a ver com a minha vida.

Comecei a roubar em casa pequenas coisas para vender ou trocar por drogas. Aos poucos o dinheiro foi faltando e, para conseguir grana, fazia programas com uns velhos que pagavam bem. Sentia nojo de vender o meu corpo, mas era necessário para conseguir dinheiro.

Aos poucos, toda a minha família foi se desestruturando. Fui internada diversas vezes em Clinicas de Recuperação. Meus pais sempre com muito amor gastavam fortunas para tentar reverter o quadro. Quando eu saía da Clinica, agüentava alguns dias, mas logo estava me picando novamente.

Abandonei tudo: escola, bons amigos e família. Em dezembro de 1997, a minha sentença de morte foi decretada; descobri que havia contraído o vírus da AIDS, não sei se me picando ou através de relações sexuais, muitas vezes sem camisinha. Devo ter passado o vírus a um montão de gente, porque os homens pagavam mais para transar sem camisinha.

Aos poucos, os meus valores, que só agora reconheço, foram acabando: família, amigos, pais, religião, Deus – até Deus, tudo me parecia ridículo.

Papai e mamãe fizeram tudo, por isso nunca vou deixar de amá-los. Eles me deram o bem mais precioso que é a vida e eu o joguei pelo ralo.

Estou internada, com 24kg, horrível; não quero receber visitas, porque não podem me ver assim.

Não sei até quando sobrevivo, mas do fundo do coração, peço aos jovens que não entrem nessa viagem maluca… Você, com certeza, vai se arrepender assim como eu – mas percebo que para mim é tarde demais.

Nota final: Patrícia encontrava-se internada no Hospital Universitário de Florianópolis e relatou sua história à enfermeira, Danelise. Patrícia veio a falecer 14 horas mais tarde, de parada cardíaca respiratória, em conseqüência da AIDS.