A preciosidade da Palavra de Deus

Publicado em: 02/06/2020 Categorias: A palavra é uma espada / Arauto

Arauto - Ano 38 - nº 01 - Jan/Abr 2020

Por Octavius Winslow (1808-1878)

A experiência do crente oferece, talvez, o testemunho mais poderoso e conclusivo da preciosidade da Palavra de Deus. Quantos corações que já experimentaram a verdade, creram no evangelho e amam a Cristo se identificam com as palavras de Davi: “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca!” (Sl 119.103). O que diz Jeremias? “Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração…” (Jr 15.16).

A Palavra de Deus é a verdade

A Palavra de Deus é preciosa para o crente, primeiro, porque é a VERDADE divina, atestada e experimentada. A Palavra de Deus é verdadeira. Aquele que é definitivamente “a Verdade” (Jo 14.6), por ser a verdade essencial e a substância da verdade revelada, afirmou em sua oração sublime e memorável: “…a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).

Siga esse pensamento por um momento. Parece que nem poderia ser de outra forma, pois é a Palavra do Deus da verdade, participando da natureza daquele a quem pertence a verdade. Tudo o que emana de Deus só pode ser uma transcrição, em alguma medida, daquilo que ele é. É assim, de forma sutil, nas obras da natureza; mais claramente na esfera da providência (no sentido do cuidado e da proteção soberana de Deus); e totalmente perfeita na atuação da graça.

A grande verdade confirmada por cada uma dessas três testemunhas é esta: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4). Segue-se, tão claramente como qualquer conclusão possa ser extraída de suas premissas, que a sua Palavra é a verdade, uma verdade eterna, essencial e imortal. É a verdade no Salvador que revela, na salvação que declara, nas doutrinas que expõe, nos preceitos que ordena, nas promessas que proclama, nas esperanças que desvenda e nos juízos que anuncia. “A tua palavra é a verdade.”

Como verdade divina, portanto, a Palavra é mais preciosa para o crente que apostou todo o seu futuro e a sua felicidade eterna na sua veracidade. Deixe sua fé, amado leitor, ter um envolvimento ainda mais íntimo com a verdade da Palavra de Deus. Sejam quais forem as circunstâncias sombrias e desagradáveis que estão avolumando nuvens escuras sobre seu caminho, mantenha firme sua confiança na verdade da Palavra de Deus. Você encontrará mutabilidade em tudo, menos nela.

Deus pode ordenar suas circunstâncias de maneiras diversas, mas nunca alterará sua Palavra. “Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu” (Sl 119. 89); “…a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente…” (1 Pe 1.25). Tudo o que Deus sussurrou em misericórdia ou trovejou em juízo, seja a promessa de amor ou o anúncio de castigo, todas as preciosas palavras que usou para alimentar a esperança em nossa alma, os socorros prometidos, as fiéis misericórdias das alianças, as garantias dadas, todas as consolações envolvidas, o juramento prestado, tudo será cumprido.

Sua fé nas promessas de Deus pode ser severamente provada pelas circunstâncias permitidas pela providência divina, pois podem parecer se opor e contradizer as promessas. Lembre-se sempre, porém, que Deus não pode negar a si mesmo, nem alterar a palavra que saiu da sua boca. Portanto, apegue-se à Palavra de Cristo, como um náufrago a uma tábua, como uma mãe ao seu bebê, sim, como um humilde crente se apega ao divino e gracioso Salvador que disse: “E o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37).

As Escrituras testificam a respeito de Jesus

Como testemunho a Jesus e à sua salvação, a Palavra de Deus deve sempre ser transcendentemente preciosa para o crente. A Bíblia é, do início até o fim, um registro a respeito do Senhor Jesus. Em torno dele, do divino e glorioso centro, giram todos os seus maravilhosos escritos literários, profecias e fatos: as promessas e tipologias da sua primeira vinda, sua santa encarnação, natividade e batismo, sua obediência e paixão, sua morte, sepultamento e ressurreição, sua ascensão ao céu, sua segunda vinda para julgar o mundo e estabelecer seu reino glorioso. Todas essas coisas são as grandiosas, comoventes, sublimes, afáveis, inestimáveis e preciosas verdades, entrelaçadas para formar a textura completa da Bíblia, da qual o Velho e o Novo Testamentos prestam seu testemunho harmonioso e solene.

