A Igreja… Sua Origem

Data de publicação: 18/11/2011
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Edição 20 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 20

Por: Harold Walker

Vivemos num mundo em crise e aquilo que Deus planejou como solução – a igreja – em vez de ser resposta para os problemas da humanidade faz parte do problema! Apesar de todos os avanços na restauração da igreja com a Reforma Protestante e o derramamento do Espírito Santo no Século XX, em vez da igreja representar Jesus vivo ao mundo, ela, além de sofrer os mesmos problemas (pecado, ciúme, desordem nas famílias, divórcio, ódio, contendas, ambição, depressão e doença), agrava ainda mais a situação com sua hipocrisia e presunção, apresentando fórmulas teológicas, doutrinas humanistas e preceitos religiosos como solução e recusando-se a admitir que tudo isso não está funcionando.

Temos de admitir: apesar de todos os toques cosméticos atuais (mudanças de estrutura, metodologia, liturgia ou títulos ministeriais) que tentam melhorar o desempenho da igreja, algo fundamental está errado. Se for para a igreja atingir o sonho de Deus, e desafiar as portas do inferno (Mt 16.18),  manifestar a multiforme sabedoria de Deus aos principados e potestades nos lugares celestiais (Ef 3.10) e tornar-se gloriosa, sem mácula nem ruga, na vinda do seu Noivo (Ef 5.27), ela precisará sofrer uma reforma profunda e radical.

Todos que receberam o penhor da herança, o batismo no Espírito Santo, muitas vezes mesmo sem um claro entendimento da situação, sentem dentro de si os gemidos do Espírito para que isto aconteça. No mais interior do nosso ser, o Espírito testifica com nosso espírito que a igreja não é o que devia ser e que não estamos fazendo o que devíamos fazer. Deus e o mundo clamam pelo aparecimento de uma igreja santa e unida, que goza da plena autorização de Deus para executar suas obras na terra.

Se realmente quisermos contribuir para uma restauração plena da pureza e poder da igreja, teremos que tirar todo o entulho que séculos de influências humanas depositaram sobre ela. Precisamos discernir qual é a sua essência e para isto teremos de voltar à sua origem.

A primeira vinda de Jesus foi o evento mais cataclísmico que este mundo já viveu. Apesar da maioria dos seus contemporâneos não perceberem, foi uma mudança de marcha em toda a história do planeta, de proporções e consequências inimagináveis. Desencadeou a mudança da lei para a graça, trouxe a inédita revelação de que o único Deus, Jeová, do Velho Testamento, na verdade era um Pai que tinha um Filho por meio do Espírito Santo, e que este Filho se encarnou e viveu entre nós. Abriu a porta para a entrada dos gentios no plano de redenção de Deus e trouxe a destruição da nação de Israel e de Jerusalém por causa da sua rejeição do Messias.

Dentre todas estas mudanças, porém, queremos destacar uma que precisamos compreender melhor. Apesar de ser de conhecimento geral de que foi Jesus quem fundou a igreja, a maneira como ele o fez contradiz a maioria das teorias atuais sobre a natureza e prática da igreja.

Em primeiro lugar, a ênfase da sua mensagem não era a igreja e sim a vinda do reino de Deus. Neste sentido, ele não trouxe novidades mas continuou a ênfase dos profetas do Velho Testamento. Deus havia falado por séculos por meio dos profetas que a sua solução para a humanidade seria a vinda do Ungido, do Cristo, do Messias, do Príncipe que se assentaria no trono de Davi e que traria o reino eterno de paz e justiça.

A grande mudança que Jesus trouxe foi sobre a natureza deste reino e a maneira como seria estabelecido. E é bem aí que encontramos a origem da igreja. Jesus disse que o reino não começaria exteriormente mas interiormente (Lc 17.20,21). Os próprios discípulos não entenderam isto durante todo o ministério de Jesus. Viviam na expectativa da manifestação do reino exterior a qualquer momento (Mt 20.20,21; At 1.6).

