A Vida do Ego Desmascarada

Publicado em: 28/04/2012 Categorias: Arauto / Compartilhar a Cruz de Cristo - Compartilhar a Sua Vida

Arauto - Ano 16 - nº 01 - Jan/Mar 1998

Por: Jessie Penn-Lewis

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (Rm 7:18).

Conybeare nos diz que com a palavra “carne”, Paulo geralmente se refere àquilo que é terreno no homem, em oposição ao que è espiritual, e “hoje não existe um termo prático e popular melhor para esta palavra do que a nossa familiar ‘EU’.” (Moule)

Quando Adão caiu, ele se colocou sob o poder da carne, da vida da terra, ao invés de ser dominado pelo Espírito e pela vida de Deus como era antes. Por isso Deus disse: “O meu Espirito não agirá para sempre no homem… pois este é carnal” (Gn 5:3).

É muito importante compreender quais são as características da vida egocêntrica, e como se toma impossível viver uma vida espiritual e utilizar as armas espirituais no serviço de Deus quando estamos debaixo da influência do “eu”. É inútil exortar a carne para que se tome espiritual, no entanto, é a carne que tenta viver uma vida espiritual e se chama a si mesma de espiritual que é a razão da discrepância existente em muitas vidas cristãs hoje em dia.

Conseguimos luz nas nossas mentes, frases espirituais nas nossas línguas, intitulamos espiritual o nosso trabalho, ao passo que nós mesmos vivemos debaixo do poder da carne num grau maior ou menor durante todo o tempo.

Tomemos pois a Escritura e oremos para que a espada do Espirito penetre fundo, separando juntas e medulas, dividindo a alma e o espírito, de tal maneira que saibamos onde é que nos encontramos presentemente do ponto de vista de Deus.

A Carne

No nosso primeiro nascimento, nascemos da carne. “O que é nascido da carne é carne”(João 3:6) Portanto não pode ser nada mais do que carne; nem pode a carne ser transformada em espírito através de esforço, ou cultura ou oração.

A carne é contrária ao Espírito Santo. “A carne milita contra o Espirito e o Espírito contra a carne; porque são opostos entre si” (Gl. 5:17).

Quais são as principais características da carne?

• Pela sua natureza é inimiga de Deus. “O pendor da carne é inimizade contra Deus”(Romanos 8:7).
• Ela não pode se submeter a Deus porque é contrária a Ele. “Não está sujeita (em grego “não é apta a se submeter”) à lei de Deus” {Rm 8:7).
• Ela se preocupa com coisas terrenas porque tem origem na terra. “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne” (Rm 8:5).
• Tudo o que ela produz termina em morte. “Porque o pendor da carne dá para a morte” (Rm 8:6).
• O filho de Deus pode “ainda ser carnal”. “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo” (1 Co 3:1). Tendo começado no Espírito, estais agora vos aperfeiçoando na carne?’ (Gl 3:3).

“…havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais?” (1 Co 3:3,4), disse Paulo aos coríntios, enquanto que na sua carta aos gálatas, ele classifica “…discórdias, dissenções, facções… e coisas semelhantes a estas” como as mais grosseiras manifestações da carne, mostrando a única fonte de iodas elas.

Além do mais, como os verdadeiros filhos de Deus sempre lamentam a rebeldia que não conseguem controlar! Estão conscientes de sua falta de submissão. Sabem que se preocupam com as coisas terrenas e se sentem confortáveis com esta situação. Sabem disso, lamentam isso, lutam contra isso, entretanto não conseguem se transformar. Alguns fazem propósitos, redobram os seus esforços e tentam aplicar cada método que pensam que os tornará mais espirituais.

Eles se consagram e reconsagram a Deus, mas aparentemente é em vão. Alguns pensam que outros mais espirituais devem ter algum dom especial, enquanto continuam a lamentar a sua frieza de coração e a sua falta de semelhança com Cristo.
Rebeldia, desobediência, natureza terrena, impotência — são estas as características da vida segundo a carne, mas ainda há outras mais sutis reveladas com clareza na palavra de Deus.

Obras Sutis da Carne

1. Julgar segundo a carne (isto é, julgar pelas aparências exteriores). “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo. Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro”(João 8:15,16). (Compare com Isaias 11:3).

2. Deliberar segundo a came. “…ao deliberar, acaso delibero segundo a carne, de sorte que haja em mim simultaneamente o sim e o não?” (2 Co 1:17).

