Entrevista de Impacto: Aprendendo a Derrubar Portas – Irmão André

Data de publicação: 11/09/2011
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Edição 39 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 39

Com Irmão André

O Irmão André, autor do livro O Contrabandista de Deus e ex-missionário para a União Soviética, está agora direcionando seu ministério pessoal e as atividades da missão Portas Abertas para o mundo muçulmano. Recentemente, ele concedeu a seguinte entrevista a Stan Guthrie, editor sênior de notícias para o conceituado periódico cristão Christianity Today, para falar, entre outras coisas, do seu mais novo livro, Light Force, (“Força da Luz”, publicado em inglês pela Revell, e programado para ser lançado no Brasil por volta de agosto, pela Editora Vida). O livro descreve a luta das igrejas para sobreviverem no Oriente Médio e os esforços do Irmão André para alcançar grupos islâmicos militantes. 

Seu ministério no bloco soviético terminou por volta de 1967. Foi por causa da publicidade em torno do livro O Contrabandista de Deus?

Sim, a fim de proteger meus amigos e colaboradores, não pude mais voltar para lá depois dessa época.

Isso foi uma surpresa?

Não, na verdade, não. Penso que o mesmo poderá ocorrer com este novo livro, A Força da Luz. Será que poderei voltar ao mundo muçulmano? Ao mesmo tempo, não existe verdadeiro ganho, sem risco.

Mas agora o senhor pode voltar para lá.

Sim, mas agora aquela região não tem mais desafio para mim. Estou totalmente no mundo muçulmano no momento.

Por quê?

Porque previ desde aquele tempo, embora sem conseguir definir ou comunicar isso claramente, que a próxima série de confrontos e, portanto, de perseguições viria do mundo islâmico e não do comunismo. Eu já percebia que o sistema comunista estava prestes a expirar, enquanto o islã ficava cada vez mais forte, especialmente nos anos 70, quando a crise do petróleo estourou no mundo. O Ocidente estava de joelhos diante da mesquita.

Qual é seu alvo em ajudar cristãos perseguidos?

O princípio que sempre seguimos é “Procure seus irmãos”. Existe uma igreja naquele país? Que tipo de igreja? Do que estão precisando? Eles não precisam de nós como representantes do Ocidente, mas precisam dos nossos recursos, nosso encorajamento, nossas orações. E, mesmo que seja por puro egoísmo, precisamos concentrar nossas atenções ali porque encontraremos muitas respostas a perguntas que teremos de enfrentar no futuro próximo: como lidar com o islamismo; como lidar com o fundamentalismo; como lidar com o terrorismo.

Em comparação, o comunismo era tão fácil, era realmente fácil. Referimo-nos agora àquela época como “os bons tempos do comunismo”. No entanto, nunca saberemos quantos cristãos foram mortos, sem falar dos milhões de outras pessoas que foram mortas, por Stalin, por exemplo.

Mas o que está acontecendo no islã? Quantos estão sendo mortos lá? Que tipo de estrutura é essa que parece ser tão forte que não conseguimos penetrá-la? Por que a igreja é tão fraca nesses países? Por que há tão poucos missionários? Por que há tão pouco apoio das igrejas evangélicas no Ocidente para aqueles que estão trabalhando no mundo muçulmano? Todas essas coisas nos encabulam atualmente. E eu quero saber.

Portanto, essa é a razão por que vamos para lá. Temos uma missão com dois objetivos: primeiro, fortalecer a igreja e, depois, aprender do islamismo, aplicar isso à nossa própria situação e, finalmente, completando o ciclo, fortalecer mais a igreja lá e preparar a igreja melhor em nossos países. Basicamente, essa era a nossa declaração de missão em relação ao comunismo. Há tanta coisa que aprendemos deles que dá para aplicar em nossas próprias casas. A primeira bênção é para nós mesmos. Creio que o mesmo está acontecendo agora.

Por que o senhor escreveu Força da Luz?

A reação do Ocidente aos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 foi de pânico e exagero. Houve um êxodo de milhares de árabes e muçulmanos para fora dos Estados Unidos. Precisamos tirar o medo. Estamos lidando com pessoas. Pessoalmente, não gosto do termo terrorismo, porque quero dar a eles um rosto. O Hamas não é um grupo de terroristas [para os cristãos]. O Hamas se compõe de pessoas que perderam toda esperança no futuro e na vida. Quando eles decidem se explodir e morrer, não é porque são politicamente motivados ou porque querem atacar o Ocidente. É porque não acharam um motivo para viver.

Nós, como cristãos, somos as únicas pessoas no mundo que, baseadas no Livro dos livros, podem oferecer a todo o mundo uma razão para viver. Se essa razão para viver não for encontrada, não culpe quem encontrou um motivo para morrer, porque estas são as únicas alternativas: viver ou morrer. Nós queremos mergulhar bem no centro do conflito. É por isso que vamos a esses grupos.

O segundo passo é apresentar esse assunto à igreja de lá – uma igreja fraca, que está diminuindo cada vez mais. Eles podem estender a mão para alcançar os muçulmanos, mas nunca foram ensinados a fazer isso. Além disso, têm medo de fazê-lo. Queremos ajudá-los a vencer seu medo e a sair para alcançar os muçulmanos. Então, nosso ministério é direcionado à igreja para que os muçulmanos sejam alcançados por meio dela.

O que a igreja no Ocidente precisa saber a respeito das igrejas no mundo muçulmano e no Oriente Médio?

Primeiro, precisam saber que existe uma igreja. E nosso conselho é que sempre que houver uma calamidade, seja um desastre natural ou, mais provavelmente, um desastre revolucionário – um ataque a bomba, um seqüestro com reféns numa escola (como houve em Beslan, na Rússia) ou uma guerra repentina no Afeganistão ou no Iraque – que façamos a pergunta: “Existe uma igreja naquele lugar?”. Pois nesse caso, podemos estender nossa mão e ajudar a igreja a ser a igreja naquelas regiões.

No mundo muçulmano, existem vários países onde nunca houve igreja. Por isso precisamos de pioneiros com visão, fé e sustento para ir lá e começar a obra. No nosso caso, nossa missão é ir onde ainda existe uma igreja, tentar localizar os cristãos e equipar, motivar e guiá-los, se necessário, a uma posição onde consigam funcionar.

Como o senhor aborda os muçulmanos?

Vejo os muçulmanos como pessoas à procura de Deus. Sinto-me quase como Paulo em Atenas. Precisamos ter aquela ousadia para ir a eles e dizer: “O que vocês buscam, eu tenho”. É nossa atitude política e, muitas vezes, teológica que nos afasta deles. Se os virmos simplesmente como membros de uma religião maligna e pensarmos de Alá como um demônio, nunca chegaremos lá, com certeza. Essa atitude bloqueia a porta e nos impede de entrar.

O senhor entra em discussões doutrinárias?

Recentemente, eu estava voltando para ver o pessoal do Hamas, em Gaza, e um dos nossos líderes me perguntou: “Bem, André, é agora que você vai lhes dizer que precisam crer na Trindade?”. Respondi: “A única coisa que posso lhe dizer é que você nunca evangelizará os muçulmanos assim, porque não podemos ir a eles para forçar uma questão doutrinária garganta abaixo. Nós vamos a eles para demonstrar o amor e a compaixão de Jesus, para colocar nossos braços em volta de pessoas perdidas, totalmente perdidas, que vivem nas trevas. Estamos indo para lá para levar um pouco de luz e, depois, para encorajar a igreja que ainda sobrevive para que também seja a luz, para que seja a igreja e que funcione assim”. Precisamos ter a ousadia de ir a eles e dizer: “O que vocês procuram” – eu não digo o que vocês não têm, embora é isso que penso – “o que vocês procuram, eu tenho”.

E quanto aos seus contatos com Hamas, Jihad Islâmico e Hezbollah?

Tive contato direto com o Hamas quando o grupo foi deportado para as montanhas no Líbano, em dezembro de 1992. Não só fiz contato, como também amizade com eles. Essa amizade continuou, pois me pediram para visitar suas famílias. Entregamos as Escrituras e oramos por eles. Demos testemunho e tiramos fotos. Voltamos para as montanhas, entregamos as fotos aos filhos e aos pais e, quando nosso tempo estava no fim, convidei-os a tomar uma refeição comigo. Quando vieram, ainda não estavam livres. Estavam confinados na cidade e desempregados. Não podiam ir a lugar nenhum, mas vieram e os chamei para comer comigo. Foi dessa forma que fiquei conhecendo centenas deles. Daquele contato surgiu o convite para dar uma palestra numa universidade local sobre o tema: “O Que é Verdadeiro Cristianismo?”.

E assim continua. É uma história sem fim. Chamo-a de amizade porque é uma forma de evangelismo através de amizade. Como poderão amar meu Salvador se não conseguirem primeiro amar a mim? É preciso se aproximar deles. E a maneira mais fácil e mais rápida de se aproximar de qualquer pessoa é ajudá-la quando está em necessidade. Então é isso que eu faço.

E como o senhor avalia os resultados obtidos até agora em construir relacionamentos e abrir alguma luz em suas vidas?

Não sei. Deus é quem guarda o livro dos resultados. Nós não falamos em termos de convertidos. A única pergunta que posso fazer é a mesma que fiz após o comunismo: “Como teria sido se não tivéssemos feito essas coisas?”. Eu sei que no Ocidente as pessoas ficam muito impressionadas com números e estatísticas. Uma vez visitei a Christian Peacemaking Team (Equipe Cristã de Pacificação), em Hebrom. Este é um grupo que se originou nos Estados Unidos com as igrejas pacificadoras – são pessoas muito boas, gente maravilhosa mesmo. Então, eles me perguntaram: “Irmão André, quantos membros do Hamas você já levou a Jesus?”. Respondi: “Nenhum”. Aí me disseram: “Oh, aleluia, porque toda carta que vem da América pergunta quantas conversões de muçulmanos já obtivemos. Agora podemos dizer que nem o Irmão André conseguiu!”. Isso foi muito confortante para eles. Não estamos no jogo de números. Estamos no jogo de influência. E a força da igreja, em qualquer lugar, jamais pode ser avaliada em termos de números ou estatísticas, somente através da influência que tem na sociedade.

Por outro lado, as pessoas que naturalmente têm direito de suspeitar desses grupos, por causa do que já fizeram, podem questionar se não estão simplesmente convidando o senhor para obter vantagem para seus próprios objetivos.

Não são eles que me convidam. Eu ando derrubando portas trancadas o tempo todo. O evangelismo, por sua própria natureza, sempre precisa ser agressivo. Temos nos desviado da idéia central de Atos 1.8, e invertemos os papéis, dizendo: “Bem, eles é que precisam nos convidar”. De jeito nenhum. Jesus disse: “Bem-aventurados os pacificadores”. Para onde vão os pacificadores?

Para onde há guerra.

Isso é que é agressividade. É correr riscos. É enfrentar o inimigo, olhando direto nos seus olhos.

A minha pergunta não era se estavam convidando o senhor, mas se algumas pessoas poderiam achar que estão usando o senhor para seus próprios fins.

Com certeza! E também existem pessoas que levam essa questão um passo adiante. Dizem: “Irmão André, o senhor está errado, pois está fazendo amizade com os inimigos de Israel”. A isso eu respondo: “Este é o maior serviço que posso fazer para Israel: fazer seus inimigos darem uma volta de cento e oitenta graus”. É uma tentativa clara de levá-los a fazer essa reviravolta. Pois, uma vez que se tornam irmãos, não são mais inimigos. Tenho conversado com muitos deles e, para isso, preciso permanecer neutro. Não tenho escolhido um lado para apoiar. Não quero entrar na questão política porque aí você entra em controvérsias onde as pessoas dizem: “Tenho meus direitos”, e as outras também dizem: “Não, nós é que temos direitos”. Eu quero dizer: “Jesus Cristo tem direito a todos vocês. Vamos falar sobre Jesus”. Os muçulmanos querem falar sobre Jesus, com toda certeza.

Um indivíduo veio com uma pilha de papéis, um curso de correspondência da Rádio Trans Mundial sobre a vida de Jesus que ele havia feito. À noite, eles ouvem o programa, respondem às lições, depois mandam pelo correio para serem corrigidas. Estão estudando a vida de Jesus porque o islã não consegue e nunca conseguirá satisfazê-los. Não satisfaz a nenhum muçulmano. Não há perdão, não há amor, não há vida eterna. E eles querem ir para o céu. Todo o mundo quer ir para o céu. Porém, vivemos numa época em que o islã foi radicalizado. E agora acham que descobriram o caminho para o céu – morrer no jihad.

É por isso que estou prevendo que o Ocidente terá outra dose de terrorismo e violência, porque os muçulmanos querem ir para o céu. E não temos mostrado para eles o caminho para o céu. Por que não fazemos isso? É o único caminho. Como não acharam uma razão para viver, acabaram achando uma razão para morrer.

Querem um messias; esperam um messias. Mas o Messias verdadeiro tem suas mãos furadas e veio montado num jumento, não na cabina de um F-16. Eles querem ver esse Messias. Então, quando somos suficientemente vulneráveis para ir até eles, usando nossa única arma, a Palavra de Deus, eles nos aceitam e vêem nossa mensagem como a alternativa àquilo que, lá no fundo, realmente temem. Você não acha que aquela mãe chora quando o filho se explode? É claro que chora. Eles têm os mesmos sentimentos que nós.

É por isso que faço objeção ao termo terrorismo. É que eles não conseguem ver uma saída. E nós, com nossa atitude ocidental, fechamo-los mais e mais naquele canto extremo. Temos que tirá-los de lá. Começar um diálogo, visitá-los, trocar livros. Precisamos de uma nova geração de missionários que não somente compreendam as questões em jogo, mas que sejam humildes o suficiente, como seguidores de Cristo, para irem sem calçados, sem bolsa, para simplesmente estarem lá, identificando-se com eles na sua extrema necessidade, e para lhes dizerem: “Eu sou Jesus para vocês. Eu amo vocês. Quero ser seu amigo”. Se fizerem assim, verão que as pessoas lhes serão abertas e hospitaleiras.

Então precisamos de uma nova forma de abordagem, ainda que a mensagem seja a mesma.

Em retrospecto, ao contemplar sua vida e ministério, o que o senhor identifica como sendo seu maior sucesso e seu maior fracasso?

Tive muito mais fracassos que sucessos. Tudo que quero é apenas ser um instrumento nas mãos do Mestre. Quanto a fracasso ou sucesso, isso não entra na minha perspectiva. Talvez não devesse estar na perspectiva de ninguém. Estamos seguindo o Mestre. E creio que uma mensagem séria para a igreja é compreender que sua vida aqui na Terra terminará assim como a vida de Jesus terminou aqui – na cruz.

Publicado originalmente (31/012005) pela revista Christianity Today (www.christianitytoday.com). Todos os direitos autorais pertencem a Christianity Today.

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