A Casa Dos Órfãos

Data de publicação: 11/09/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 38 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 38

Por Eliasaf de Assis

Na abafada sala de aula onde trabalhei como fiscal de prova no último vestibular, dos 45 candidatos presentes, um jovem me chamou atenção. Suas roupas sujas estavam estampadas com símbolos de rock. O cabelo estava despenteado, ou talvez estivesse penteado de forma assimétrica. A partir do cheiro que ele exalava, um legista poderia estimar a hora do último banho, ocorrido umas 48 horas antes. Suas unhas estavam sujas, e ele interrompeu a prova várias vezes para fumar.

Eu tracei rapidamente um perfil sociológico, estudantil e familiar desse rapaz. Ele não tinha concentração, havia pouca expectativa de vê-lo na segunda fase. Sua documentação revelava que ele residia em um bairro nobre, portanto, apesar do aspecto deplorável, é provável que sua família fosse financeiramente bem estabelecida.

Ele pediu água, e eu lhe ofereci um copo de água mineral que tinha sobre a mesa. Admirou-me, então, seu olhar desorientado, sua fisionomia assustadiça e solitária. Vi-me a mim mesmo como era há 20 anos, com todos os atributos que notei nele, inclusive a falta de higiene.

Julgo que esse rapaz, como também eu quando me converti, servimos para registro do quadro que encontraremos ao anunciar a mensagem de Jesus às pessoas de hoje.

Embora meus pais tivessem boas condições econômicas durante minha adolescência, eles eram vítimas de lares desajustados. Não puderam me ensinar muito e também não estavam preparados para enfrentar a rebeldia de um jovem em ebulição como eu fui. Nos seriados de TV, como “Os Pioneiros”, ou nas reprises de “Papai Sabe Tudo”, eu fantasiava com a idéia de pertencer à família ideal, onde o pai ensina o rapaz a ser um homem forte e capaz e a mãe emana afeto e aconchego. Aos 14 anos, preparei uma carta, enfiei no bolso e ingeri uma superdose de calmantes, que reguei depois com um copo de vinho para acelerar o processo e não ver a morte chegar. Após desmaiar, fui socorrido às pressas e, quando acordei horas depois no hospital, garanti às enfermeiras que tentaria de novo. O médico que atendeu minha mãe assegurou-lhe que eu deveria ser internado em um sanatório, o que ela se negou a fazer.

De madrugada, deixamos o hospital, e minha mente já divagava sobre como eu agiria: se me lançaria em uma rodovia ou onde conseguiria uma arma, quando uma família vizinha que soube do assunto nos encontrou, na porta do hospital. Minha gratidão com essa família será eterna, pois deixaram sua casa de madrugada por alguém que pouco conheciam e me deram o maior tesouro de minha vida: o Evangelho. Quando Cristo me encontrou, eu era um suicida fracassado e um office boy desempregado. Eu deveria estar morto, mas ele me deu 20 anos extras. Haja o que houver, estou no lucro. Mas a história de minha redenção não acaba por aí.

Estruturas de Hábitos

Minha experiência pessoal com Jesus foi importante, porque foi também o start de um processo longo de reeducação. Ela iniciou um longo treinamento, orientado pelo Espírito Santo e ambientado na vida em comunidade, o que aboliu uma estrutura de hábitos que me escravizava e me educou sobre minha nova cidadania. Em outras palavras, tive um encontro a longo prazo com Jesus na vida familiar da igreja.

Os primeiros anos da existência de qualquer pessoa gravarão perpetuamente, em seu comportamento, hábitos duradouros, bons e maus. Ouvi a história de um mendigo que enriqueceu e tornou-se um grande especulador em Wall Street. Embora fosse milionário, algumas manhãs seu motorista ia buscá-lo, de limusine, em um beco sujo e fétido, onde ele às vezes dormia, preso nostalgicamente a hábitos mais fortes que ele. Em comparação, podemos enriquecer através do toque salvador de Cristo, mas continuar acorrentados a um caráter malformado, vícios ou atitudes incompatíveis com a fé cristã.

