Aconchegando-Se Na Mão De Deus

Publicado em: 11/02/2012 Categorias: Arauto / Crescendo à Maneira de Deus

Arauto - Ano 22 - nº 03 - Mai/Jun 2004

Por: G. W. Watson

A fé em Deus é, ao mesmo tempo, a mais doce necessidade, o mais sublime dever, e o maior privilégio de uma criatura para com seu Criador.

A fé possui dois componentes: primeiro, acreditar e aceitar uma promessa ou pessoa, e segundo, uma confiança ou dependência daquela promessa ou pessoa.

Ao acordarmos, dando conta de que estamos aqui neste mundo, sabemos intuitivamente que algum poder eterno deve ter sido a causa da nossa existência. Vemos-nos constantemente caminhando em direção a algum futuro sem fim, e sabemos instintivamente que deve haver algum poder nos aguardando lá. Confiar neste poder ou ser superior é uma das condições essenciais para que obtenhamos qualquer espécie de paz.

Confiar na Origem da nossa existência é a graça fundamental da vida, e toda virtude, toda graça possível à alma, forçosamente provém dessa confiança fundamental. Uma das provas infalíveis de que as Escrituras são a Palavra de Deus é que sua descrição da vida de fé confere exatamente com a constituição do nosso ser e do meio físico onde habitamos.

Os próprios homens que negam o sobrenatural na religião e na vida de fé, vivem, eles próprios, uma vida de fé em questões materiais, sociais e financeiras. Todo animal, peixe, pássaro e ser humano neste mundo vivem constantemente por fé, pois em cada passo que dão, precisam acreditar instintiva ou racionalmente em algo que está além dos cinco sentidos, firmando-se numa ampla base de providência ilimitada, da qual não conhecem o princípio, nem o fim, nem a sua infinita complexidade.

A Fidelidade de Deus

A fidelidade de Deus é aquela adorável perfeição da sua natureza, em que tudo que existe no universo se reclina para apoiar-se. Nosso bendito Criador refere-se, em sua Palavra, à fidelidade com mais freqüência do que a qualquer outro de seus atributos, porque é com ela que suas criaturas lidam mais constante e universalmente do que com qualquer outro atributo de sua natureza.

Olhe para os homens no mundo dos negócios, e veja se há alguma virtude que é mais constante e universalmente requerida do que a fidelidade, de alguém ser fiel à sua palavra, aos seus compromissos, às suas promessas, à sua correspondência, aos seus pagamentos. Esta é a virtude individual que sempre há de sobressair com mais destaque do que a amizade, o amor, o conhecimento, a sabedoria ou qualquer outra virtude humana.

A salvação é o casamento da confiança humana com a fidelidade divina. Aplicando todos estes princípios a uma vida religiosa, descobrimos que confiança ilimitada no Deus que se revelou em Jesus é essencial por causa dos seguintes motivos:

Por Causa dos Nossos Pecados

Confiar num Salvador divino é uma necessidade por causa dos nossos pecados. Todo ser humano, civilizado ou selvagem, tem consciência do pecado, quer admita ou não, e todo coração sente intuitivamente medo de alguma terrível e futura calamidade em conseqüência do pecado.

Por milhares de anos, os homens vêm inventando infinitos métodos para lidar com o pecado e para tentar separar o monstro do mal da alma humana. Porém, nenhum artifício jamais obteve a doce segurança de perdão e purificação, exceto aquele que é revelado nas Escrituras, que é confessar os pecados a Deus e deixar que ele tome as medidas necessárias.

Milhares e milhares de pessoas já tentaram todo artifício imaginável: tortura corporal, recusa dos apetites carnais, cultura, razão, poesia, meditação, boas obras, peregrinações, solidão, heroísmo, dormir em caixões, cortar e desfigurar o corpo, choro, lamentação, enfim, tudo o que a mente humana conseguiu inventar. Mas nada em seis mil anos jamais trouxe qualquer solução satisfatória para o pecado, a não ser contemplar, em submissão de criança, o nosso encarnado, crucificado e ressurrecto Deus, permitindo em silêncio que ele tome conta absoluta de todos os nossos pecados e da nossa natureza interior corrompida, e que os desfaça de acordo com seu próprio plano. Nunca tiraremos mel da rocha enquanto não deixarmos que nossos pecados, de qualquer grau ou espécie, sejam cobertos pelo Sangue de Jesus.

Não há saída da vida de pecado a não ser tranqüilamente nos confiarmos nas mãos de Jesus, da mesma maneira que, ao dormirmos, confiamos nossa respiração da noite à sua infinita providência.

A fé que realmente salva é aquela que deixa Deus tomar conta dos nossos pecados, da mesma forma que deixamos ao seu controle o brilho da luz solar ou o fluxo dos oceanos, repousando nas providências espirituais de Deus com a mesma tranqüilidade que nossa vida natural repousa em sua administração das leis naturais.

Eu apóio minha alma no precioso Sangue de Jesus da mesma maneira que fixo meu olhar na luz, ou que meus pulmões dependem do ar, ou que meus pés se firmam na crosta da Terra. No momento em que rompo esta confiança ilimitada, estou num mar de angústia. Portanto, a única coisa sensata que se pode fazer para obter paz de alma é confiar na expiação de Jesus, de forma tão ilimitada quanto confio na água que bebo ou no ar que respiro.

