Aprendendo na Escola da Experiência

Data de publicação: 13/09/2011
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Edição 37 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 37

Por Luiz Montanini e Ezequiel Netto

Recentemente, a Revista Impacto teve uma oportunidade privilegiada de falar com um grupo de servos do Senhor, de diversas partes do Brasil e da América do Sul, que há muitos anos estão lidando com o tema desta edição na prática: como exercer autoridade na formação de verdadeiros discípulos do Senhor, sem cair em abusos por um lado, nem em anarquia ou independência por outro. Ao longo dos anos, puderam tirar valiosas lições dos seus erros e acertos. A seguir, trechos dos seus depoimentos, dados a Luiz Montanini e Ezequiel Netto.

Jorge Himitian – Buenos Aires, Argentina

Quando o Senhor nos visitou com o Espírito Santo na Argentina, em 1967, fomos levados a enfatizar primeiramente o batismo no Espírito Santo. Mas no segundo ano, 1968, à medida que estudávamos a Bíblia, outros temas mexeram conosco. Destes, os principais foram o evangelho do reino e o discipulado. E, dentro destes dois temas, vimos que era fundamental compreender o assunto de autoridade e submissão, sobretudo porque a ênfase do que Deus nos falava era que Jesus é o Senhor. E como Senhor, ele é quem manda e nós, como servos, lhe obedecemos.

Então nós, os pastores e discipuladores, começamos a buscar na Palavra de Deus os princípios de autoridade e submissão. Compreendemos na Palavra que o Senhor estabeleceu na igreja diferentes ministérios. Aprendemos, então, que ministério significa serviço, mas para exercê-lo é preciso ter autoridade – a autoridade que vem de Deus.

É impossível edificar uma vida se ela não estiver debaixo de autoridade.

A igreja tem diferentes funções e diferentes níveis de autoridade e submissão. O pai é autoridade sobre os filhos para o bem dos filhos. Assim também deve ser na igreja.

O uso da autoridade tem, entretanto, seus perigos. Pedro alerta sobre isso na sua primeira carta, capítulo 5. Disse aos presbíteros que apascentassem o rebanho não como dominadores, mas como exemplo.

Descobrimos na Argentina que quando alguns abusos de autoridade acontecem, em geral é porque a pessoa que exerce autoridade está fazendo a sua vontade e não a de Deus. Entretanto, o fato de haver mau uso da autoridade não significa que não precisamos dela.

Os exageros no exercício da autoridade verificados no auge do movimento de discipulado levaram os líderes argentinos a limitar o uso da autoridade por parte dos discipuladores. Alguns, por imaturidade, estavam se intrometendo na vida de muitos, dominando-lhes e apontando até onde deviam viver e com quem deviam se casar.

Quando tomamos consciência de que isto estava acontecendo, tivemos que corrigir. Dizíamos: “Sua responsabilidade é limitada – é ensinar a guardar tudo o que Jesus mandou”.

A liderança da igreja em Buenos Aires elaborou uma seqüência de quatro classificações para ajudar a distinguir entre aquilo que é inegociável e aquilo que fica mais a critério da própria pessoa.

1 – Autoridade bíblica. Se Jesus falou, é palavra do Senhor e tem de ser obedecida.

2 – Conselhos pastorais. Às vezes, não existe na Bíblia uma definição clara a respeito de determinado assunto. A Bíblia não diz: Não fumarás. Mas os pastores, com temor no Senhor, podem dar algumas regras e instruções, com temor e equilíbrio, que devem ser seguidas pelas ovelhas.

3 – Opinião pessoal. Por exemplo: “A meu ver, você não deve comprar esse carro porque você vai se endividar”. Fica a critério do discípulo obedecer ou não.

4 – Sugestão. É algo que nem sequer traz o peso de uma opinião.

Christian Romo – Santiago, Chile

A autoridade não está no tom de voz, se falamos alto, se batemos na mesa. Mas é reflexo da vida de Cristo em nós.

O abuso de autoridade é realmente um risco. É comum observarmos que pessoas inexperientes no exercício da autoridade parecem adquirir uma patologia depois que são revestidas de autoridade.

