A Segurança Que Somente a Adoração Nos Oferece

Data de publicação: 15/09/2011
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Edição 35 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 35

Por Pedro Arruda

“Deus nada faz a não ser em resposta a oração.” Com esta frase, John Wesley sintetizou com muita felicidade a história da parceria de Deus com o homem. Embora Deus seja suficiente para fazer todas as coisas, ele se auto limitou para trabalhar com o homem na construção de seu reino e ter sua companhia eterna. “Deus nada faz a não ser em resposta a oração” equivale a um lado da moeda, que tem como correspondente, do outro lado, a afirmativa de que “Deus nada faz em desacordo com sua vontade”. Desta forma, podemos entender que há uma dependência recíproca entre Deus e o homem e, portanto, uma oração só é válida quando expressa a concordância da vontade do homem com a de Deus.

Durante toda nossa existência, sofremos constantes influências do mundo, que jaz, como sabemos, no maligno, o príncipe deste século que nada tem em comum com Deus. Assim, sob muitos aspectos, trazemos dentro de nós diversos pensamentos que, embora pareçam nobres, foram inculcados na nossa mente direta ou indiretamente por Satanás. É possível que muitas de nossas orações contenham petições inspiradas em tais pensamentos, o que nos torna, em última análise, porta-vozes de Satanás. Isso implica que se Deus atendesse a tais petições, estaria atendendo à vontade ou à ordem de Satanás.

É obvio que isso ocorre de maneira muito sutil, pois Satanás é o pai da mentira e sabe ludibriar com excelência. Uma das principais formas de induzir as pessoas é usando a Palavra de Deus, desvinculando-a da pessoa de Deus. Ele usurpa a Palavra de Deus, insinuando que Deus continua comprometido com a interpretação distorcida dada pelo inimigo. Ele abordou tanto Eva como Jesus desta mesma forma. Não seria, então, de estranhar a presença maligna no lugar onde imaginaríamos que seria seu último reduto, isto é, no meio da igreja, especialmente na cultura cristã, que dispensou Cristo e tem uma vida própria, autônoma.

Precisamos descontaminar-nos para sermos úteis a Deus em oração. Muitas vezes julgamos amar a Deus quando, na verdade, amamos aquilo que Deus nos dá. Como apreciamos demais as bênçãos que nos permitem usufruir melhor deste mundo, tais como uma boa saúde, uma boa renda financeira, a paz de não termos nossa segurança ameaçada, e outras semelhantes a essas, podemos estar, na verdade, amando o mundo e não a Deus. É comum que o amor ao mundo recheie nossas súplicas e os motivos de nossos jejuns (ou reivindicativas greves de fome) que apresentamos a Deus. O mais irônico é que julgamos ser espiritual quem passa mais tempo falando com Deus, mesmo quando o assunto das suas orações seja exatamente esta preocupação com benefícios deste mundo.

Adoração, o Refúgio Seguro do Cristão

Se até mesmo no âmbito da oração e da Palavra de Deus estamos correndo riscos, dada nossa centralidade no “eu”, compreende-se por que é tão importante a adoração que Deus tanto nos solicita. Ela é, antes de tudo, uma medida de segurança que nos liberta e nos mantém livres de nós mesmos. Assim se realiza a principal libertação que Deus opera em nós.

A adoração funciona como o principal agente de saneamento em nossa vida. Inicia-se na esfera espiritual, alcançando também nossa alma e nosso físico, pois há muitas enfermidades mentais ou físicas, cuja origem está na centralidade do “eu”. A adoração é higiênica para o homem, pois o descontamina e impede novas contaminações próprias da vida egocêntrica. Na adoração, enquanto Deus é exaltado, o homem é colocado no seu devido lugar e ganha toda a proteção divina.

À medida que praticamos a adoração, essa proteção é estendida também à nossa oração e ao nosso relacionamento com a Palavra de Deus, o que nos dá a segurança que precisamos para não sermos enganados por Satanás. A prática da adoração produz um ciclo virtuoso de entendermos a Palavra de Deus e orarmos de acordo com sua vontade.

Não podemos reduzir a adoração apenas aos cânticos, pois muitos destes são peticionais e enquadram-se, assim, nas mesmas condições das orações, levando-nos aos mesmos riscos de expressarmos a vontade de nosso coração e da sua amizade com o mundo, como ocorre freqüentemente nas músicas produzidas com intuito comercial. Às vezes, até músicas de legítima inspiração são contaminadas com essa atitude mundana do sucesso.

Podemos adorar a Deus sem, necessariamente, estarmos cantando ou executando uma música. O momento que dedicamos exclusivamente para estarmos na presença de Deus deve ser uma síntese apoteótica daquilo que é a nossa vida e não um parêntese estranho.

Nos dias atuais, muitos de nós fazem de seu momento no templo, chamado de adoração, algo peculiar sem a menor relação com seu dia-a-dia, enquanto na verdade isso deveria ser um ápice do relacionamento com Deus, expressado na comunhão diária com os que compartilham o cotidiano, especialmente com os familiares.

