A espiritualidade que sobrevive nos laboratórios

Data de publicação: 01/05/2014
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Edição 77 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 77

CIÊNCIA & FÉ

Livro lançado recentemente no Brasil contesta o mito ‘ciência versus fé’ e apresenta uma série de testemunhos de cientistas cristãos

Por Carolina Sotero Bazzo

Nos últimos séculos, o debate entre cientistas e teólogos tem esquentado cada vez mais. Enquanto um lado defende calorosamente a supremacia da exatidão científica na vida moderna, o outro tenta provar o lugar da espiritualidade e das verdades bíblicas em todas as áreas da vida. Cada vez mais, a ciência e a fé parecem ser áreas que jamais conseguirão andar juntas. Foi justamente para quebrar esse paradigma que o Instituto Faraday para Ciência e Religião entrou em cena e produziu, alguns anos atrás na Inglaterra, o livro O Teste da Fé – os cientistas também creem, lançado recentemente no Brasil pela Editora Ultimato.

A obra, uma coletânea de testemunhos sobre a conversão e espiritualidade de cientistas cristãos, trouxe para nós a boa notícia de que há uma classe de grandes cientistas que, além de não negar a fé, é portadora de uma incrível espiritualidade capaz de sobreviver nos laboratórios. Enquanto o mundo acadêmico, em grande parte, tenta passar a ideia de que a fé cristã vem sendo sufocada e desmentida pelo avanço da ciência moderna, Ruth Bancewicz, autora e organizadora do livro, contesta esse mito com pesquisas concretas.

Em 1916, uma pesquisa nos Estados Unidos verificou que apenas 42% dos cientistas e acadêmicos seniores acreditavam num Deus que responde à oração. Na época, fizeram o prognóstico de que esse percentual estava numa espiral descendente e que aos poucos se reduziria praticamente a zero, já que a Ciência estava “matando Deus”.

Não foi o que aconteceu. Passados 81 anos, em 1997, uma nova pesquisa revelou que 39% dos cientistas ainda acreditavam num Deus que responde à oração. Segundo Ruth, isso mostra que a religião não precisa ser inimiga da ciência nem afetar suas pesquisas, já que se pode encontrar nos laboratórios tanto cientistas ateus quanto cristãos, muçulmanos, hindus e judeus. Todos utilizam os mesmos métodos experimentais e chegam aos mesmos resultados. Ou seja, assim como, no passado, muitos cristãos foram pioneiros no avanço da Ciência (como o renomado Isaac Newton), hoje isso continua sendo plenamente possível.

Exemplo disso é Francis Collins. Ex-diretor do projeto Genoma Humano, Collins é um cientista que crê num Deus pessoal que responde a orações, ao mesmo tempo em que é considerado um gigante no campo da Ciência. Sua história é particularmente interessante.

Nascido em uma família sem muita ligação com a religião ou o cristianismo, por influência de um professor foi conduzido para estudar química na Universidade. Ao mesmo tempo, em parte pela conveniência de não ter de prestar contas de seus atos, foi tornando-se agnóstico. Depois de completar a faculdade, começou a mudar de área, indo para bioquímica, biologia molecular (ramo que despertou seu interesse pelo DNA) e, finalmente, medicina.

Foi quando trocou os estudos laboratoriais pela experiência de treinamento nos hospitais com pessoas reais, afetadas por doenças graves, que ele foi pressionado para fora de sua zona de conforto. De repente, ele, que nunca tinha parado para pensar muito a respeito da morte, estava lidando com pessoas que sofriam e morriam o tempo todo.

Collins relembra, especialmente, a experiência que teve com uma paciente, uma senhora de idade, que sofria havia anos com grave doença no coração. Enquanto a acompanhava, em meio a dores e desconfortos, ela compartilhou com ele sua experiência com Deus e como sua fé a ajudava a passar por tudo isso. Em seguida, de forma bem direta, ela o confrontou: “Em que você acredita, doutor?”.

Sem ter o que dizer, ficou perturbado. Precisou admitir que ele, um cientista, havia concluído que Deus não existia sem nunca, na realidade, ter investigado o assunto de forma mais profunda.