Se a pessoa não tiver entendimento de que recebe autoridade para servir, acaba criando problemas. Proíbem isso, proíbem aquilo, intrometem-se em vidas e tentam manipulá-las.

Esta é uma dificuldade que temos enfrentado: pessoas que, tomando uma responsabilidade que lhes foi outorgada para fazer discípulos, ultrapassaram os limites de sua responsabilidade.

Temos entendido durante todos estes anos que enquanto estivermos submissos uns aos outros vamos estar protegidos. O Senhor tem nos livrado de tantos perigos. Não temos andado como um cavaleiro solitário. Todo o que anda sozinho corre perigo.

Jan Gottfridsson – Porto Alegre, RS

No final da década de 80 e início de 90, tivemos experiências difíceis em Porto Alegre em relação a alguns abusos da parte dos discipuladores. Mas isto acabou se transformando em bênção para a igreja, porque nos levou a buscar a Deus para que ele corrigisse nosso percurso.

Em razão dos muitos erros que havíamos cometido, tivemos a tentação de jogar tudo fora, jogar a banheira com água suja e a criança juntos. Muitos acabam fazendo isso, com medo dos exageros e problemas.

Mas não fizemos assim. Jogar fora todo princípio de autoridade gera anarquia. É tão perigoso quanto o outro extremo.

Então, fizemos uma análise de tudo o que tínhamos passado, a fim de nos arrepender de qualquer abuso e buscar um discipulado pelo menos próximo ao dos evangelhos.

Isto nos levou a voltar aos princípios, a buscar mais revelação. E descobrimos uma espécie de norma áurea em 2 Coríntios 10.8 e 13.10, segundo a qual a autoridade não é para destruição, mas para edificação.

Outra coisa que nos ajudou foi uma ampliação da visão do discipulado, com a entrada da visão de paternidade espiritual. Foi uma chave para nós. A ênfase não é na autoridade, nem na exigência de submissão, mas na paternidade. Se eu tenho autoridade, ela está implícita, pela firmeza, amor e exemplo. (Veja este princípio exemplificado no relacionamento de Paulo com Timóteo e Tito, como filhos na fé, em 1 Tessalonicenses 2 e outros textos.)

Quando os discipuladores entenderam e creram nisso, os problemas praticamente deixaram de existir. E quantos problemas nós tínhamos!

Hoje podemos dizer que desde então tem ocorrido uma revolução de amor entre nós. Os discipuladores servem efetivamente aos irmãos – não estão em posição superior. Assim como o pai não é status, mas serviço, obtiveram reconhecimento da autoridade a partir dessa doação.

Hoje, usamos mais a expressão “quem cuida, quem te serve, quem te guarda”, do que algum termo que dê ênfase na autoridade.

Temos atualmente (novembro de 2004) em Porto Alegre mais de 500 pais espirituais. São dois mil irmãos com vida. Jovens, adolescentes e velhos em alegria. Passamos pela crise e Deus gerou esse amor.

Rubens de Oliveira – Piracicaba, SP

Precisamos entender a diferença entre autoridade constituída e a autoridade de fato. Não podemos apenas ostentar a autoridade terrena. Precisamos de autoridade espiritual. E isso só encontramos em Deus, no contato vivo com ele.

Submissão é uma missão de apoio. O marido e a mulher têm uma missão. Não é uma finalidade em si mesmo.O marido tem uma missão, mas para atingi-la, a mulher precisa estar submissa. Na igreja deve acontecer o mesmo. Para que a igreja desenvolva sua missão os membros precisam se submeter uns aos outros.

Ademir Ifanger – Valinhos, SP

Ainda que o perigo do abuso da autoridade seja real, o da falta dela também é um problema que merece reflexão.

Se não houver autoridade, os princípios da obediência, submissão e cooperação são anulados.

Por outro lado, é papel da autoridade também incentivar, mobilizar, fazer a articulação dos relacionamentos e ações para que todos cheguemos à maturidade descrita em Efésios 4.13.

A vida da igreja precisa ser de cooperação vinculada (Efésios 4.15-16).

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