Nos quatro evangelhos que relatam a vida de Jesus só encontramos duas menções da igreja. Isto mostra que não é enfatizando a igreja ou falando sobre ela que a faz surgir. Ela não é uma instituição organizada com vida própria e uma agenda a cumprir. Podemos encontrar na primeira referência de Jesus à igreja o seu elemento mais intrínseco e essencial.

“Tendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Disse-lhes Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16.13-19).

Pedro como sempre era rápido para responder, mas desta vez acertou. Ele disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. O nome “Cristo” significa “Ungido” e “Jesus” significa “Deus salva”. Deus salva pelo Ungido. “Cristo” é grego e “Messias” é a mesma palavra no hebraico. Para Pedro dizer que Jesus era o Messias ou o Cristo não é muito surpreendente pois era baseado nesta fé que os discípulos haviam abandonado suas redes para segui-lo (Jo 1.40,41). Os discípulos criam que Jesus era o ungido anunciado pelos profetas para trazer o reino de Deus. (Veja como quase cada versículo de Daniel 9.24-27 menciona o ungido, o príncipe (Jesus Cristo).

Mas Pedro não pára aí. Ele faz a afirmação inédita que só poderia ter vindo por revelação direta de Deus, e cujas implicações e consequências ele mesmo não entendia nem imaginava: “Tu és o Filho do Deus vivo”. Além de ser o ungido, o rei, Jesus é Filho de Deus, e o Filho de Deus é Deus! (Jo 1.1). É neste ponto que o judaísmo e o cristianismo partem caminhos. É neste ponto que nasce a igreja. Ou é a maior blasfêmia possível de ser proferida por um homem – rebaixar Deus a um corpo humano – ou a maior verdade e esperança de toda a humanidade. Isso tem causado muitas polêmicas durante a história da igreja porque é mistério e precisa-se de revelação para entendê-lo. Naquele momento, Pedro foi inspirado para dizer: “Filho do Deus vivo”. E é precisamente neste momento que Jesus fala sobre a igreja pela primeira vez.

Pedro teve revelação e falou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” e Jesus virou para Pedro e falou: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Jesus falou que edificaria sua igreja sobre esta revelação porque a revelação da palavra produz a igreja. O fundamento da igreja é a palavra viva. Palavra não é só doutrina, é uma pessoa que se encarnou.

Os católicos erram quando dizem que Jesus edificaria a igreja sobre a pessoa de Pedro. Mas os protestantes também erram quando dizem que ele edificaria a igreja sobre a declaração de Pedro. As provas destes erros estão escritas na história da igreja: Unidade pela força em torno do papa, suposto sucessor de Pedro – erro católico – e a heresia protestante de que se pode dividir quantas vezes for necessário e ainda ser abençoado por Deus.

Realmente existe uma sucessão apostólica, mas não de um apóstolo para o outro, mas de uma revelação para outra. A chave não está no homem delegando misticamente sua posição privilegiada diante de Deus para outro homem através da imposição de mãos, mas também não está na repetição de uma fórmula doutrinária mágica que contém a verdade. A chave está em receber revelação novamente desta verdade fundamental – Jesus é Filho de Deus, portanto é Deus, e se ele nasceu pelo Espírito de Deus, nós também podemos nascer pelo Espírito e encarnar Jesus em nossas vidas. Toda vez que uma pessoa recebe esta revelação, não por meio de carne e sangue mas do Pai, os céus e a terra fazem contato como numa faísca elétrica, o nome da pessoa muda como  aconteceu com Pedro, e ela se torna parte da igreja. Não há outra maneira de entrar na igreja.

“Então ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo” (Mt 16.20). Depois deste momento extraordinário de revelação, quando Pedro diz: “Tu és o Cristo” e Jesus diz: “Tu és Pedro”, Jesus proíbe seus discípulos de ficar falando com os outros sobre o assunto. Por quê? Ele não queria uma nova doutrina sobre o fato dele ser o Filho de Deus. Ele sabia que isto não produziria nada, como de fato vemos na igreja hoje. O fundamento da igreja não é palavra aprendida num seminário, mas esta palavra que habita em nós. Quando o Espírito Santo desceu no dia de Pentecoste, os discípulos começaram a falar porque experimentaram a realidade e a autoridade desta revelação.

