Cadê a Tampa da Minha Panela?

Data de publicação: 12/01/2012
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Edição 70 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 70

Por: Débora e Ricardo de Oliveira

O que leva alguém, ao observar um casal, pensar, por alguns instantes, que talvez eles tenham nascido um para o outro? Como fazemos para encontrar nossa cara-metade, a famosa tampa da panela, a alma gêmea, a metade da laranja ou mesmo a tal da azeitona da empadinha?

Dentre os esperançosos requisitos para se ter um candidato a tampa, costumam-se enumerar principalmente as características de sua personalidade – afinal, até mesmo a beleza está diretamente relacionada ao interior da pessoa. Ninguém é louco de esperar alguém tão belo como a bruxa da Branca de Neve; ela é linda – mas horrorosa!

O conjunto das nossas características, nosso humor e reações a diversas situações estão diretamente relacionados ao que os psicólogos chamam de temperamento. O temperamento pode ser uma herança que carregamos de nossos pais e do ambiente em que vivemos, mas também sofre grande influência da cultura em que estamos inseridos. Existem, basicamente, quatro tipos (sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático), mas não se encerram em si mesmos. Ou seja, podemos apresentar características desses quatro temperamentos, sendo que um deles, sem dúvida, vai destacar-se em relação aos demais.

As características boas dos temperamentos são aquelas que tornam as pessoas atraentes e interessantes. São presentes de Deus que nos ajudam a desenvolver nossa vocação de maneira plena. Conforme Tim LaHaye, autor dos livros Temperamento Controlado pelo Espírito e Temperamentos Transformados, o sanguíneo é eufórico e, com sua conversa apaixonada, é capaz de conduzir o ânimo dos que o ouvem; além disso, é cordial e faz com que as pessoas à sua volta se sintam importantes. O colérico é bastante prático, firme, toma decisões com facilidade, é independente e estimula as pessoas com suas ideias e planos ambiciosos. O melancólico, apesar de não fazer amigos tão facilmente quanto o sanguíneo, é um amigo fiel e bastante confiável. Preocupa-se em não desapontar as pessoas, é perfeccionista e persistente. O fleumático é calmo, equilibrado, organizado e um bom conciliador. Tem um bom coração, porém raramente deixa transparecer seus sentimentos.

Durante a aproximação entre tampas e panelas, tudo aquilo que é bom e bonito está explícito e, por enquanto, não é preciso um relacionamento de amizade profunda para que sejam notadas essas maravilhas da personalidade humana. Natural e espontaneamente, tampas sanguíneas se encantarão com a persistência de panelas melancólicas, e panelas coléricas ficarão admiradas com o equilíbrio das tampas fleumáticas.

Entretanto, como a perfeição ainda não foi atingida, levamos junto em nossa matéria-prima amostras de fraquezas que insistem em nos atrapalhar. Se, por um lado, o sanguíneo é apaixonante, só quem convive com ele também verá o quanto ele é desorganizado, indisciplinado e emocionalmente instável (meu marido que o diga!). O colérico tem explosões de ira e costuma ter dificuldade em perdoar. Sua excessiva autoconfiança pode transparecer certa arrogância. O melancólico, de tão analítico, pode tornar-se pessimista e, de tão crítico, torna-se inflexível consigo mesmo e com os outros. Por fim, para o fleumático tende a faltar disposição e sobram conservadorismo e indiferença para com as pessoas.

É por meio de relacionamentos que nossas características boas, fraquezas e pecados saem da inércia. É inevitável que nos relacionemos, e nem o melancólico mais antissocial pode escapar. Isso significa que existirão conflitos – afinal, somos todos bem diferentes –, com uma história de vida particular e uma peculiar maneira de compreender o mundo. Por intermédio de um relacionamento em que Cristo está presente, desenvolvemos maior sensibilidade para ensinar e sermos ensinados. E esse é, com certeza, um dos recursos que Deus utiliza para nosso aperfeiçoamento, principalmente quando se trata de pessoas que têm maior grau de importância para nós. É o momento para arear tampas e panelas, não apenas em se tratando de temperamentos opostos, mas também de temperamentos semelhantes – já que, se colocarmos dez coléricos enfileirados, cada um terá sua individualidade característica. Trata-se de um processo contínuo e, por vezes, doloroso, mas repleto de manifestações de graça!

O modelo que Deus nos deu sobre o amor entre o perfeito e o imperfeito foi que o perfeito (Deus) amou o imperfeito (nós) e o acolheu tal como é. A perfeição não nega o amor, mas se o amor é negado, o é pela imperfeição, não o contrário. O que queremos dizer é que atualmente muita gente procura tampas perfeitas para si, negando-se a amar alguém que tenha demonstrado, talvez por mera sinceridade, defeitos que não quer tolerar. Porém, essas mesmas pessoas se esquecem de que o fato de serem intolerantes só atesta que elas mesmas são imperfeitas e, mesmo nessa condição, receberam o Amor Melhor. Por que, então, um imperfeito exigiria perfeição de seu próximo para se abrir a um relacionamento?

Para encontrar a metade da laranja, portanto, não se pode aplicar tão somente uma regra preestabelecida (sanguíneo + melancólico = bom casamento), assim como não se pode basear a escolha nos primeiros encantos que o outro proporciona. Por se tratar de uma das decisões mais sérias da nossa vida, não podemos tomá-la de maneira imatura, baseada em filmes românticos e no palpitar do coração. Sim, o amor é decisão e uma das mais racionais.

Uma palavra simples que contém características preciosas para um bom casamento é disposição. Enquanto ouvimos por aí “os opostos se atraem”, não se pode perder de vista que, embora as características de pessoas diferentes tenham grande probabilidade de exercer sobre nós certo encanto, não são as diferenças que nos mantêm juntos e, sim, a disponibilidade, ou seja, o coração aberto ao outro para entendê-lo, amá-lo e acolhê-lo.

Com a disponibilidade fixa no coração, mesmo os temperamentos mais contraditórios poderão encontrar um caminho em comum. Como a música que diz “os opostos se distraem, e os dispostos se atraem”, precisamos deixar de lado as diferenças que tanto nos distraem e abrir a disponibilidade de estarmos juntos por um objetivo maior. Assim, é possível que qualquer um com esse mesmo comprometimento venha a ser a tampa que nos falta.

Agora, é apenas decidir!

Débora é arquiteta e Ricardo é advogado, são casados e participam de grupos de comunhão na cidade de Barueri/SP, onde residem.

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