A vida de confiança de George Müller

Publicado em: 01/06/2020 Categorias: A palavra é uma espada / Arauto

Arauto - Ano 38 - nº 01 - Jan/Abr 2020

Parte 1

A vida exemplar de fé e oração de George Müller não pode ser atribuída a uma criação cristã. Nascido em 1805 na Prússia, sua infância e juventude foram destituídas de influência e prática cristãs. Ele não tinha uma Bíblia para ler. Seu pai deu a ele e a seu irmão uma quantia considerável de dinheiro para a idade deles, o que lhes permitiu ter hábitos pecaminosos e libertinos. Depois de certo tempo, porém, o jovem George começou a se dedicar seriamente aos estudos e chegou a dominar seis idiomas, incluindo hebraico, latim e grego.

Seu pai o encorajou a tornar-se ministro, uma vez que essa profissão lhe traria um bom meio de vida, assim como permitiria que seu pai vivesse confortavelmente com ele depois de aposentado. E assim o jovem George entrou na faculdade de teologia. Mesmo sendo estudante de teologia, ele não tinha conhecimento do que a salvação significava. Embora ainda estivesse vivendo uma vida de pecado, o desejo do seu coração era transformar-se, mas seus esforços repetidos para fazê-lo fracassaram terrivelmente.

A grande virada

Quando estava com aproximadamente 20 anos, George foi convidado num sábado à noite para uma reunião de oração na casa de um verdadeiro cristão. A reunião consistiu em oração e leitura da Bíblia e de um sermão escrito. Profundamente impressionado, George foi para casa com alegria em seu coração. Deus havia começado uma obra de graça nele, e aquela foi uma grande virada em sua vida.

Embora não tenha abandonado todos os hábitos pecaminosos de imediato, sua vida já não era mais a mesma. Ele começou a ler a Bíblia e a orar. Más companhias foram abandonadas, e ele agora amava a comunhão cristã e a buscava sempre que possível. De vez em quando, andava vários quilômetros apenas para ouvir um pregador da Palavra. Seus companheiros da faculdade de teologia o ridicularizavam. Quando ele escreveu a seu pai e a seu irmão sobre sua recém-descoberta alegria, seu pai se opôs veementemente.

Uma nova luz e ajuda vieram em socorro do novo convertido quando um professor consagrado, o Dr. Tholuck, chegou à faculdade de teologia. George também encontrou outros estudantes que levavam a fé a sério e que se reuniam em adoração nas noites de domingo. O desejo de viver integralmente para Deus cresceu em seu coração, e ele começou a se preparar com seriedade para a obra do Senhor e a orar a respeito da vontade de Deus para sua vida.

Com o encorajamento do doutor Tholuck, ele se candidatou para ser missionário entre os judeus. Pediram que ele fosse a Londres para um período probatório de seis meses de estudo. Seu pai deu permissão para que ele fosse, mas havia um obstáculo aparentemente intransponível. Era obrigatório na Prússia que os jovens de sua idade cumprissem o serviço militar. Depois de ser examinado por um médico, porém, George foi considerado fisicamente inapto e recebeu uma dispensa, o que lhe permitiu seguir em frente com seu treinamento missionário.

Depois de chegar a Londres e estudar bastante, a saúde do estudante zeloso se fragilizou a tal ponto que parecia que nem chegaria a sobreviver. Ele se mudou para a região rural temporariamente, onde orou insistentemente pela vontade de Deus em sua vida e começou a convalescer. Depois de receber uma série de ensinamentos de um irmão mais maduro, George veio a entender que era fundamental confiar mais no Espírito Santo para direção, especialmente na preparação de sermões. Deixando de lado comentários e outros livros, ele dedicou tempo lendo e estudando unicamente a Palavra de Deus.