Por Causa da Nossa Ignorância e Debilidade

Confiar em Deus é necessário por causa da nossa ignorância e debilidade. Sabemos tão pouco do passado e do futuro, dos segredos da criação e a respeito de nós mesmos, que temos de nos apoiar numa sabedoria que não vemos, num amor que não podemos dimensionar, num conhecimento que não compreendemos, num governo sutil, secreto, incessante e que permeia tudo, mas que não pode ser visto, tocado, ouvido ou conhecido por nossos sentidos.

O pouco conhecimento que temos daquilo que está em nós e ao nosso redor serve basicamente para revelar nossa pequenez e debilidade. Vemo-nos em contato com forças gigantes que podem a qualquer momento destruir nossa vida: o vento pode nos derrubar, a água pode nos afogar, o fogo pode nos queimar, o frio nos congelar, os gases nos sufocar, a gravidade nos esmagar, a escuridão nos cegar. Não temos mais possibilidade de controlar estes elementos numa escala mundial do que teríamos de criar um novo mundo; no entanto, andamos serenamente no meio desses enormes gigantes, como Daniel descansando na cova de leões famintos, porque instintivamente confiamos num Deus invisível e onipresente para regular os elementos e cuidar da nossa pequenez e ignorância.

As Escrituras revelam um mundo espiritual de anjos poderosos, tanto bons como maus, um monstro terrível do pecado em Satanás, e incontáveis demônios que planejam e maquinam nossa ruína a cada passo. Se não fosse a proteção de Deus, nossas vidas seriam um tormento da parte desses espíritos impiedosos. Contudo, veja como passamos tranqüilamente, dia após dia, sem experimentar milhares de desastres em potencial, por causa da nossa confiança instintiva em algum poder infinito que tantas vezes deixamos de valorizar e de amar.

Por Causa de Nossas Falhas de Toda Espécie

É uma necessidade confiar em Deus para tomar conta e governar sobre todas nossas limitações, falhas e defeitos de toda espécie imaginável.

A salvação, por mais completa e perfeita que seja, não remove o senso humilhante de nossa total indignidade. Por outro lado, quanto mais nos aproximarmos de Deus, com mais aguda profundidade sentiremos nosso demérito e indignidade. Deus pode de tal forma purificar e encher a alma humana que a pessoa terá a consciência de estar livre do pecado e possuída com a presença viva e a santidade de Cristo, assim como um pedaço de ferro no fogo é impregnado pelo calor. Porém, até a mais doce consciência da habitação do Espírito Santo não apaga nesta vida aquela triste e patética sensação de demérito, debilidade e contaminação diante do Deus eternamente bendito.

Agora, o que devemos fazer com estes variados pensamentos, sentimentos, depressões e fraquezas que, em tantas pessoas, se misturam com a vida cotidiana? Algumas são muito desligadas e não dão atenção alguma às suas imperfeições diárias, deixando-as passar livremente. Outras dão atenção exagerada, mantendo-se numa febre de auto-recriminação, denunciando a si mesmas, atribuindo-se toda espécie de termo pejorativo, e assumindo expressões de tristeza, como se o autodesprezo fosse o caminho para a mais pura e elevada santidade. Na verdade, é apenas um artifício sofisticado de justiça própria.

O único método verdadeiro é reconhecer em humildade cada defeito, confessá-lo a Jesus em total entrega de si mesmo, e depois com amor, tranqüilidade e constância, deixá-lo nas mãos de nosso Deus e Salvador, assim como deixamos o ar que expiramos no oceano atmosférico que nos envolve. Se você adotar qualquer outro método que não seja confiar seus defeitos nas mãos de Jesus, gerará em sua alma irresponsabilidade religiosa ou obras de justiça própria.

Devemos, entretanto, evitar cuidadosamente todo defeito e imperfeição que estiver dentro da jurisdição do nosso livre arbítrio, sem exercitar-nos excessivamente ou submeter-nos à escravidão.

Por Causa de um Futuro Sem Fim

Confiar nossas vidas de forma ilimitada às mãos de Deus é uma necessidade diante da certeza de um futuro sem fim que temos diante de nós.

Não podemos ver uma hora à nossa frente, entretanto sabemos que continuaremos vivendo, ou nesta vida ou em outro estado, por horas e dias e anos mais incontáveis do que as gotas do oceano.

Quando contemplamos em pensamento as eras sem fim que enchem nosso horizonte e pensamos no que será de nós naqueles incontáveis séculos, ficamos estarrecidos e trêmulos com indagações sobre as possibilidades futuras. Tudo na criação e na revelação nos ensina a entregar-nos por toda a eternidade futura na mão onipotente em que tranqüilamente nos aconchegamos hoje.

Nossa confiança ilimitada em Deus parece satisfazê-lo como nada mais, porque corresponde à sua eterna fidelidade, honra sua veracidade e constitui-se numa silenciosa adoração de todos seus atributos perfeitos. Deus honra para sempre aqueles que crêem nele. Ele nos classifica de acordo com nosso grau de confiança, e não descansar e apoiar-nos nele é desestruturar o próprio plano de criação. Sim, a fé em Deus é, ao mesmo tempo, a mais doce necessidade, o mais sublime dever, e o maior privilégio de uma criatura para com seu Criador.

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