3. Gloriar-se segundo a carne. “Posto que muitos se gloriam segundo a carne”(2 Co 11:18).

4. Ostentação segundo a carne. Todos os que querem ostentar-se segundo a carne…somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo”(Gl 6:12).

5. Pelejar por Deus segundo a carne. “Não militamos segundo a carne… as armas da nossa milícia não são carnais” (2 Co 10:3,4).

6. Amizades segundo a came. “Assim que nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne” (2 Co 5:16).
7. Conhecer a Cristo segundo a carne. “…e se antes conhecemos a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos desse modo”(2 Co 5:16).

Como filhos de Deus, podemos estar livres das manifestações mais grosseiras da carne, contudo estas mais sutis permanecem.

Olhemos para a lista e provemos a nós mesmos. O julgamento pelas aparências de acordo com idéias terrenas, ao invés de fazê-lo do ponto de vista de Deus; a inconstância de propósito que caracteriza tantos no serviço do Mestre; as promessas quebradas e os compromissos não honrados que citamos com tanta leviandade, em vez da firme fidelidade segundo os padrões Daquele que não muda jamais; o gloriar-se de resultados visíveis; a avaliação do trabalho do Espírito de Deus pelo número de convertidos, e o padrão de medir tudo pelas aparências exteriores; a preocupação em como as coisas parecerão aos outros ao invés de se preocupar com o olhar singelo em direção a Deus; valorizar os aplausos do mundo cristão ao mesmo tempo que falhamos em serviços ocultos aos outros e nas pequenas coisas; lutar por Deus e também freqüentemente um contra o outro ao invés de com Deus contra o poder das trevas; e a dependência de métodos naturais de ganhar o mundo para Cristo.

Sim, até as nossas amizades — nossas amizades cristãs — podem estar na carne, porque quão pouco sabemos de afeições profundas e puras, onde Deus está sempre entre nós e nossos queridos! O nosso próprio conhecimento de Cristo pode ter sido só iluminação mental ou intelectual.
Podemos saber tudo a respeito Dele, ter visões bem claras e conhecer bem a letra da palavra escrita, mas não conhecermos realmente o Cristo que é a Palavra Viva.

Está escrito: “a carne para nada aproveita” (João 6:63). Ainda que falemos como anjos — nada! Ainda que compreendamos todos os mistérios — nada! Ainda que tenhamos todo o conhecimento e a fé que move montanhas — nada! Sim, ainda que doemos todos os nossos bens materiais, ainda que sacrifiquemos os nossos corpos para serem queimados, isso de nada adiantará a menos que estes feitos tenham a sua origem na fonte da vida de Deus em nós — a vida Daquele que é Amor.

O Caminho Divino da Libertação

O caminho divino da libertação é através da morte de Cristo. “Um morreu por todos, logo todos morreram… para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Coríntios 5:14,15).

A libertação da vida segundo a carne é feita através do trabalho consumado do Redentor na cruz do Calvário, e até que os nossos olhos sejam abertos para vermos a nossa morte com Cristo, e não só a sua morte por nós, nós permanecemos “na carne”, e andamos ‘segundo a carne” de alguma maneira…

Pôr em prática a libertação da cruz é obra do Espírito Santo. “A carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne… e os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne” (Gl 5:17,24).

Estes versículos mostram que o pecador perdoado não é deixado sozinho na sua luta, porque o Espírito Santo, que Jesus deixou para habitar em nós quando Ele nos deu o dom da vida eterna, arde sobre nós com zelo e ciúme. O bendito Espírito sempre procura trazer para a cruz a carne, contra a qual luta com muita intensidade.

Na experiência prática, quando nos apropriamos da libertação através da morte com Cristo, a vida da came geralmente parece mais “viva” do que nunca! Exatamente nessa ocasião Deus quer que permaneçamos firmes na Sua Palavra. A manifestação maior da came realmente prova que nossa entrega para a cruz foi verdadeira, pois o Espirito Santo aceitou nossa palavra, e começou a revelar tudo aquilo que antes estivera escondido — com o fim de que fosse tratado na cruz.

Nossa parte é submetermos as nossas vontades, e ficar ao lado de Deus contra nós mesmos, enquanto o Espírito Santo aplica a morte de Cristo a tudo que é contrário a Ele, a fim de que seja realmente verdadeiro que todo aquele que é de Cristo crucificou a carne com todas as suas paixões e concupiscências.

