Última Palavra-Adolescência: Potencial Desperdiçado

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 65 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por Pedro Arruda

Tendo sido abençoada com o aumento da expectativa de vida, sem dúvida alguma nossa geração terá de prestar contas a Deus desse tempo excedente conforme nos ensina a parábola dos talentos. Podemos comparar esse prolongamento da vida ao esticamento de um elástico que, preso numa extremidade, distende-se por inteiro e não somente na extremidade que está sendo puxada. O envelhecimento demora mais para surgir e, por isso, é a parte que mais se destaca no prolongamento da vida. No entanto, as demais fases da vida sofrem igual dilatação.

Como consequência, os jovens iniciam a vida profissional mais tarde, após a conclusão da formação universitária, e isso, por sua vez, provoca o adiamento do matrimônio e da geração de filhos. O ingresso tardio no mercado de trabalho implica também uma saída com idade mais avançada do que acontecia na geração anterior. Finalmente, temos a terceira idade, até recentemente tão desconhecida quanto a adolescência, mas agora igualmente explorada pelo mundo comercial.

Em todo esse processo de prolongamento da vida, há um fenômeno interessante que envolve a adolescência. Além do adiamento do pleno ingresso na fase adulta, que pode ser considerada a origem da adolescência, devemos observar também, no outro extremo, o precoce encerramento da infância devido à intensa exposição das crianças ao mundo adulto. Assim, a adolescência engloba a fase que antes estava oculta entre a infância e a juventude propriamente dita, como o recheio de um sanduíche.

Grande potencial para o bem e para o mal

A pergunta diante de nós, portanto, é a seguinte: se Deus nos concedeu mais anos de vida, o que devemos fazer com eles? Como nosso assunto é adolescência, focaremos nesse período etário.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a fase da adolescência abrange a idade entre 10 e 19 anos; já o Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil define-a como o período entre 12 e 19 anos, o que representa em torno de 22% da nossa população.

É fato comprovado que esse período é o mais favorável às conversões, tanto pela quantidade quanto pela maior consistência e durabilidade. O adolescente está carregado de sonhos e ideais, buscando onde possa ancorá-los com intensidade e paixão. Quem aceita a mensagem de Jesus durante os anos de adolescência encontra uma causa que pode dar sentido e realidade aos sonhos. Como os pais exercem uma função de moderadores, na maioria dos casos tentam impedir atitudes e decisões mais extremistas ou radicais dos filhos, incentivando-os a serem simplesmente bons cidadãos. Isso, contudo, pode provocar um sério esfriamento em sua fé e idealismo.

Passividade não combina com adolescentes, cheios de energia e potencial, mas ainda sem rumo certo. Ao invés de reprimir ou conter essa energia, é preciso ter muita sabedoria para canalizá-la ao propósito de Deus. Ao se oporem à paixão de um filho adolescente, por exemplo, os pais poderão ter problemas sérios. Com muita facilidade, o adolescente, que já está impulsionado pelo sentimento de amor, torna-se duplamente motivado pelo desafio de superar o obstáculo representado pela oposição dos pais.

Se observarmos os discípulos de Jesus, o mais jovem deles (João) se destaca por estar presente em todos os momentos mais críticos. Acompanhou Jesus até o último momento de sua vida, presenciando toda sua agonia, e foi o primeiro a chegar ao túmulo vazio após a ressurreição. Seu evangelho narra coisas singulares, de modo bem peculiar, das quais só ele, aparentemente, foi capaz de se apropriar. Viveu o suficiente para ter um extraordinário reencontro com o Senhor e de registrá-lo no livro do Apocalipse. E quando conheceu Jesus, era apenas um adolescente.

O que estamos perdendo?

