A Essência do Ministério

Data de publicação: 23/05/2012
Categorias da Biblioteca:
Edição 71 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Solomon Intrater

O Ministério de Jesus

Dan Juster, que há muitos anos discipulou meu pai (Asher Intrater) começou recentemente a se reunir periodicamente comigo para estudarmos temas relacionados a ministério. Depois de lermos e discutirmos juntos alguns livros, e de conversarmos várias vezes sobre aspectos diferentes, UMA lição central ficou marcada: ministério é essencialmente a arte de discipular ou, em outras palavras, de treinar líderes.

Veja como Jesus agiu. Sua primeira linha de ação foi chamar vários indivíduos para fazer um estágio com ele. Foi nessas pessoas que ele investiu a maior parte de seu tempo e de sua energia. Ao ler os relatos dos quatro evangelhos, você observará que tudo o que Jesus fazia tinha esse enfoque. Mesmo quando se dirigia à multidão, ensinando sobre os valores fundamentais da Torá (como no famoso Sermão da Montanha), curando, pregando ou tocando em vidas individuais, em tudo ele estava, em primeiro lugar, treinando seus discípulos. Era esse o seu ministério.
Muitas vezes, quando se fala em ministério, existe uma tensão entre a prioridade que se deve dar a pessoas versus projetos. Para Jesus, as pessoas SÃO o projeto. Cada indivíduo é um projeto. Discipulado autêntico não é um programa nem uma fórmula, mas consiste em nomes de pessoas reais.

Jesus deu tudo o que tinha para os discípulos. Viveu com eles, mostrou-lhes sua sabedoria e poder. Enviou-os em duplas para experimentar o que haviam aprendido. Com o passar do tempo, compartilhou coisas mais profundas com eles, revelando seu coração sobre o Reino dos céus.
Até as tremendas ações messiânicas, como a cruz e a ressurreição, realizadas em favor de toda a humanidade, faziam parte desse mesmo propósito. Antes de morrer, Jesus falou com os discípulos sobre muitas coisas: disse que não eram mais servos, mas amigos, e que a maior prova de amor é quando alguém morre em favor de seus amigos. Em seguida, foi até a cruz e morreu diante deles a fim de testemunharem o verdadeiro significado do amor e o preço que é preciso pagar para vivê-lo.

Apesar de tudo o que ouviram, os discípulos ficaram arrasados. O mundo deles desmoronou; estavam como ovelhas entre lobos, sem pastor.
Contudo, no meio dessa escuridão, Jesus apareceu-lhes, ressurreto dentre os mortos, e transformou a derrota em vitória inabalável. Foi assim que aprenderam a enfrentar qualquer tipo de obstáculo com coração destemido, porque entenderam que nem a morte poderia vencê-los. Anos depois, mesmo sob tortura e violência brutal, os discípulos enfrentaram a morte com coragem, em favor do Evangelho e de seus amigos, assim como ocorrera com seu Mestre.

Discipulado como Sucessão

Deus é pai. Que pai pressionaria o filho para tornar-se alguém que não consegue ser? Bons pais inculcam seus valores e sua visão nos filhos, criando-os em paciência e amor, a fim de que amadureçam e cumpram sua própria vocação e identidade. É um processo individual, em que todos estão envolvidos, para alcançar o pleno potencial e a esfera de influência decorrente da identidade e do caráter singular de cada um.

Nem todos, porém, perseveram para chegar até o final. Que sejamos inspirados a buscar radicalmente tudo o que Deus nos chamou para alcançar! Que nunca nos contentemos com algo aquém disso… Esse é o verdadeiro alvo do discipulado. É ser mais e mais aquilo que você realmente é. Jesus nos ensinou a sermos humildes e a lançarmos fora todo o orgulho carnal, mas isso não exclui a busca de crescimento e realização de todo o nosso potencial.

Nosso relacionamento com os outros não é o mesmo que Jesus tinha com os discípulos. Não somos Jesus. Somos todos do mesmo nível, irmãos e irmãs, membros da família. Estamos no mesmo processo. Por isso, se acreditarmos no outro assim como o Pai acredita em nós, não ousaremos prejudicar ou humilhar um irmão. Que Deus me livre de ser uma pedra de tropeço para ele! Ao contrário, com paciência e amor, que eu saiba perseverar e encorajar. Que privilégio poder servir, auxiliar alguém a dar um passo positivo em seu processo de aprendizagem! Essa atitude de ver o outro com os olhos de Deus pode transformar nossa vida.

A natureza do discipulado é sucessão. Jesus investiu nos discípulos e depois saiu de cena. Moisés passou sua posição para Josué. Elias transferiu seu manto para Eliseu. Não fomos chamados para sermos egoístas, mas generosos.

Entretanto, passar seu legado para outra pessoa é difícil; especialmente quando você é pioneiro e criou algo do zero. Nesse caso, aquilo que você produziu fica inerentemente ligado ao seu caráter. Em outras palavras, passar um legado adiante não é só um desafio para seu orgulho ou desejo de controlar, mas é também uma transição complicada na prática. Cada tipo de tarefa ou obra ministerial tem características específicas que refletem a pessoa que a gerou. Além disso, estima e respeito não são transferíveis. Quando um líder ou pioneiro passa seu título e posição a um sucessor, o respeito e a autoridade conquistados por ele nem sempre o acompanharão. É difícil assumir o lugar de outra pessoa.

