A bravura que descansa

Publicado em: 10/11/2011 Categorias: Blog

Quando Jesus começou a me pôr nos trilhos, na minha adolescência, o sobrenatural absorvia todo o meu interesse. Eu buscava com empenho experiências como ser arrebatado e ficar fora do corpo, detectar demônios em casas oprimidas por forças malignas ou obedecer a voz do Espírito em gestos inusitados, como pegar um ônibus qualquer por sentir que Deus tinha uma missão pra mim. Todos podemos julgar em demasia nosso “eu” passado. Ter pouca misericórdia de nossos próprios erros e desequilíbrios anteriores, sem lembrarmos que estávamos crescendo, aprendendo a viver a vida de Deus. Pois embora eu transbordasse de entusiasmo,  super-espiritualizando coisas banais, não quero dizer que não vivenciava algumas experiências genuínas. Em uma delas vi, em vigílias em montes e descampados,  gravetos e galhos luminiscentes e em brasa, sem queimar. Eles se iluminavam enquanto orávamos. Eram uma espécie de led indicador do volume de oração! Bioluminiscência, me disseram. Que é ativada pela prece, diante dos olhos de dezenas de adolescentes, respondo eu. Até hoje cético algum conseguiu me persuadir que não houvesse ligação entre a oração do povo de Deus e o graveto que ardia sem queimar.

Não imagine, portanto, que desprezo uma vida que creia no sobrenatural. Não me alinho com gente que quer viver uma vida cristã poeticamente humana, sem traços de sobrenaturalidade. Essas ênfases domesticam o evangelho. Pois nele existem anjos, demônios, curas, levitação, visões, atravessar de paredes e trovões falantes. Mas sei que, a exemplo de minha adolescência, pessoas ficam facilmente fascinadas com prodígios. A tal ponto que ignoram o ruach silencioso nos aspectos mais triviais da vida, onde o Evangelho se manifesta com poder. Também quero ver milagres, mas preciso mesmo é de graça para triunfar em tarefas banais. Minhas orações diárias abordam temas comuns, como a necessidade de paciência nos relacionamentos de trabalho, de perseverança em abandonar o sedentarismo ou mais disciplina nos exercícios espirituais. Aliás, descritas como fiz aqui parecem muito grandiosas. Mas, ao pé da letra, oro pedindo ajuda para colocar uma pilha de provas em ordem alfabética; ou para ter mais energia e levantar cedo quando me vejo desanimado em um dia que tem tudo para ser difícil.

No mínimo, essa atitude demonstra como dependo de Deus em coisas mínimas e práticas.  Há quem tome guaraná e energéticos para enfrentar o dia. Eu oro, uma prece humilde de quem precisa de Deus até para levantar. O que me diminui, mas O engrandece como meu ajudador nas tarefas mais corriqueiras. Pois tenho sentido muita graça e força ao orar por detalhes assim. Isso definitivamente me afasta das reuniões pirotécnicas onde se testemunham relâmpagos e anjos. E me aproxima das reuniões do A.A., onde se pede a graça de viver sóbrio por mais um dia. E é assim que a Graça se destila, com seus vapores me concedendo mais sobriedade. Quando converso com Deus, abandono a ansiedade e tenho energia na medida certa para realizar e decidir. “Só por hoje”.

Carregar ou ser carregado? essa é a questão da maturidade na fé cristã. Depender de Deus nas coisas mais simples é um paradoxal sinal de avanço no caminhar com Cristo. O paradoxo nisto é que o correto, naturalmente falando, é criar os filhos para a independência, para a autonomia. Mas Deus cria seus filhos para dependerem mais dEle. Como Pedro ouviu depois da ressurreição. Quanto mais tempo de conversão, mais aguda é a sua incompetência. Mais dependência, e não menos, é o que acentua seu crescer em Deus. Esse é o valor que os velhos hinos nos relembram: como a letra de  “Leaning on the everlasting arms”, que foi traduzido no Cantor Cristão como “Descansando no poder de Deus”. Os mais atentos lembrarão de ter ouvido essa música no filme “Bravura Indômita”. Clique nos títulos para ouvir suas versões no Youtube. Se quiser a tradução, clique aqui. Gosto em especial quando ele é cantada por Iris DeMent, como você pode ouvir no 1° link. A voz dela tem o timbre das gaitas, muito comuns ao country e ao blues.

Iris cresceu em uma família pentecostal americana. Ela provavelmente cantava naqueles circuitos de campanhas milagreiras, em um estilo que se assemelha mais aos neo-pentecostais de hoje do que ao pentecostalismo clássico. Com talento, ela se embrenhou pelo universo da música folk. Hoje se declara agnóstica, o que é uma pena. Consigo imaginar os diversos desapontamentos que ela pode ter passado com a ênfase exagerada no sobrenatural. Quando a ouço cantando, gosto de observar a imagem abaixo. Como você vê, Iris DeMent pendura roupa em um varal. A composição da foto exala o viver cotidiano, a vida comum; aquela em que os superpoderes da religião ficam menos a vontade. Mas onde o Evangelho pode fazer a gente triunfar.

Eis onde chegamos: o Evangelho pode ajudar disléxicos a entender um texto; desorganizados a pôr em ordem a vida e depressivos a levantar da cama. Todos esses aí sofrem de algum tipo de incapacidade para fazer algo que para outros é fácil. E essa é a química perfeita, percebe? incapacidade, confiantemente narrada e carente de um Deus que aprecia que se dependa d’Ele.  Ele é remédio certo para dependentes, de qualquer tipo. Não é uma cura perpétua, é mais ao estilo “só por hoje”. Doses diárias são recomendadas. Como os  bio-tônicos do passado. Funciona assim comigo. A comunhão com Deus que o Evangelho me deu de presente, me enche de bravura. Por um dia. E depois mais um. E depois mais um. Jesus me enche de uma bravura que descansa dia a dia em seus braços eternos.

Por Eliasaf de Assis

4 respostas para “A bravura que descansa”

  1. tem razao, o q mais me encanta em Cristo não são as curas miraculosas, mas como ele ensinou a mulher samaritana ter comunhao com suas vizinhas, o fato Dele ser Onipresente…mas ter escolhido estar aqui do meu lado….

  2. Sônia Matos disse:

    Eliasaf, querido irmão. Quantas saudades da família de Bonsucesso!!!!!

    O que destacou atenção no teu texto, foi a citação da melodia “Leaning on the everlasting arms”
    Numa versão com Alan Jackson, traduz, “Inclinado”. Daí me remeto a cena da Ceia onde João, recosta-se ao peito de Jesus. Simplesmente maravilhoso conhecer o Deus Homem e experimentar essa proximidade!

    Um beijo grande da família que te ama

  3. Mônica Passebom Zanardo disse:

    Querido Professor Eliasaf, como gostaria de ter tido mais tempo como sua aluna.
    Vejo que,realmente, Deus escolhe a dedo nossos momentos, suas palavras ficarão eternamente gravadas em mim, como motivação de sempre procurar o melhor no ser humano e na vida.

  4. Roseli disse:

    Lindo texto, excelente reflexão sobre a autonomia dos filhos e a crescente dependência de Deus. Acredito que confiar no ser humano é bom mas não é o suficiente e nós, pais, somos assim, portanto quando apresentamos Deus para os filhos e eles o seguem estamos dando autonomia para que sejam felizes.

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