Amado, que este seja o primeiro e principal objetivo no seu estudo da Bíblia: o conhecimento de Jesus. A Bíblia não é uma história qualquer, um livro de ciência ou um poema; é o registro, a narrativa, a apresentação de Cristo. Estude-a para conhecer mais dele: sua natureza, seu amor e sua obra. Como disse o magnânimo Paulo: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8).

Se assim fizer, a Palavra de Deus se tornará cada vez mais preciosa para a sua alma, e as verdades dela se abrirão. Você conseguirá seguir a história de Jesus desde o princípio, verá a glória dele, admirará a sua obra, aprenderá sobre o seu amor e ouvirá a sua voz em todas as páginas. Todo o volume apontará para seu nome e ficará iluminado com a sua beleza. Imagine o que seria a Bíblia para nós se não nos revelasse o Salvador!

Temos buscado nas Escrituras humildemente, em oração, dependendo da orientação do Espírito, para encontrar Jesus em suas páginas? Das Escrituras, ele é o Alfa e o Ômega, a substância, a doçura, a glória, o único verdadeiro tema, do início ao fim, precioso e envolvente. Ouça suas próprias palavras: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). Ele estava dizendo: Moisés escreveu sobre mim, Davi fez louvores para mim; profetas predisseram a minha vinda; evangelistas relataram a minha vida, apóstolos expuseram a minha doutrina e mártires morreram por meu nome. “São elas mesmas que testificam de mim.” Sim, Senhor! Tua Palavra é preciosa para as nossas almas, porque nos revela a tua glória e fala do teu amor!

Doutrina, preceito, repreensão e promessa

Também é preciosa a Palavra de Deus porque contém doutrina, preceito, repreensão e promessa. As doutrinas são preciosas, pois dão instruções à mente e estabelecem fé no coração do filho de Deus. Não pode haver uma edificação real e duradoura da vida de alguém na verdade de Deus quando a sua fé nas grandes doutrinas da graça é débil e seguida de modo vago e sem convicção. As doutrinas, portanto, que exaltam o Cordeiro de Deus, que colocam a glória, o poder e a vaidade da criatura no pó e que exibem o amor de Deus em nos escolher e a graça soberana na salvação que nos ofereceu são extremamente preciosas para os corações que foram marcados pela verdade e que confiam em Jesus.

Não menos precioso para o discípulo é o ensino de preceitos na Palavra de Deus. Quando houver uma experiência real do poder das doutrinas da fé, haverá um amor correspondente pelos preceitos. Você desejará ser santificado e não só justificado, ter seu coração purificado e sua vida moldada pela santidade da verdade. O preceito que determina a separação do mundo, que nos ensina a negar toda a impiedade e a viver sobriamente, retamente e piedosamente neste presente mundo maligno, que nos ensina a tomar nossa cruz diária e seguir um Salvador crucificado, que revela como fomos ressuscitados nele e que nos leva a buscar as coisas que estão no alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus – só pode ser precioso, inconcebivelmente precioso, para um coração que ama Cristo.

Até mesmo as admoestações da Palavra de Deus, por mais humilhantes que sejam, são bem-vindas aos crentes. A Palavra que gentilmente repreende seus desvios, revela suas loucuras, expõe as suas inconsistências e abate o seu orgulho, egoísmo e vaidade, levando-os ao pó, é preciosa para a sua alma. O cristão sente que toda a Escritura é inspirada por Deus e é proveitosa para a doutrina, para a reprovação, para a correção, para a instrução da justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, perfeitamente preparado para todas as boas obras” (2 Tm 3.16). É por isso que ele a aceita por inteiro.