Eu que era pobre fiquei rico, quando me vi na família de Deus. Ali meus hábitos antigos foram corrigidos, e aprendi a me portar como devia. Aliás, ainda estou aprendendo, quando irmãos mais velhos me corrigem e assistem. Mas também estou ensinando alguns novatos, embora possa dizer que aprendo mais com eles do que eles comigo. Na igreja, encontrei orientações amorosas, por vezes severas, sobre trabalho, responsabilidade, pontualidade e mesmo higiene pessoal. Lembro-me com ternura que estava hospedado na casa de um casal da igreja, e o chefe da família levou-me em frente ao espelho do banheiro e ensinou-me paternalmente como eu deveria me barbear. Essa memória é tão marcante para mim como foram as reuniões cheias de unção das quais participei. Na vida da Igreja, o ordinário toma contornos extraordinários se vivemos como família.

Salmo Pedagógico:
Cantado Pelo Solitário Que Encontrou Família

Nossa concepção de vida cristã valoriza pouco o encontrar com Deus na comunidade. A igreja é lugar onde Deus nos encontra para nos educar para o seu reino; como em uma escola, deve haver ordem, mas nunca haverá aquela tranqüilidade monótona de um prédio escolar vazio. Ter filhos é padecer no paraíso. Viver em comunidade dói, pois os pré-requisitos da vida familiar são implacáveis com o ego, seu maior obstáculo. Viver a vida familiar na igreja não é, portanto, um estilo de vida romântico.

Haverá dor, contrariedade e embate de vontades. Alguns relacionamentos em conflito podem ter de aguardar anos até encontrarem a definitiva solução. No duro caminho, desenvolverei musculatura espiritual, aprendendo a amar e ser amado, a perdoar e a ser perdoado. Valores permanentes são desenvolvidos a longo prazo.

Evitemos o desprezo e também a idealização da vida em comunidade. Em um mundo onde a comunidade (isto é, grupos pequenos, com um contingente visível e identificável) tem dado lugar ao individualismo e à massificação, a igreja de Jesus não pode conformar-se a ser miniaturizada em um ponto de encontro para adoração. Também não pode tornar-se uma expressão lúdica, divertida, de entretenimento grupal religioso.

O Corpo de Cristo e Cristo em seu Corpo são a solução perfeita para os que não tiveram família. Instituições humanas, sejam religiosas, escolares ou políticas, quando têm sucesso, utilizaram algum princípio que a visão judaico-cristã preservou: importar-se, amar e tutelar.

Preocupados com a formação do novo homem comunista, os soviéticos designaram Makarenko, o pedagogo, para educar os garotos órfãos da revolução. Ele ficou tão entusiasmado por transformar pequenos ladrões em generais que escreveu o Poema Pedagógico, testemunho da educação comunista para crianças abandonadas e delinqüentes. Mas o verdadeiro homem novo só pode ser gerado pelo poder do evangelho. Eu e uma infinidade de pessoas sem famílias presentes, que fomos alcançados por Cristo e pelo Corpo de Cristo, compomos, caractere a caractere, o Salmo Pedagógico, a história de como o amor de Deus nos encontrou no monturo de lixo relativista e individualista de nossa época e nos fez assentar com os príncipes de seu povo.

Oh Jesus, como eu te admiro! Tu és tudo pra mim: Senhor, Tutor e amigo, e posso ver-te com nitidez no rosto do irmão que me orienta e educa, talhando em mim o teu retrato. Teus braços amorosos me alcançaram, na forma dos braços de preciosos irmãos que estenderam suas mãos em meu socorro. Te agradeço porque houve gente que se importou a ponto de me confrontar.

A Vitória da Imprevisibilidade

Nossa sociedade pós-cristã1 tem ares dickensianos. A mãe de “Oliver Twist” morreu quando ele nasceu, mas sua memória imantou o filho com pureza por muitos anos. Em nossa época a orfandade e o abandono familiar assumiram contornos mais sutis, embora dramáticos. Em sua quase maioria, a população de adolescentes e jovens adultos que evangelizaremos daqui para frente não teve quem lhes ensinasse algo de valor permanente. Em nossa realidade, a mãe de “Oliver”, isto é, o ideal de pureza ou qualquer padrão moral fora de si mesmo estão esquecidos e são evitados.