Como, então, devemos edificar? Como podemos fazer pontes entre as gerações? Organizações ou estruturas baseadas em alicerces fortes e sábios podem até ser duradouras. Entretanto, em qualquer momento, um sucessor pode desviar a instituição do seu propósito ainda que mantenha a estrutura. O verdadeiro legado encontra-se em valores, visão e relacionamento. Estes não poderão ser destruídos nas gerações futuras. A herança material do meu pai pode até ser objeto de discussões, pode ser usada incorretamente ou desperdiçada. Mas valores, visão e relacionamento não podem ser distorcidos. Eu sou o que sou, sei o que sei e mantenho o legado vivo dentro de mim, não por causa de uma determinada instituição, objeto ou projeto, mas porque foram implantados no coração e na mente.

É bom e necessário investir em instituições. Contudo, é mais importante investir num legado de valores, visão e relacionamento. Em tudo o que fizermos, seja com o título, a posição ou o projeto que for, será importante buscarmos relacionamentos focados em discipulado, nos quais possamos inspirar e encorajar os outros a serem aperfeiçoados em Cristo. E, quando você procura apoiar os outros sem qualquer intenção escondida, é bem provável que muitos se agreguem a você espontaneamente para cooperar e reconhecer sua liderança.

Pensamentos sobre desenvolvimento pessoal

• Não aceite sentir-se ofendido. A mágoa só serve para pesar e impedir seu progresso. Você é a pessoa mais prejudicada quando se abre para sentir mágoa.

• Nunca se rebele. O que você semeia, um dia colherá. Se você se rebela, outros se rebelarão contra você no futuro. Autoridade é concedida, não tomada.

• Procure corrigir os outros e não tenha receio de expressar discordância, mesmo com aqueles que estão em posição de autoridade, contanto que o faça com respeito. Se eles estiverem errados, e você estiver certo – e, mesmo assim, não quiserem aceitar correção –, cumpra seu compromisso ali e, depois, vá para outro lugar. Abençoe-os, não nutra sentimentos de mágoa, não fale mal deles para ninguém.

• Evite situações que impeçam seu processo de aprendizagem e desenvolvimento. Não quebre seus compromissos; seja fiel. Entretanto, se você estiver preso numa situação em que as pessoas que estão em posição de autoridade não lhe dão oportunidade para crescer, considere a possibilidade de ir para outro lugar, sem ofensa nem rebeldia. As pessoas em autoridade geralmente têm boas intenções, mas não sabem ou não têm habilidade para contribuir para seu crescimento espiritual.

• Procure sempre aprender, busque oportunidades para ganhar experiência, para estar ao lado de quem tem maturidade. Procure professores e aprenda com eles; busque conhecimento e experiência. Procure crescer. Busque alguém para discipulá-lo com paixão e diligência.

• Abra espaço para que aqueles que estão à sua volta possam crescer. Procure transmitir o que recebeu, ofereça posições de autoridade e liderança – até para quem tem menos qualificação do que você. Eles também precisam crescer. Ajude os outros a crescer! Acostume-se a abrir mão do desejo de controlar.

• Aprenda com os erros dos outros. Confiança é essencial, pois, sem ela, não podemos funcionar de modo adequado. Se você não tem confiança, faça o que for necessário, adquira conhecimento, habilidades, capacidade para criar e manter relacionamentos, a fim de obter a confiança necessária.

• Fomos escolhidos – para quê? Se formos fiéis, reinaremos com ele. Isso significa servir ao lado de Jesus para reinar e servir a uma sociedade redimida.

———————————————————————————————————————————

Quando Mudam as Gerações
Carolina Sotero

Falar de tempo não é algo fácil – muito menos de gente; que dirá gerações. O tempo é aquele enigma que a gente vive tentando entender e morre tentando explicar. É aquele andamento supervisionado das coisas – que parece estar sempre sendo controlado por Alguém –restando-nos como única proposta acompanhá-lo.

Ah! E esse tal de tempo nos prega cada surpresa. As pessoas bem que sabem disso, sofrem com o tempo porque ele sempre traz mudanças. Certamente, se esperarmos “um tempo”, ele chegará com transformações – e com companhia: as dores e os festejos.

E é exatamente nesse rasgo do relógio, quando o dia fala com a noite, que as gerações são trocadas. É quando o rosto do trabalhador já cansado pede uma rede para descansar. Querendo ver o resto da vida decorrer numa varandinha qualquer, o velho pai percebe que o filho “até que tem jeito pra coisa”.

Às vezes, o orgulho não deixa ver que o menino tem mais do que jeito; tem é disposição, tem vocação, tem energia. Mas o pai, depois de tantas lutas, é vencido pela humildade do amor e confessa, com sua saída, que o menino já é o dono desse tempo que vem chegando… Se é que já não chegou.