Mais tarde, ele escreveu: “O resultado disso foi que na primeira noite em que me tranquei no meu quarto para dedicar-me à oração e à meditação sobre as Escrituras, eu aprendi mais em algumas horas do que eu tinha aprendido anteriormente durante vários meses. Mas a principal diferença foi que, ao fazê-lo, eu fui grandemente fortalecido na minha alma…”

Ele retornou a Londres com novo vigor para retomar seus estudos. Sugeriu aos seus colegas que se reunissem pelas manhãs das 6h às 8h para orar, ler as Escrituras e compartilhar o que o Senhor lhes mostrasse. Depois de vários momentos de devoção norturna, “ele encontrou uma comunhão tão doce com Deus” que orou até a meia-noite e depois foi para o quarto de um irmão para mais uma ou duas horas de oração. Sentindo tanta alegria que mal conseguia dormir, mesmo assim ele apareceu na manhã seguinte às 6h para orar com seus colegas.

Mais uma vez, a saúde desse estudante intenso começou a piorar, e ele sentiu que não deveria passar mais tempo estudando. Resolveu partir sem mais demora para se dedicar à obra do Senhor. Um ministério foi aberto para ele entre os judeus de Londres, e a sociedade missionária o liberou da obrigação de trabalhar com eles, para que pudesse estar livre para servir conforme Deus o dirigisse.

Aprendendo a esperar em Deus

Não muito tempo depois de deixar a faculdade, George Müller recebeu o convite de ser pastor de uma igreja em Teignmouth, no sudoeste da Inglaterra. O jovem pastor logo veio a perceber que não sabia quais seriam os melhores textos para usar em suas pregações para a congregação. Isso o levou a buscar a Deus intensamente em oração para receber direção sobrenatural.

Às vezes, ele passava um bom tempo ajoelhado até que um texto lhe fosse vivificado à mente. Quando nada lhe vinha ao coração, ele aprendeu a continuar lendo calmamente na parte das Escrituras que vinha lendo diariamente até que um trecho lhe chamasse a atenção. Também houve ocasiões em que ele ia às reuniões da igreja sem um texto escolhido, mas o Senhor sempre era fiel em providenciar um antes da pregação se ele tivesse sido igualmente fiel em buscar direção divina em oração.

Avançando em fé

Algumas semanas depois de se casar com a srta. Mary Groves, os dois concordaram em abrir mão do salário que ele recebia da igreja. O salário era pago com os rendimentos de uma taxa que os fiéis pagavam pela utilização dos bancos da igreja, na hora dos cultos. George achava errada essa prática, pois acreditava que os assentos na igreja deveriam ser oferecidos gratuitamente.

A partir desse dia, uma caixa de coleta foi posta na igreja para ofertas voluntárias em favor do seu sustento. Às vezes, as ofertas somavam muito pouco; outras vezes, os responsáveis pela administração do dinheiro eram negligentes em repassar o valor para ele. Muitas vezes, George e sua esposa ficavam quase sem recursos na carteira.

Entretanto, Deus sempre respondeu às suas orações sinceras falando com alguém na congregação para levar alimento ou dinheiro, de maneira que suas necessidades fossem supridas e sua fé encorajada. Eles tomavam todo cuidado para não ficar devendo, escolhendo até ficar sem comer, caso necessário. George desejava transmitir o testemunho de alguém que confiava apenas no Deus vivo.

George Müller escreveu: “Essa maneira de viver foi com frequência o meio de reavivar a obra da graça no meu coração quando eu começava a me esfriar; e também foi um meio de me trazer de volta à presença do Senhor quando eu começava a me afastar dela. Não é possível viver em pecado e, ao mesmo tempo, trazer dos céus pela comunhão com Deus tudo o que se precisa para a vida aqui na terra. Frequentemente, também, uma resposta imediata à oração obtida dessa maneira foi o meio de vivificar a minha alma e me encher de grande alegria.”

Por vezes a família Müller tinha que orar pela comida da janta enquanto agradecia pela comida do almoço. Porém, ao final de um ano inteiro vivendo pela fé, descobriram que tinham recebido mais do que se tivessem recebido um salário regular. George disse: “Eu não tenho servido a um carrasco, e é isso que tenho prazer em demonstrar.”

Depois de pouco mais de dois anos em Teignmouth, ele sentiu direção de mudar-se para Bristol. Lá, Deus abençoou o seu ministério, e vidas foram alcançadas e levadas a Jesus. Muitas pessoas pobres vieram bater-lhes à porta, e puderam ajudá-las com pão conforme Deus lhes concedesse a provisão.

A Instituição de Conhecimento Bíblico

Depois de muitos anos de ministério frutífero em Bristol com seu parceiro de trabalho, irmão Craik, eles sentiram o desejo de fundar uma instituição missionária para divulgar o Evangelho, tanto na cidade onde estavam quanto fora dela. Ela ficou conhecida como a Instituição de Conhecimento Bíblico. Essa instituição envolveu a criação de escolas de ensino fundamental e de Escolas Dominicais para crianças, de escolas para adultos nas quais se ensinavam princípios bíblicos, doação de Bíblias e panfletos cristãos, e apoio aos projetos missionários.

Os princípios que norteavam essa instituição foram os mesmos que aplicavam à vida pessoal: confiar apenas no Senhor para as finanças, não contrair dívidas e, como afirmavam, “não considerar o sucesso da instituição com base na quantia de dinheiro doada, de Bíblias distribuídas etc. – mas de acordo com a bênção do Senhor sobre a obra (Zc 4.6). Essa bênção era avaliada na proporção em que o Senhor os ajudasse a esperar nele em oração”.

Depois de muitos meses de funcionamento da instituição, eles ouviram falar de um garoto órfão que havia frequentado a escola por eles fundada, e que tinha se preocupado imensamente com sua própria salvação por causa dos ensinamentos lá recebidos. Ele estava em desespero, pois foi tirado da escola e posto em um abrigo um pouco distante. A situação tocou profundamente o coração de George Müller, e ele quis fazer algo para ajudar crianças desamparadas como ele.

O primeiro orfanato

Em 1835, aos 30 anos, George Müller recebeu a direção de Deus para fundar um abrigo para órfãos. Várias razões o levaram a fazer isso. Ele estava ansioso por mostrar aos cristãos que o Senhor era um Deus vivo – assim como tinha sido em épocas passadas para aqueles que nele confiavam. George via pais que trabalhavam de 14 a 16 horas por dia para sustentar suas famílias. O excesso de trabalho não apenas os exauria fisicamente como também os impedia de orar e ler a Palavra, de modo que a vida espiritual deles se via enfraquecida. Se eles mal conseguiam ganhar o mínimo para sustentar a casa, mesmo trabalhando esse número excessivo de horas, como poderiam trabalhar menos? George Müller queria mostrar-lhes que era o Senhor e não o trabalho que os sustentava.

Havia também aqueles cristãos profundamente preocupados com a questão da idade, quando chegassem à época em que não poderiam mais trabalhar. Eles receavam ter que ir para um abrigo para pessoas pobres. George queria mostrar-lhes também que Deus não desampara aqueles que depositam sua confiança nele.

Ele via cristãos no ramo comercial que sacrificavam seus princípios morais a fim de obter sucesso, agindo exatamente como descrentes. Ele desejava que essas pessoas confiassem no Deus vivo e conduzissem seus negócios de maneira íntegra e que fossem bem-sucedidos porque Deus os abençoava e os honrava.

Havia também aqueles que se dedicavam a profissões pouco honrosas aos olhos de Deus, e que permaneciam nelas por medo do desemprego. George queria mostrar-lhes a fidelidade imutável de Deus e como o Senhor está sempre disposto e capaz de ajudar aqueles que clamam por ele.

George havia confiado integralmente na Palavra de Deus em sua vida e provado que o Senhor é fiel; seu desejo era encorajar os outros a fazer o mesmo. Se pudessem observá-lo – um homem desprovido de possessões – fundar e manter um orfanato apenas pela fé e pela oração – certamente eles de igual modo seriam encorajados a confiar em Deus. E por que o descrente não se convenceria igualmente da realidade do Deus vivo e verdadeiro? Certamente, estava no seu coração também ajudar as crianças órfãs, não apenas nas suas necessidades materiais, mas sobretudo discipulando-as nos caminhos de Deus.

Este relato continuará na próxima edição.

Adaptado do livro The Life of Trust (A vida de confiança), de George Müller

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