A Direção do Espírito

Data de publicação: 23/08/2011
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Edição 44 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 44

Por Andrew Murray

“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Muitos cristãos pensam que a direção do Espírito consiste principalmente de uma sugestão de pensamentos para orientá-los. No caso de questões duvidosas a respeito de opinião ou dever, na escolha de mensagens ou temas das Escrituras ou na direção clara quanto à realização de um trabalho na obra do Senhor, gostariam muito de ter uma indicação do Espírito sobre o que deveriam escolher. Anseiam, suplicam por isso – porém, em vão. Quando, por vezes, acham que já receberam, não sentem a segurança, o conforto ou o sucesso que, na sua opinião, seriam os selos de algo que realmente viesse do Espírito. E, dessa forma, a preciosa verdade da direção do Espírito, ao invés de pôr fim a toda controvérsia, de ser a solução de toda dificuldade, uma fonte de conforto e força, torna-se, ela própria, uma causa de perplexidade e a maior dificuldade de todas.

Direção e Santificação

O erro vem de não aceitar a verdade que o ensinamento e a direção do Espírito são transmitidos primeiro pela Vida e não pela mente. A Vida é despertada e fortalecida, e depois se torna Luz. À medida que a conformidade a este mundo e ao seu espírito é crucificada, negando deliberadamente a vida natural e a vontade da carne, somos renovados no espírito da nossa mente, de forma que a mente é habilitada a provar e a conhecer a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).

Essa ligação entre a obra prática de santificação pelo Espírito e a direção do Espírito fica muito clara no contexto da passagem citada no início deste artigo. O versículo anterior (v. 13) diz: “Se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis”. Só depois dessa afirmação é que vem o texto: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”.

Em outras palavras, todos aqueles que permitem que sejam guiados pelo Espírito nessa mortificação dos feitos do corpo, esses são filhos de Deus. O Espírito Santo é o Espírito da vida santa que estava e que está em Cristo Jesus e que opera em nós como uma fonte divina de vida e poder. Ele é o Espírito de santidade e somente nessa qualidade é que nos guiará. Ser guiado pelo Espírito implica, antes de tudo, entregar-se à sua obra de convencer do pecado e de purificar alma e corpo como templo para sua habitação. Como conseqüência de habitar no nosso interior, enchendo e governando nosso coração e vida, é que o Espírito nos ilumina e guia.

“Que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual.” É de suma importância compreender que somente a mente espiritual poderá discernir coisas espirituais e receber direção do Espírito. A mente precisa crescer espiritualmente para ser capaz de receber orientações do Espírito. Paulo disse aos coríntios que, embora nascidos de novo, eram ainda carnais, como bebês em Cristo, e, por essa razão, não podiam receber verdades espirituais. Se isso é verdade com respeito a ensinamentos que são transmitidos pelo homem, quanto mais no que se refere ao ensinamento que vem diretamente do Espírito, que procura nos conduzir a toda a verdade!

Quando o Espírito vem habitar em nós, ele fixa sua residência, não na região dos pensamentos ou sentimentos, mas lá nas profundidades, no lugar em que se encontra a própria vida, no laboratório escondido do interior, de onde procede a fonte que é capaz de moldar a vontade e o caráter. É ali que ele respira, move e impele. Sua direção é resultado da sua atuação e da disposição sobrenatural que nos leva a adotar decisões e propósitos certos.

Direção implica o seguir. É fácil entendermos que desfrutar da direção do Espírito requer uma mente muito tratável e aberta às suas ordens. O Espírito não só é impedido pela carne como o poder que comete pecado, mas ainda mais pela carne como o poder que tenta servir a Deus. Para poder discernir o ensinamento do Espírito, a Escritura nos mostra que o ouvido precisa ser circuncidado, numa circuncisão não feita com mãos humanas, no despojar do corpo da carne. A vontade e a sabedoria da carne precisam ser temidas, crucificadas e negadas. O ouvido precisa se fechar a tudo que a carne e sua sabedoria tentem nos dizer, quer seja através de nós mesmos, quer seja através das pessoas ao nosso redor.

Direção e Fé

A direção do Espírito é essencialmente uma questão de fé, e isso de duas maneiras. Em primeiro lugar, aprendendo em santo temor a cultivar e a agir na confiança de que o Espírito Santo está em mim e está fazendo a sua obra. A habitação do Espírito em nosso interior é a consumação da obra divina da redenção; é o aspecto mais avançado e misterioso do mistério da piedade. Aqui, mais do que em qualquer outra área, é preciso ter fé.