Amado, não considere de menor valor para o seu coração, nem como uma expressão menor do terno amor de Deus aquelas partes da sua verdade que nos repreendem, humilham, esvaziam e rebaixam. As repreensões e reprovações da Palavra de Deus são tão valiosas e preciosas em si quanto as promessas, uma vez que ambas buscam igualmente a santificação do crente e emanam da mesma mente divina e fluem do mesmo coração amoroso.

Consolação divina

Como fonte de consolo divino, quantos podem testemunhar a preciosidade da Palavra de Deus! “O Deus de todo conforto” (2 Co 1.3) é aquele que fala nesta Palavra, e não há palavra de conforto que se compare com a que vem dele. Independentemente da tristeza que você estiver carregando, seja uma nuvem escura dominando sua mente, seja uma profunda tristeza no espírito ou uma imensa dor no coração; ainda que a natureza, a complexidade ou a profundidade de sua tristeza sejam insuperáveis na história humana; quando você chegar à Palavra de Deus, encontrará consolo e suporte nela para sua mente e coração. Nessas páginas sagradas, há uma voz de compaixão e de alívio capaz de tranquilizar a sua dor; e, assim, pela “consolação das Escrituras” você recebe esperança (Rm 15.4) de que Deus não o deixará em apuros, mas o sustentará, tirando-o para fora da crise e santificando-o por meio dela, para a glória e o louvor eternos do seu grande e precioso nome.

A Palavra de Deus é o livro dos aflitos. Deus fala ao coração triste e abatido por meio de todas as páginas deste volume sagrado, com palavras de consolo, tão amorosas, gentis e persuasivas quanto as de uma mãe. “Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei…” (Is 66.13). A Bíblia é Deus abrindo seu coração para nós. É o coração de Deus se revelando e, a cada batimento, convidando os pobres de espírito, a viúva, os órfãos, os enlutados, os perseguidos, o sofredor, sim, os assolados por toda forma de aflição e tristeza para o refúgio e a simpatia, a proteção e tranquilização do seu coração. Graças a Deus pelo conforto e consolo das Escrituras! Abra-as em qualquer que seja a sua condição de angústia, por maior que seja a sua carga de tristeza ou perplexidade, culpa de pecado, pressão de provação ou desolações diversas – as palavras de consolo que só Deus poderia pronunciar tocarão o seu coração.

O poder de vivificar

A Palavra de Deus é igualmente valiosa e preciosa para o crente por causa de seu poder de gerar vida. Há uma vitalidade divina na Palavra que transmite vida ao ouvinte quando é comunicada no poder e na demonstração do Espírito (1 Co 2.4; 1 Ts 1.5). Como instrumento de regeneração e santificação, a Bíblia é incomparável. Como instrumento do novo nascimento, o Espírito Santo a descreve assim: “Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1 Pe 1.23). E referindo-se a ela igualmente como o instrumento de Deus para nos santificar, nosso Senhor disse em sua oração ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). E, para os discípulos, ele emprega linguagem semelhante: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

Claramente, então, a Palavra de Deus é um instrumento de vida espiritual e de santidade do evangelho e, como tal, recomenda-se que o discípulo a trate com a mais profunda reverência, o mais ardente amor e o mais diligente estudo. Examine-a para conhecer mais de Cristo, mais de sua obra expiatória, mais de sua qualificação como mediador que é apta para resolver toda e qualquer tribulação de espírito e coração. Estude-a para conhecer a vontade de Deus, o amor de seu Pai celestial. Leve toda dúvida, perplexidade e tristeza à Palavra de Deus. E antes que você abra suas páginas sagradas, eleve seu coração em oração ao Espírito eterno para guiar sua leitura, abrir seu entendimento e desvendar seus olhos para essa fonte divina de vida abundante.

– Adaptado de The Precious Things of God (As preciosas coisas de Deus).

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