Sua conversão aconteceu, de fato, após três experiências marcantes. A primeira foi essa de encontrar uma cristã simples, com uma fé viva e cheia de beleza, testemunhando com alegria mesmo em meio ao sofrimento. A segunda foi a leitura do livro Cristianismo Puro e Simples (aliás, ponto de partida da jornada espiritual de muitos outros cientistas e acadêmicos), que lhe deu a conclusão de que o cristianismo era perfeitamente racional. E, por fim, a terceira experiência foi diante da natureza, quando foi encurralado pela evidência da beleza na criação e pela necessidade de existir alguém por trás de tudo. Foi então que sentiu que precisava tomar uma decisão.

Depois da conversão, Collins entendeu que seu amor pela ciência e pela complexidade do corpo humano era na verdade uma forma de Deus comunicar-se com ele.

Algo semelhante pode ser visto na vida de Bill Newsome. O professor de neurobiologia da Escola de Medicina da Universidade de Stanford também fala como ingressou no estudo da neurociência por encontrar nela a união de seus maiores interesses. Apaixonado pelo que faz, ele considera a investigação científica uma forma de louvar a Deus, não uma prática que o distancie dele. Nascido em família cristã e criado num ambiente de incentivo ao estudo, ainda assim, Bill enfrentou, na adolescência, dúvidas quanto à sua fé que aumentaram ainda mais ao ingressar na universidade.

No caso dele, um ponto importante que colaborou para sua conversão e convicções atuais foi ter conhecido professores cristãos que falavam sobre ciência e fé de maneira profunda e conciliatória. “Não tive professores de religião que rejeitassem a ciência nem professores de ciência que rejeitassem a religião; pelo contrário, tive professores que me ajudaram a explorar a questão por mim mesmo, o que foi muito importante para mim”, declara.

Ao falar de sua trajetória, Alasdair Coles, professor sênior de neuroimunologia clínica na Universidade Cambridge, diz sempre se surpreender quando vê alguém falando de conflito entre ciência e fé. Hoje, sua fé convive perfeitamente com sua profissão, embora antes de ter-se tornado cristão tenha sido defensor da filosofia do livro O Gene Egoísta, de Richard Dawkins (que afirma que os nossos genes, ou DNA, é que determinam o nosso destino, e que a fé é apenas um subproduto da evolução e, agora, totalmente desnecessária).

Mas, assim como Francis Collins foi surpreendido pelo testemunho de sua paciente cristã e Bill Newsome foi ajudado por seus professores cristãos, Coles encontrou na universidade estudantes cristãos que foram impressionantes sob muitos aspectos. Foi o que chamou a sua atenção e o fez considerar sua posição negativa em relação ao cristianismo.

Atualmente, Coles vê perigo na visão de muitos líderes de igrejas que só valorizam o ambiente eclesiástico e não sabem lidar com pessoas que atuem em outras áreas da sociedade, como a científica, por exemplo. Para ele, que admiravelmente além de cientista é também pároco da Igreja de St. Andrews, em Cambridge, a espiritualidade cristã é algo totalmente possível de ser vivida fora do ambiente da igreja. Mesmo confessando haver poucos cristãos em seu ambiente de trabalho, Coles encontrou um colega com quem se reúne, há algum tempo, uma vez por semana para ler a Bíblia e orar no hospital. Depois, resolveram abrir para incluir qualquer cristão interessado. Hoje, 15 pessoas se reúnem semanalmente para orar pelo hospital, pelos pacientes e umas pelas outras.

Talvez, quem veja a capa do livro O Teste da Fé possa pensar que se trata de uma obra apologética cansativa e argumentativa. Longe disso, o livro é de uma leitura leve e inspiradora. Seu título tem o objetivo de mostrar como diversos cientistas, que essencialmente lidam com testes e provas, decidiram testar a fé e entregar-se ao cristianismo. Qualquer leitor, até mesmo sem base teológica e científica, poderá entendê-lo e terá o privilégio de imergir, não no ambiente quase inacessível da ciência moderna, mas dentro do coração dos atuais cientistas modernos que, de modo genuíno e sobrenatural, tornaram-se cristãos.

CRISTÃOS EVOLUCIONISTAS?
Por acreditar haver poucos recursos sobre ciência e fé disponíveis ao público cristão leigo, o Instituto Faraday decidiu não apenas lançar um livro. Foi lançado também um ousado documentário que pretende ir além dos inspiradores testemunhos dos cientistas entrevistados. Ao comprar O Teste da Fé, o leitor adquire gratuitamente o DVD com o documentário, que inclusive foi um dos vencedores do prêmio de melhor documentário do ano pela International Visual Communications Association (Associação Internacional de Comunicação Visual) na Europa, em 2009.

Indo além dos relatos, o vídeo revela partes das entrevistas que não foram publicadas no livro, em que cientistas cristãos declaram-se evolucionistas. Diferente da obra escrita, sua ênfase não é apenas a conversão ou a espiritualidade de cristãos que atuam no ramo científico, mas como eles fazem, na prática, para relacionar cristianismo e ciência.

Embora esta não seja uma posição geral de todos os cientistas relatados na obra, nem uma posição oficial do Instituto Faraday (existe uma abertura para vários tipos de opiniões e linhas de posicionamento), fica claro que já existe um grupo de cientistas – e também teólogos – que consegue conciliar evolução biológica e cristianismo bíblico. Isso é um tanto assustador, especialmente para cristãos que há anos procuram combater o pensamento evolucionista como um dos maiores inimigos nos tempos modernos.

No vídeo, o que mais se sobressai, obviamente, é o olhar lançado sobre o capítulo 1 do livro de Gênesis. Quando falamos de evolucionismo, pensamos imediatamente na teoria científica que se mostra, a priori, totalmente contrária ao relato bíblico da criação do mundo por Deus em seis dias. Enquanto evolucionistas datam bilhões de anos para a origem do universo, do planeta Terra e de todas as formas de vida aqui encontradas, a Bíblia afirma que em apenas seis dias Deus fez tudo. Aparentemente, ou você acredita numa posição ou na outra. Parece impossível acreditar nas duas ao mesmo tempo.

Entretanto, os cristãos que adotam a posição de “criacionismo evolucionário”, o segredo está na interpretação de Gênesis 1. Para eles, a Bíblia não foi escrita como um livro científico, logo não deveria ser interpretada como se fosse um relato literal de fatos registrados de acordo com critérios precisos. Isso não quer dizer que as histórias narradas em Gênesis ou outros livros da Bíblia não sejam verdadeiras – apenas que alguns textos, especialmente Gênesis 1, seria mais uma metáfora do que um registro exato de fatos.

Das muitas possibilidades, questionamentos e afirmativas apresentadas no documentário, muitas inclusive sem argumentos totalmente claros ou convincentes, algo particularmente interessante é sua crítica a um costume praticado por diversos cristãos em defesa da fé diante da ciência. Tudo aquilo que a ciência não consegue explicar é automaticamente atribuído a Deus, sendo usado, inclusive, para justificar ou provar a existência de Deus. Essa prática é chamada de “O Deus das lacunas”, e precisa ser revista como um método falho de defesa da fé. Isto porque, daqui a alguns anos, caso a ciência venha a explicar metodologicamente algum processo que ainda seja misterioso para nós, o “deus” que foi colocado naquela lacuna poderia ruir. Assim, a nossa fé estaria sempre recuando diante de novas ameaças.

Ainda que o assunto demande mais tempo de estudo, reflexão e debate, é importante observar que fazem parte deste grupo de pensadores cientistas, teólogos, pastores e autores de peso tais como: Alister McGrath, doutor em biofísica molecular, professor de teologia histórica de Oxford e um dos autores cristãos mais lidos atualmente; William Lane Craig, doutor em filosofia e teologia e autor de diversas obras de apologética publicadas no Brasil; e John Stott, famoso teólogo e pastor inglês.

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