Fé é a faculdade da alma que reconhece o invisível e o divino; que recebe a impressão da presença divina quando Deus se aproxima; que, em sua limitada capacidade, aceita o que a divindade traz e nos comunica. No Espírito Santo, está a comunicação mais íntima da Vida Divina; e o papel da fé não é julgar pelo que sente ou compreende, mas simplesmente se submeter a Deus para permitir que ele realize o que disse que faria.

Em segundo lugar, depois dessa fé mais geral na habitação interior do Espírito, a fé precisa ser exercida em relação a cada aspecto da direção. Quando coloco uma questão diante do Senhor, e minha alma em simplicidade e esvaziamento espera por sua resposta, preciso em fé confiar no meu Deus que sua direção não me será negada.

A direção normal, cotidiana que o Espírito nos dá não deve ser esperada através de fortes impressões ou impulsos repentinos, em vozes do céu ou em intervenções surpreendentes. Em certas ocasiões e a certas pessoas, indiscutivelmente, tais respostas sobrenaturais têm acontecido. Mas isso depende do próprio Deus e do crescimento da nossa capacidade espiritual.

Os degraus mais baixos da escada, porém, foram colocados ao alcance dos mais fracos na fé. O intento de Deus é que cada filho seu seja guiado pelo Espírito todos os dias. Comece seguindo a direção do Espírito por meio da fé, crendo não somente que ele está dentro de você, mas que está pronto neste instante a se encarregar da obra ou da situação que o preocupa. Você pode pedir a sua ajuda e confiar nele, mesmo que até agora tenha recorrido poucas vezes à sua direção. Entregue-se a Deus, sem dúvidas ou reservas; creia com confiança implícita que Deus aceita a sua entrega e que isso significa que o Espírito Santo passará a tomar conta da sua vida.

Proteção Contra o Engano

Entretanto, será que não estamos em perigo de nos desviarmos pelas imaginações do nosso próprio coração, achando que estamos sendo guiados pelo Espírito quando, de fato, é nossa carne que está nos enganando? E se for esse o caso, onde está nossa proteção contra tais erros?

A resposta que normalmente se dá a essa pergunta é: A Palavra de Deus. No entanto, essa resposta contém apenas metade da verdade. Multidões têm usado a Palavra de Deus, interpretada pela razão humana ou pela Igreja, para se protegerem contra o perigo do fanatismo, e no fim têm errado tanto quanto aqueles que estavam combatendo.

A proteção verdadeira é: a Palavra de Deus conforme ensinada pelo Espírito de Deus. É na perfeita harmonia dos dois que se encontra nossa segurança. Lembremos que, da mesma forma que toda a Palavra de Deus foi dada pelo Espírito de Deus, cada palavra precisa ser interpretada para nós pelo mesmo Espírito. Essa interpretação só poderá vir do Espírito que habita em nosso interior, pois é só o homem espiritual, governado pelo Espírito Santo, que pode discernir o significado espiritual da palavra. Por outro lado, assim como toda palavra foi dada pelo Espírito, sua grande obra é honrar essa Palavra e desvendar a plenitude da verdade divina entesourada ali. Nossa certeza de segurança não vem do Espírito sem a Palavra (ou com pouca ação da Palavra); também não vem da Palavra sem o Espírito (ou com pouca ação do Espírito); vem da Palavra e o Espírito, habitando ricamente em nós. É através de entregarmo-nos a ambos, em obediência implícita, que estaremos seguros no caminho da direção do Espírito.

Isso nos leva de volta à união inseparável entre a direção do Espírito e a santificação do Espírito. Cada pessoa que quiser ser guiada pelo Espírito deve começar entregando-se à direção da Palavra, em tudo que tiver conhecimento. “Se alguém quiser fazer… conhecerá…”, disse Jesus (Jo 7.17). “Guarde meus mandamentos e o Pai lhe enviará o Espírito” (veja Jo 14.21,23).

Livre-se de todos os pecados. Renda-se, em tudo, à voz da consciência. Renda-se, em tudo, a Deus e permita que ele faça segundo a sua soberana vontade. Através do Espírito, mortifique as obras da carne (Rm 8.13). Como filho de Deus, coloque-se à inteira disposição do Espírito, para seguir aonde quer que ele o guie (Rm 8.14).

E o próprio Espírito, este mesmo Espírito através de quem seu pecado está sendo mortificando e a quem você está se entregando para ser guiado como filho, dará testemunho ao seu espírito, numa alegria e num poder até então jamais conhecidos, de que você é de fato um filho de Deus, com direito a todos os privilégios que um filho recebe do Pai, tais como seu amor e sua direção clara e segura.

Extraído de “The Spirit of Christ” (O Espírito de Cristo), Andrew Murray.

Andrew Murray, 1828-1917, natural da África do Sul, ministro da Igreja Reformada, missionário e autor.

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