Autoridade e Submissão no Discipulado

Data de publicação: 13/09/2011
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Edição 37 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 37

Por Jamê Nobre

Submissão e Pastoreamento

Uma das coisas mais essenciais para que uma pessoa possa ser cuidada e auxiliada em sua vida, através de um pastoreamento efetivo, é que ela seja submissa. Pois não se pode ajudar um soberbo, alguém que não tenha um espírito tenro.

Quando Davi escreveu o Salmo 23, ele pensava em seu relacionamento com Deus, o Senhor, tendo por base o cuidado que tinha com suas ovelhas.

Em primeiro lugar, ele afirma que Deus é Senhor. Isso significa que o Deus Eterno tem toda a autoridade e é dono de tudo o que existe. A palavra Senhor expressa não somente uma forma de tratar alguém, mas implica em propriedade e soberania. Essa é a primeira constatação: Deus é o Senhor.

A segunda constatação é que esse Senhor é pastor. Ele não somente tem autoridade e soberania, mas também tem um caráter amoroso, um caráter de pai que cuida e supre. O restante do salmo mostra a visão de pastoreamento que Davi tinha.

A terceira consideração é que Davi se via como ovelha que precisava de cuidados e permitia os cuidados de seu Pastor. Não era um cabrito com vida livre e solta, que requeria autonomia para estar onde quisesse. Este é o caráter do cabrito: nunca está onde o dono pensa que está e, por isso, precisa de um sininho no pescoço para ser localizado.

Finalmente, a conseqüência dele ser uma ovelha que está submissa ao Pastor, que é o Senhor Deus, é que nada lhe faltará.

Infelizmente, o que mais nos chama a atenção neste salmo é a promessa de que nada nos faltará. Daí a demanda generalizada no meio cristão para que Deus não permita que nada nos falte. Esquecemo-nos do tremendo fato de que o Senhor supre as necessidades de SUAS OVELHAS, o que implica um determinado tipo de relacionamento.

O Senhor tem compromisso em suprir nossas necessidades e não nossas vaidades. Como pai e pastor que é, ele cuida de nós naquilo de que precisamos para viver.

Os versículos seguintes do Salmo 23 mostram uma ovelha que se deixa guiar, que aprendeu a se entregar às mãos do Pastor. Mesmo em situações de aflição, ela se permite ser levada pela mão do pastor. É por causa dessa atitude que nada lhe falta, e que suas necessidades são supridas.

Submissão e Obediência

A submissão é uma atitude de coração que se manifesta através da obediência. A submissão é a atitude interior provocada pelo quebrantamento. Não depende de situações externas. É parte do caráter de alguém. É diferente da obediência na essência, pois uma é absoluta e a outra relativa.

A submissão é, por assim dizer, construída na vida do cristão e se torna integrante do seu ser. A pessoa é submissa não importa a quem. Isso, em termos práticos, significa que eu obedeço à sinalização mesmo na ausência de um guarda de trânsito. Não depende da presença de uma autoridade para que a obediência se manifeste.

Quando escolho a quem eu quero me submeter, isso revela minha insubmissão. No episódio em que Paulo chama um sacerdote de parede branqueada (At 23.1), há uma mostra do entendimento que ele tinha de submissão. Ele não devia se insurgir contra um príncipe. É uma questão de conceito, de compreensão anterior ao fato. O seu entendimento de respeito à autoridade é anterior ao acontecimento.

O que quero mostrar é que uma pessoa tem esse caráter submisso antes de ser colocada diante de uma situação em que precisa mostrar obediência. Por isso afirmo que a submissão é absoluta. Assim como a pureza, a honestidade e a integridade são absolutas, a submissão também o é. Estamos falando de caráter.

Existe uma situação hipotética que ajuda a ilustrar o que estou dizendo: se um assaltante chegar para mim e, com um revólver em sua mão, ordenar-me que levante minhas mãos, vou obedecer pela força do argumento (o revólver). Isso, de forma nenhuma, mostra que eu sou submisso ao ladrão. Fui obediente sem ser submisso.

Há uma história de uma mãe que falou a uma menina que se assentasse. Depois de muito insistir, ela toma o chinelo e, nesse momento, a menina se assenta. Ao assentar-se, a mãe escuta a filha dizer: “Por fora eu me assentei, mas por dentro estou de pé”.

Creio que essas ilustrações ensinam a diferença entre ser submisso e obedecer. O submisso normalmente obedece; o que obedece nem sempre é submisso. A obediência é relativa, pois existem situações nas quais a autoridade maior está sendo desrespeitada por uma ordem que vem de um escalão inferior (para um tratamento mais detalhado deste assunto, veja o artigo “Submissão e Desobediência” na p. 8).