A igreja só vai encontrar sua verdadeira identidade e seu verdadeiro nome quando conhecer verdadeiramente quem Jesus é. E isto só vai acontecer quando ela reconhecer que ainda não o conhece verdadeiramente. Conhecemos doutrinas sobre ele, e sabemos o que os homens dizem sobre ele, mas precisamos ouvir a voz do Pai como Pedro ouviu, e declará-lo como Pedro declarou. Quando isto acontecer a igreja verdadeira aparecerá, edificada por Jesus, não através de métodos e modismos humanos, mas baseada inteiramente na palavra viva que é a própria pessoa de Jesus gerada em nós pelo Espírito.

A primeira igreja “perseverava na doutrina dos apóstolos” (At 2.42). E que doutrina era essa? “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus, o Cristo” (At 5.42). A doutrina apostólica não era uma teoria nem uma instituição mas uma palavra viva de revelação que gerava Cristo nas pessoas que a recebiam. Elas se sentiam verdadeiramente transportadas “do poder das trevas para o reino do seu Filho amado”. Pregar o evangelho não era nada mais do que “anunciar a Cristo”. Quem ouvia esta palavra “recebia o poder para se tornar filho de Deus” (Jo 1.12,13). Os apóstolos sentiam que o termo “em Cristo” era o que melhor expressava sua nova condição, razão porque o repetiam tanto em todas suas epístolas.

É triste admitir, mas temos que reconhecer que esta não é a situação hoje. Podemos repetir este termo para ser teologicamente corretos mas não é o que sentimos naturalmente como a expressão da nossa experiência. É mais fácil dizer que somos de tal e tal denominação ou linha teológica ou que estamos em tal e tal movimento que está experimentando novas formas de se reunir, evangelizar ou discipular novos convertidos. Isto é porque perdemos a essência da doutrina apostólica e precisamos reencontrá-la.

Quando Jesus fundou a igreja, ele não se preocupou em dar-lhe claras diretrizes de funcionamento, ensinamento ou governo. Ele nem se preocupou em falar sobre a igreja. Ele simplesmente apontou para sua origem, a revelação da sua identidade como Filho de Deus, dada pelo Pai que está nos céus. Ele sabia que toda vez que este encontro entre os céus e a terra ocorresse durante toda a história a seguir, a igreja surgiria, pessoas nasceriam de novo e revolucionariam suas sociedades e culturas. Não importava que depois estas explosões de revelação se cristalizariam em movimentos institucionais e humanos. Novamente, em algum lugar, dentro ou fora dos sistemas religiosos, alguém entraria novamente em contato com Deus, e nova explosão ocorreria. Haveria muita mistura com elementos espúrios mas isto não impediria o avanço dos propósitos de Deus. Nas suas parábolas, Jesus deixou muito claro de antemão, que esta mistura ocorreria, mas também deixou claro que no fim Deus purificaria sua igreja de toda mistura e a apresentaria a si mesmo igreja gloriosa, pura e sem mácula.

Jesus claramente não estava preocupado com as formas de culto, governo ou credo de sua igreja. Ele estava preocupado com a vida transformada dos seus seguidores. Ele sabia que o reino começa no interior. Desde que o interior fosse radicalmente transformado através de uma substituição de vida (não mais eu, mas Cristo), ele sabia que esta nova vida encontraria os meios próprios para se expressar, amar, reunir e evangelizar. Por outro lado, sem esta transformação interior, ele também sabia que todos os sistemas, métodos, fórmulas ou instituições seriam totalmente inúteis para adequar os homens para seus propósitos. Mesmo com sua presença em pessoa, como Deus em carne, ele não conseguiu mudar os doze que andaram constantemente com ele. Até o fim eram carnais, egoístas, covardes e ambiciosos. Nem mesmo Pedro era convertido ainda! (Lc 22.31.32).