Nossa Atitude para com a Vida da Carne

“Nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências” (Romanos 13:14). É absolutamente necessário que nós nos consideremos crucificados, e não levemos em consideração a carne ou alimentemos os seus gostos ou desgostos.

“Não useis da liberdade para dar ocasião à carne” (Gl 5:13). Não se deve dar-lhe nenhuma oportunidade de falar, nem clemência de qualquer espécie, porque um pequenino grau de adesão fortalecerá a sua vida.

“E não confiemos na carne” (Fp 3:3). É preciso não confiar nela de maneira nenhuma, nem nos permitirmos a admissão do pensamento de que podemos fazer isto ou aquilo. É melhor que desejemos passar por tolos do que deixar a carne obter qualquer resquício de glória.

Detestemos “até a roupa contaminada pela carne” (Judas 23). Oremos para que Deus nos dê uma tal visão da corrupção do egoísmo, que nos apavoremos e o temamos mesmo no seu aspecto mais bonito.

A Vida no Espírito

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós”(Rm 8:9). Nós estamos “no Espírito” na mesma extensão em que o Espírito Eterno tem morada dentro de nós. O propósito de Deus é que o Espírito nos possua totalmente, de tal modo que não somente vivamos pelo Espírito, mas andemos cada dia, passo a passo no Espírito, não satisfazendo os desejos da carne (Gl 5:25).

À medida em que apropriamos a libertação da cruz e o Espirito Santo manifesta em nós a gloriosa liberdade dos filhos de Deus, conheceremos então, de verdade o que é:

• O Espírito nos guiando como filhos de Deus (Rm 8:14).
• O Espírito que clama “Aba” (Pai) do nosso interior ao coração do Pai (Rm 8:15).
• O testemunho do Espírito a respeito da nossa posição de filhos de Deus (Rm 8:16)
• A intercessão do Espírito segundo a vontade de Deus. (Rm 8:26).

Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a Ele seja a glória. Amém.

Conformado à Sua Morte

Pela fé você “reconhece” que morreu com Cristo, e à medida que assim “reconhece”, o Espírito Santo aplicará aquela morte em sua vida, enquanto você obedece à luz cada vez maior que Ele focaliza na sua vida e ações. O objetivo (verdade da Palavra de Deus) e o subjetivo (sua experiência real) precisam se manter equilibrados. Se você achar que Romanos 6 pode ser sua experiência absoluta da mesma maneira que é a sua posição legal por direito como filho de Deus, sem levar outras Escrituras em consideração para interpretá lo e complementá- lo, você corre o perigo de não mais chamar o pecado de “pecado”. Você poderá fechar a porta da sua mente para a luz do Espírito Santo que traz um conhecimento mais profundo de si mesmo e de Deus. Poderá ficar aprisionado a uma simples manutenção de uma posição, sem nenhuma visão aberta para um conhecimento experimental mais profundo do Calvário e daquilo que significa Gálatas 2:20.

Você “foi crucificado com Cristo” — sim — mas cada parte do seu ser inteiro precisa ser “conformada com Ele na Sua morte” — isto inclui tanto o “eu” como o pecado. Isto durará a vida inteira, e a obra não será completa subjetivamente até que o corpo da nossa humilhação “seja igual ao corpo da Sua glória” (Filipenses 3:21).

———————————————————————————————————————

Permanecei em Mim, e Eu em Vós
Por: F. B. Meyer

Nós estamos em Cristo pela graça; mas é necessário que concretizemos e acentuemos essa união através da meditação e oração. Fazemos isto aguardando com intensidade os Seus impulsos na intercessão e na ação. Permanecendo em silêncio para que Ele fale. Dependendo Dele através de constantes apelos de fé, que se tornam tão naturais quanto a respiração. Olhando para Ele aguardando a Sua aprovação. Buscando somente a Sua decisão sobre o que deve ser dito e feito. Unido tão intimamente a Ele que Ele possa produzir em nós e através de nós qualquer tipo de fruto que queira para benefício dos homens e para a glória de Deus.

Nós estamos em Cristo, não porque O sustentemos, mas porque Ele nos sustenta. Por isso devemos aguardar a poda que o Pai realiza. Apesar disso, não tema o podão. O podão que Ele usa é a Sua Palavra, só que manejada por uma mão paternal, e se nos entregarmos ao podão dourado da Palavra, escaparemos do podão de ferro e de sofrimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *