Amor Apaixonado-Força para o Bem ou para o Mal?

Data de publicação: 23/07/2011
Este artigo pertence a: Edição 55

Por: C. S. Lewis

Tema disparadamente predominante em histórias, verdadeiras ou ficcionais, relatadas em livros, novelas e filmes, o amor entre homem e mulher, especialmente em sua forma conhecida como amor paixão, é uma das maiores forças que move o coração humano.

Em seu livro, Os Quatro Amores, o conhecido autor e pensador cristão do século passado, C. S. Lewis disseca os diversos tipos de amor, entre os quais o amor Eros. Ao contrário do conceito normalmente associado à palavra erótico, Lewis usa Eros para identificar o “estado que chamamos de ‘estar apaixonado’; ou, se preferir, aquela espécie de amor em que os amantes estão ‘envolvidos’”. Já o elemento mais carnal ou sexual contido em Eros, ele chama Vênus.

De acordo com Lewis, o perigo inerente em Eros não é seu componente sexual em si. Eros não é “mais ‘nobre’ ou mais ‘puro’ quando Vênus é reduzido ao mínimo”. O perigo maior decorre justamente do valor e da admiração que lhe atribuímos. De forma complexa e sutil, esse “amor paixão” causa-nos a impressão de ser algo vindo do “alto”, superior a nós mesmos, altruísta, sacrificial. Inspira entrega total, desconsideração da própria felicidade, liberdade para colocar os interesses de outra pessoa acima dos interesses próprios.

Mesmo as pessoas que ignoram ou desacreditam em Deus usam a linguagem de que “nasceram um para o outro”, como se esse amor tivesse vindo de outra dimensão para revelar-lhes o destino da felicidade.

De fato, “de todos os amores humanos, Eros é o que mais se assemelha ao divino”. É como se Cristo nos dissesse através de Eros: “É assim – exatamente assim, com essa mesma prodigalidade, sem pensar nos custos – que você deve amar a mim e ao menor dos meus irmãos”.

Por outro lado, Eros, honrado sem reservas e obedecido incondicionalmente, torna-se um demônio. Divinamente insensível ao nosso egoísmo, ele é também demonicamente rebelde a qualquer reivindicação de Deus ou do homem que possa opor-se a ele.

De forma paradoxal, o mesmo sentimento que incita entrega, que supera (nem que seja temporariamente) nosso egocentrismo e fixação com felicidade própria, também nos impele para os piores atos imagináveis. O amor que leva a uniões cruéis e perjuras, até mesmo a pactos suicidas e assassinato, nem sempre é produto da sensualidade exacerbada ou do sentimento mal aplicado. Pode ser muito bem Eros em todo o seu esplendor, legitimamente sincero, pronto para qualquer sacrifício, menos a renúncia.

Como isso pode ser verdade? Justamente por causa de não reconhecer a verdadeira natureza, fragilidade e perigo do “amor paixão”. Em parte pela influência de uma sociedade cada vez mais distante da revelação de Deus e do contato com o seu amor, em parte por sucumbirmos aos nossos próprios impulsos enganosos, temos idolatrado o amor Eros, como se tudo pudesse ser sancionado ou santificado quando feito no nome do amor.

Nas palavras de Lewis:

Quando amantes, referindo-se a algum ato censurável, dizem que “o amor nos levou a fazer isso”, preste atenção no tom. Quando alguém diz “eu fiz isso porque estava com medo”, ou “porque estava com raiva”, o diz de modo bem diferente.
Ele está apresentando uma desculpa para algo que acredita que exige uma desculpa. Mas os amantes raramente fazem isso.
Preste atenção no modo trêmulo, quase devoto, com que pronunciam a palavra “amor”: é menos uma “circunstância atenuante” que um apelo a uma autoridade. Essa confissão pode ser quase ostentatória. Pode haver nela um tom de desafio. Eles se sentem “mártires”. O que essas palavras realmente exprimem, nos casos extremos, é uma discreta, mas inabalável submissão ao deus do amor.
Esse espírito parece sancionar todas as espécies de atos que os amantes não ousariam cometer sob outras circunstâncias. Não me refiro apenas, ou principalmente, a atos contra a castidade. Podem ser igualmente atos de injustiça ou contra a caridade para com o mundo exterior. Os amantes podem dizer um ao outro de modo quase sacrificial: “Foi por amor que negligenciei meus pais”, “abandonei meus filhos”, “enganei meu parceiro”, “deixei de ajudar um amigo na hora de sua maior necessidade”.
Os devotos podem até mesmo chegar a ver um mérito especial em tais sacrifícios: o que se pode oferecer de mais valioso, no altar do amor, do que nossa consciência?

No entanto, como bem sabemos, a mesma paixão que parecia tão pura, tão sublime e tão eterna (levando os apaixonados a prometerem fidelidade por toda a vida) é o mais transitório e inconstante de todos os amores. Vemos assim que Eros é levado a prometer o que Eros não pode cumprir por si mesmo.

Dois princípios são importantes, segundo Lewis, para colocar as coisas na perspectiva correta. Primeiro, devemos entender que a experiência Eros, de amor apaixonado, não é a verdadeira ou final, para a qual fomos criados. “Trata-se de uma imagem, uma amostra do que poderemos ser para todos se o Amor Absoluto reinar em nós sem rivais. Espontaneamente e sem esforço, cumprimos (para uma pessoa) a lei que nos manda amar nosso próximo como a nós mesmos.”

Como tudo mais na criação, o amor paixão é uma sombra, uma amostra que nos impulsiona a buscar o amor verdadeiro, a experiência final de união entre nós e Deus, para o qual fomos criados e do qual temos um anseio inexplicável, profundamente arraigado no nosso interior. Por isso jamais poderemos nos satisfazer com outra coisa.

Em segundo lugar, no que concerne à nossa vida prática aqui e agora, precisamos entender que o estado de graça e “liberdade altruísta” não foi feito para durar para sempre. “Mesmo entre os melhores amantes que existem, essa condição é intermitente”, diz Lewis. “O velho ‘eu’ logo se mostra menos morto do que parecia – como depois de uma conversão religiosa. Em ambos os casos, ele pode ser momentaneamente derrubado, mas se reergue em pouco tempo – se não de pé, ao menos acotovelado; se não rugindo, ao menos de volta aos seus resmungos mal-humorados. E Vênus escorregará de volta à mera sexualidade.”

“Esses lapsos não conseguem destruir, porém, um casamento entre duas pessoas ‘decentes e sensatas’”, Lewis continua. “Cabe a nós fazer as obras de Eros quando ele não está presente. Todos os bons amantes cristãos sabem que esse plano de vida, por mais modesto que pareça, não pode ser cumprido senão com humildade, caridade e graça divina – que ele é, no fundo, a vida cristã inteira, vista de determinado ângulo.”

Nem todos têm o privilégio de experimentar esse tipo de amor paixão. Imagine que a maioria dos casamentos, na perspectiva da totalidade da história humana, nem sequer resultou de escolha própria do casal. Entretanto, quando entendida da maneira certa, sem reverência descabida ou obediência cega, a chama do amor paixão poderá ser uma grande força positiva no casamento e uma pequena amostra do único amor que é constante, abnegado e eterno, o amor que é “forte como a morte”, e que não pode ser apagado pelas muitas águas nem afogado pelos rios (Ct 8.6,7).

Compilado do capítulo 5 do livro “Os Quatro Amores”, de C. S. Lewis, Ed. Martins Fontes.

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