Logo em seguida à tremenda revelação de Pedro que fez Jesus mencionar a igreja pela primeira vez, vemos surgir um dos maiores empecilhos para a verdadeira igreja aparecer. Quando Jesus começou a profetizar que o sistema religioso estabelecido o crucificaria, mas que ele ressuscitaria ao terceiro dia (Mt 16.21), Pedro começou a repreendê-lo, dizendo que Deus jamais permitiria que isto lhe acontecesse (Mt 16.22). Pedro não escutou nada sobre a ressurreição pois ficou bloqueado diante da perspectiva de sofrimento e morte, que todo o seu ser repudiava. E Jesus reagiu fortemente chamando Pedro de “Satanás” (Mt 16.23).

Veja como andam paralelos e muito próximos o espírito de revelação (“não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus”) e as ponderações da alma (“para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens”). Se o homem age na alma, sem direção de Deus, torna-se instrumento de Satanás. Satanás usa o homem que age com sentimentalidade, negando a verdade. É como os médicos que mentem para seus pacientes dizendo que não vão morrer, dando-lhes falsa esperança. Jesus fechou a porta para qualquer idéia humana e disse “não!” para a carne. Isso é a violência do reino (Mt 11.12).

A vida da alma que recusa aceitar a morte do eu é o maior empecilho para o reino de Deus. As duas coisas não podem conviver pacificamente. O cerne da vida cristã é morte (Mt 16.24). Logo depois de falar sobre edificar a igreja vitoriosa que desafiará as próprias portas do inferno, Jesus fala que se não negarmos a nós mesmos e tomarmos nossa cruz cada dia, não podemos ser seus discípulos. Cruz não é poesia, é morte. “Salvar sua vida” (Mt 16.25) significa colocar o “eu” em primeiro lugar, seus planos, sua vontade. “Perder sua vida” significa colocar Deus e os outros em primeiro lugar. As portas do inferno representam as entradas pelas quais os poderes das trevas entram neste mundo. Satanás entrou no mundo por várias portas – árvore do conhecimento do bem e do mal, psicologia, egoísmo, humanismo, paixões e carnalidade. Em resumo, através da vida natural do homem. A própria igreja durante a história tem aberto as maiores portas para Satanás entrar no mundo. A solução é a cruz que mata a vida da alma, a vida natural, fechando estas portas do inferno e abrindo a porta do céu, a comunicação do Espírito de Deus com o nosso espírito.

A cruz é nossa solução. Ser batizado em Jesus é ser batizado na sua morte (Rm 6.3). É sair do trono, desistir do egocentrismo e entronizar Jesus. Não é algo triste nem é adquirido por muito esforço humano. A palavra de Deus diz que o reino de Deus traz justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). A alegria que vem da cruz ninguém pode dar ou tirar. Um povo que conhece esta vida do reino no seu interior manifestará a verdadeira vida da igreja na terra.

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Sete Passos Para Minar a Comunidade e Isolar as Pessoas
Por: Howard Snyder

1 – Fragmente a vida familiar – Já que a família é a forma primária da comunidade humana, comece minando a família, atraindo seus membros em diferentes direções para entrar em mundos diferentes.

2 – Espalhe as pessoas – Faça com que se movam para longe das vizinhanças onde foram criadas. Não deixe-as morando perto de parentes e amigos, no meio de marcos conhecidos.

3 – Divida suas vidas no maior número possível de mundos diferentes.

4 – Mude as pessoas para mais e mais longe umas das outras, através de quintais sempre maiores, casas maiores, ou usando muros, cercas e apartamentos.

5 – Introduza a televisão em casa – este talvez seja o mais eficiente bloqueador de comunicação que o mundo moderno conhece.

6 – Use sempre o automóvel, permitindo que as pessoas se locomovam separadamente para lojas, escolas, empregos ou lugares de divertimento. Acrescente um segundo ou terceiro carro para acelerar o processo.

7 – Reduza o tamanho da família. Onde há uma ou nenhuma criança no lar nas circunstâncias descritas acima, a verdadeira vida comunitária se extingue.

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