Uma visão enche a minha imaginação. São jovens, rapazes e moças, vagando desorientados como os retirantes modernos que desembarcam nos grandes terminais rodoviários. Suas tatuagens e seus cabelos são, em alguns casos, não menos que espetaculares. Piercings espetam seus corpos por todos os lados, seus rostos juvenis alternam rebeldia e carência. Alguns estão envolvidos com práticas homossexuais, a maioria é filho de pais separados, e alguns já casaram, juntaram ou estão divorciados.

Para a maior parte, as orientações sobre castidade e pureza chegarão tarde demais. Há mães e pais solteiros entre eles, e a linguagem torpe e suja que usam cotidianamente deixaria qualquer caminhoneiro boca-suja envergonhado. Há muitas feridas, muitas cadeias de hábitos contrários à vida sadia com Deus.

São discípulos da MTV. Sua faixa etária abrange desde crianças a jovens adultos. Pertencem a várias categorias socioeconômicas e já nasceram com a sensação moral de gravidade zero. Sem valores absolutos, no vácuo do relativismo radical da sociedade em que vivemos, são como os astronautas que vemos vagando no espaço nos filmes de sci-fi2; não há um cabo que os traga de volta para casa.

Mas não se iluda pelas aparências. Há também aqueles com aparência normal, que já são ou já foram membros de alguma igreja. Contudo, seu mundo interior está em sintonia com esta era. Seja qual for a razão, eles têm a falsa impressão que o evangelho não funciona ou que sua prática está restrita aos templos, ao happy-hour religioso. Não tiveram tutores, precisam da igreja que também é a Casa dos Órfãos.

Deus, em sua soberania, nos equiparará com o cabo de salvação para lançarmos aos perdidos. É o que ele tem feito em todas as crises anteriores na história da igreja. Precisamos de sua estratégia celestial. Já estamos avançando, e uma grande dica é que o coração desta geração é o coração de uma criança abandonada.

Se você já orou pela salvação dos perdidos e por uma grande colheita no evangelho, a boa notícia é que esta multidão desajustada invadirá a igreja. É uma visão profética, mas também uma certeza estatística. Afinal, não resta muita gente comportada, pelos nossos padrões, para se evangelizar. Talvez não seja como você imaginou, pois evangelizá-los e ensiná-los é tão pouco romântico quanto lavar os pés enlameados de quem já andou por muitas valetas.

A aposta do diabo é que não seremos capazes de assimilar uma multidão tão disforme, tão heterogênea e culturalmente tão diferente de nós. Ele nos vê engessados pelo evangelicalismo, respondendo a questões que o mundo não faz. Acha que a visão desta multidão nos causa repulsa, e humanamente causaria. Mas eu pergunto: sente o amor de Deus pulsar em você por esta multidão perdida? Minha pergunta não é retórica. O Espírito de Adoção deseja nos fazer pais e mães de muitos filhos.

O Corpo de Cristo estenderá amorosamente seus braços. Um novo evangelismo será praticado e as potestades serão surpreendidas, pois a fórmula do amor não pode ser equacionada pelos estrategistas do inferno. É nossa arma secreta e, tal qual o cavalo no xadrez, seus lances não podem ser previstos por nossos oponentes. Quem diria, no final ganharemos a batalha das batalhas com algo tão pouco belicoso como a família…

Procuremos os “Olivers Twist” contemporâneos, moral e espiritualmente ainda mais desvalidos que o “Oliver” original. Órfãos de pais vivos, como disse alguém, carecem de amor, paciência, repreensão, disciplina e orientações básicas sobre relacionamentos pessoais, profissão, espiritualidade, família, sexualidade e mesmo higiene. São trabalhosos, reincidirão em pecados passados muitas vezes e, em alguns casos, provarão nossa paciência, demorando muito a aprender. Jesus nos convoca para esta luta prolongada. E aí, quem vai encarar?

Uma resposta para “A Casa Dos Órfãos”

  1. Gesivane disse:

    Muito boa matéria!

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