Não posso, em hipótese nenhuma, esconder-me atrás de qualquer artifício para desobedecer. Se eu fizer isso estou demonstrando minha insubmissão. A submissão é a qualquer irmão e a todo irmão: “sujeitai-vos uns aos outros, em amor” (Ef 5.21). Já a obediência é a quem tem autoridade.

Como Jesus Ensinava Obediência

É interessante notar que Jesus não cobrava obediência de seus discípulos. Aliás, eu não encontrei nos evangelhos a palavra obedecer ou qualquer termo derivado. Também a própria palavra submissão ou seus derivativos somente aparecem quando os discípulos falam dos demônios.

O que podemos aprender com essa ausência sintomática nos ensinos de Jesus? Há uma lição muito forte: Jesus ensinava a submissão sendo submisso. Ensinava a obediência, obedecendo. Todo seu ensino sobre esse assunto era indireto. Ele mostrou sua completa submissão ao Pai e disse que era dessa mesma forma que enviava seus discípulos.

Gostamos da figura do leão relacionada com a pessoa de Jesus. Constatamos, porém, que no Apocalipse a palavra leão é relacionada com Jesus apenas duas vezes, enquanto a palavra cordeiro é ligada a ele 28 vezes!

Na verdade, o quadro mais lindo e tocante do Apocalipse é a figura, não de um leão, mas de um cordeiro assentado no trono. Isso fala da forma como Jesus chegou ao trono e, também, do seu caráter.

Paulo nos fala com muita propriedade sobre isso na carta aos Filipenses 2.5-11:

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que…  aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e… humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou… e lhe deu um nome que é sobre todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho … e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Foi dessa forma que Jesus ensinou. Quando o centurião lhe pede para ir à sua casa, ele revela a compreensão que tinha sobre a fonte de autoridade de Jesus:

“pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem” (Mt 8.9).

Aqui está o segredo de Jesus: um homem sujeito à autoridade.

O Objetivo do Discipulado

O discipulado tem sido confundido com muitas coisas: com cursos, com métodos, com esquemas, com militarismo e ainda muitas outras coisas. Mas, quando olhamos para Jesus e seu relacionamento com os homens que o seguiram, o que encontramos é uma atitude de quem serve.

Ele falou que o maior fosse aquele que servisse. Também disse que não veio para ser servido, mas para servir. Ele lavou os pés dos discípulos e nos orientou a fazer o mesmo.

Onde estão as posições de autoridade que muitas vezes queremos? Podemos dizer que, pelo fato de sermos pais na igreja, temos o direito de sermos obedecidos?

Precisamos compreender, entretanto, algumas coisas:

1. Na igreja, não temos direitos (foram cravados na cruz). O único e irrevogável direito que temos é o de servirmos aos nossos irmãos.

2. Na igreja, os pais ocupam uma posição de servos mais velhos pois, numa casa, quem é o que mais serve?

3. Os que ocupam um papel de autoridade o fazem para o bem-estar da família/igreja. O fim da autoridade é a vida de seus discípulos. (Assim como lhe deste poder sobre toda carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste – Jo 17.2).

Penso que a meta do discipulado não é ensinar alguém a obedecer. Penso que a meta do discipulado é apresentar a pessoa ao Senhor Jesus. Acho até que o trabalho do discipulador não é o de formar o caráter de Cristo no discípulo, mas expor esse discípulo a uma operação do Espírito Santo para que este faça a obra.

Precisamos fazer como fez João, o batista. Ele estava com dois de seus discípulos. Ao ver Jesus, ele lhes disse: “Eis o cordeiro de Deus…” Os seus discípulos, ouvindo isso, seguiram Jesus.

O nosso trabalho é guiar os discípulos até o Senhor. Erramos quando trazemos os discípulos para nós e nos tornamos o foco de atenção, o ponto de atração. O nosso papel é o do amigo do noivo: devemos preparar as pessoas para o Senhor Jesus. A obediência e a submissão estão integralmente ligadas a isso.

À medida que andamos e agimos dessa forma, o Senhor fará com que os discípulos dele que andam conosco nos obedeçam e se sujeitem a nós, no Senhor. Quando temos revelação da pessoa de Jesus, conduzimos as pessoas para essa mesma revelação. Foi o caso de Felipe e Natanael (Jo 1.43-51).

Não podemos compreender a questão e a natureza da obediência e da submissão fora do parâmetro maior da nossa própria e integral submissão ao Senhor dos senhores, ao Rei dos Reis, ao Cordeiro no Trono.

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