É urgente, hoje, que cada cristão restaure a sua condição de adorador, pois assim como uma árvore má não pode dar bons frutos, da mesma maneira não podemos produzir adoração a Deus se não formos adoradores de coração. Pouco valia tem o local, o horário, a forma e o ambiente que escolhemos para adorar, se acima de tudo não se tratar de uma reunião de adoradores. Adorar não é separar um horário e local para isso, mas é fazer desse horário e local o momento culminante do que se faz em todos os outros momentos e locais.

Deus Quer Que Eu Queira

Nossa relação com Deus pode ser ilustrada como uma relação de adolescentes. Imaginemos que determinada garota esteja interessada em certo garoto. Eles vão assistir a um teatro juntamente com a turma da escola. Ela vai fazer de tudo para que o garoto sente-se ao seu lado. Porém, embora esse seja o seu mais forte desejo, é muito provável que não diga isso ao garoto diretamente. Sua maior felicidade será se ele sentar-se ao lado dela, não porque ela pediu, mas porque ele assim também quis e o fez espontaneamente.

Muitas vezes, Deus age dessa maneira conosco. Ele não impõe a sua vontade, mas aqueles que se tornam íntimos do Senhor perceberão que ele quer que queiramos a sua vontade. É assim que pauta a sua parceria com o homem. Querer o que Deus quer significa participar de sua vontade e pertencer ao seu reino. Davi captou isso e recebeu o elogio de ser um homem segundo o coração de Deus e que lhe executaria toda a sua vontade.

Nada há de mais elevado para o homem. É o que de mais sublime se pode desejar. Para que essa aliança de felicidade se tornasse possível, ele deu a sua vida em sofrimento por nós. Se não podemos dizer que Deus impõe a sua vontade, também não podemos ignorar que ele agiu radicalmente, nada fazendo em sutileza, para que percebêssemos seu amor e interesse por nós. Deus quer que queiramos adorá-lo.

Pedro Arruda reside em Barueri – SP e é um dos coordenadores de uma comunhão de grupos espalhados por várias cidades e estados no Brasil.

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Contemplando a Glória Do Senhor
Por Ariovaldo Ramos

“E todos nós, de rosto desvendado, contemplando como espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória à sua imagem, como pelo Senhor o Espírito” (2 Co 3.18).

Moisés colocou véu sobre o seu rosto porque o brilho que dele irradiava começou a desaparecer. Isto aconteceu porque ele não estava mais exposto à glória do Senhor, logo, o brilho correspondente começou a desvanecer. Paulo diz que conosco é diferente, pois estamos sempre expostos, ou só não estará exposto quem não o quiser. Cada um de nós é chamado a essa contemplação que redundará num “resplandecimento” constante.

A exposição à glória do Senhor não é passiva, uma vez que é uma contemplação tipo mirar-se no espelho. A gente se mira no espelho para se ver e se acertar; da mesma forma, contempla-se a glória do Senhor para se conhecer à sua luz (“na tua luz vemos a luz” – Sl 36.9), e, também, para se acertar, para se deixar corrigir a partir dessa glória. O Espírito Santo faz isso, transformando-nos à semelhança dessa imagem maravilhosa. Logo, a glória do Senhor é uma pessoa, porque, uma vez que somos pessoas, só podemos ser transformados à imagem doutra pessoa. E é a glória do Senhor e não o Senhor da glória. A glória do Senhor é a sua bondade (Ex 33.19). A bondade do Senhor se manifestou plenamente em Cristo Jesus (Jo 1.14). Mais, Cristo é o próprio Senhor em toda a sua bondade entre nós (Mt 1.23).

E onde a gente contempla essa glória? Bem, primeiramente, nas Escrituras, isso se lermos a Bíblia para ver e entender Jesus Cristo; em segundo lugar, nos irmãos – devemos aprender a surpreender Cristo na vida de nossos irmãos, em suas palavras e ações, o que significa o exercício de prestar atenção nas coisas positivas que eles fazem; em terceiro lugar, devemos usar a prática de antes de qualquer ação, perguntar o que Jesus faria se estivesse em nosso lugar, assim invocamos a glória do Senhor para diante de nós o tempo todo.

Uma paráfrase: “E todos nós, de rosto desvendado, contemplando como espelho, a Jesus Cristo, somos transformados de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito, em uma pessoa como ele”. Considero essa uma boa descrição do que é adoração: 1. contemplação; 2. desejo (porque o olhar-se no espelho traz consigo o desejo de acerto, de correção); 3. imitação/transformação e conseqüente resplandecência. É bom lembrar que esta é uma prática diária, constante que tem de ser levada a efeito em todo lugar e em todo tempo.

Ariovaldo Ramos é missionário da Sepal, presidente da Visão Mundial no Brasil, pastor da Comunidade Cristã Reformada em São Paulo e membro do CONSEA – Conselho de Segurança Alimentar do Governo Federal.

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