Última Palavra-A Angustiante Insatisfação de Ser Comum

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 60 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 60

Por Clésio Pena

Existe um grande número de evangélicos que participaram de alguns movimentos espirituais genuínos no final da década de 70 e início dos anos 80. Naquela ocasião, havia um número considerável de grupos espalhados pelo Brasil que tinham uma seriedade muito intensa com o Senhor. Jovens entregavam-se por completo a Jesus. Parece que era um Jesus diferente do de hoje. Era o Senhor, o Todo, o Dono, Absoluto, Completo.

Na época, tínhamos certeza de que, num futuro próximo, o reino de Deus estaria bem ali, à nossa frente, palpável. Tínhamos convicção de que nossa vida não seria comum. Seríamos adultos diferentes, completamente entregues nas mãos do Senhor. O fluir do Espírito Santo seria transbordante tal qual as cataratas do Iguaçu. Éramos apaixonados por Deus de uma forma contagiosa. Nosso alvo de vida era viver na esperança de que Deus cumprisse sua obra. E a vontade de estar junto na edificação dessa obra tomava-nos por completo.

Sentíamos que algo sobrenatural estava prestes a acontecer e que seríamos, de alguma forma, incluídos nesse mover. A expectativa aumentava a cada encontro, a cada derramar do Espírito. E, por algum tempo, nossa participação naquele “fenômeno espiritual” ajudou outros irmãos que também estavam desabrochando no Senhor.

E o tempo, ah o tempo! Não olhávamos pela janela do trem (tempo) enquanto este viajava, soltava fumaça, mas não tocava aquele ‘piuí, piuí’, andando entre as pastagens silenciosamente. Então, já se passaram 20, 30 anos. Olhamos para trás e não acreditamos que aquela obra ainda não aconteceu. As cataratas (espirituais) não estão se derramando. E o pior, onde estamos dentro do mover? Qual é nossa participação? O que temos feito? Onde está aquele reino de Deus que parecia bem próximo, logo à nossa frente?

Uma angústia tremenda toma nosso coração (pelo menos, o meu) só em pensar que estamos fora do maior evento que está por vir. Qual é nosso papel, nossa função? Eu não poderei dar mais nada? Foi só aquilo mesmo de 30 anos atrás?

Minha vida parece tão comum. Não tenho realizado nada. Isso me consome a cada dia. Sou mais um dentre esses 6 bilhões de pessoas no planeta! Onde está minha tarefa no reino? Aquele plano no qual estaríamos inclusos e que mudaria a História? Meu Jesus, onde o Senhor se escondeu? O tempo não pára, e ainda não realizei, não vi o fenômeno acontecer. Minha vida tem sido em vão?

Esse grito desesperador de pessoas que tocaram na orla de Jesus alguns anos atrás tem aumentado. Encontramos pessoas que têm a mesma angústia interior, que desejam fazer diferença em sua geração, mas, por outro lado, se sentem deslocadas.

Na verdade, o sentimento é que fomos deixados de lado. Não fomos achados qualificados; por isso, nossa vida é tão comum. O sal está insípido. É um choro que queima, arde e não tem remédio. Não adianta participarmos de alguns eventos evangélicos. Queremos mais, muito mais. Vimos um trailer do filme que está por vir. Sentimos a brisa das cataratas. Não nos contentaremos com gotas. Queremos um fluir sobrenatural, um dilúvio espiritual.

Essa dor de sentir-se de fora, abandonado, ultrapassado, parece que piora quando vemos tantas propagandas de evangélicos mostrando o sucesso espiritual, as realizações, o crescimento. É triste dizer que muitos desses irmãos, que fazem parte do mesmo corpo de Cristo que nós, outrora tinham uma paixão por Jesus, tinham algo interior, uma mensagem real; hoje, embora tenham excelentes canais para comunicá-la (livros, rádio, TV), já não têm a mesma mensagem de antes. O marketing engarrafou aquela água das cataratas.

EU NÃO QUERO MERGULHAR NUMA GARRAFA, em algo fabricado, condicionado, com rótulos. Não. Eu vi o trailer.

A questão é: espero um pouco mais pelo fenômeno espiritual verdadeiro e genuíno ou tento produzir algo? Não aguento mais esperar. Ao mesmo tempo, nada posso produzir por mim mesmo (do contrário, resultaria em um fruto espiritual transgênico – meio humano, meio espiritual).

Caro amigo, não tenho respostas para essas questões, só tenho mesmo as perguntas, as inquietações, o desespero, o grito, a vontade de alistar-me novamente naquele esquadrão especial. As primaveras vêm e vão, e continuo sendo normal.

Eu não quero ser normal. Não fui chamado para isso. Muitos que tocaram na orla de Jesus durante a juventude estão, hoje, inquietos, soltando gritos, insatisfeitos espiritualmente. Para onde essa insatisfação nos levará? Até quando permaneceremos só insatisfeitos? Onde está nosso comandante com as ordens e nossa missão em suas mãos?

Jesus, filho de Davi, tem compaixão de nós!

Clésio Pena é farmacêutico e professor; reside em Araras, SP, com a esposa Rosied e seus três filhos

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