Com o aumento da expectativa de vida, o período da adolescência – que antes estava escondido feito recheio de sanduíche entre a infância e a fase adulta – agora pode ser observado e valorizado de maneira bem distinta. Contudo, receio que estejamos desprezando o potencial para Deus que a maior longevidade nos proporciona. Enquanto os muçulmanos estão transformando seus adolescentes em radicais guerrilheiros de Alá, nós, cristãos, estamos perdendo a oportunidade de incendiar os nossos com o amor de Jesus. Por um lado, permanecemos inertes e omissos enquanto eles continuam seu curso de vida, apenas torcendo para que logo passe essa fase de rebeldia e inconformidade; por outro, tentamos apagar seu fogo, mesmo que seja pelo Senhor.

Infelizmente, parece que não estamos à altura de usufruir desse presente que o Senhor nos deu. Se os adolescentes de Alá fazem o que fazem, usando o ódio como o combustível de seus ideais, imaginem o que poderiam fazer os adolescentes de Cristo se fossem movidos por amor para implementar os ideais do Reino. Talvez, a saída não seja exatamente domesticar os adolescentes, mas canalizar a Cristo toda a sua intensidade.

Sem visão, o que podemos oferecer?

Penso que a grande dificuldade em tratar com os adolescentes é porque não temos uma visão de futuro e um projeto concreto para oferecer-lhes. No final da década de 60, começou a surgir uma filosofia que pregava o prazer imediato: viver e desfrutar ao máximo do presente já que o futuro é uma absoluta incerteza. Em outras palavras, uma vida inconsequente. Era um existencialismo pessimista trazido por Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse e outros que queriam contestar as tradições e o passado, mas nada ofereciam quanto ao futuro. Numa suposta mensagem libertária, incentivavam o uso da pílula anticoncepcional recém-inventada, dando força para o florescimento do feminismo. O slogan paz e amor tentava contrapor-se à guerra fria entre capitalismo e socialismo comandada pelas potencias do pós-guerra que se achavam no direito de invadir outras nações e tratá-las como se fossem seu próprio quintal.

Hoje, olhando para tudo isso, parece que foi uma guerra sem vencedores, na qual a maior vítima foi a esperança. O legado foi resumir a vida em trabalhar apenas para atender a própria sobrevivência ou manter o status alcançado. Enquanto isso, assistimos, passivos e assombrados, à expansão do islamismo que aposta cada vez mais na coragem de seus adolescentes, forjada nos campos de refugiados, onde são treinados para aterrorizar o mundo, especialmente os países mais poderosos. Pode soar como ironia, mas parece que o único contraponto de fé para tudo isso, além de Israel, está a cargo do criticado cristianismo em muitas nações chamadas de terceiro mundo.

Uma geração esvaziada de visão de futuro nada tem a oferecer aos filhos nesse sentido. Mas nós, cristãos, não deveríamos conformar-nos com este mundo, pois o que temos a oferecer aos nossos filhos supera em muito o próprio islamismo. Erramos por não conhecermos o propósito de Deus. Ou, quando o conhecemos, não cremos o suficiente para gerar confiança neles. Talvez por antever essa situação, Jesus deixou a seguinte pergunta: “Quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?

Precisamos possuir uma visão do Reino de Deus que nos dê não apenas um motivo para viver, mas em favor da qual creiamos que vale a pena morrer. Só então teremos o que oferecer a nossos filhos para livrá-los da prisão do presente século que insiste em moldá-los para serem apenas bons cidadãos, enquanto eles, incompatíveis com a domesticação que queremos lhes impor, respondem com rebeldia, drogas e sexo. Como pais, devemos converter nosso coração a fim de que tenhamos condições de oferecer-lhes algo que supere até mesmo sua própria intensidade: um futuro maior que o sonho, um ideal mais nobre que o imaginado e um amor imenso, impossível de ser mensurado ou esgotado, e que, mesmo assim, é a mais absoluta realidade.

Resumindo: só quem tiver uma visão apaixonada do Reino de Deus terá condições de oferecer algo à altura da adolescência atual.

Senhor, obrigado pelos anos a mais que nos deste. Dá-nos sabedoria para contarmos os nossos dias, a fim de que não sejam desperdiçados.