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O Que Significa “Profético”?

por / sábado, 22 outubro 2011 / Publicado emAfinal, O Que é "Profético"?, Matéria de Capa

Por: Christopher Walker

Assim como acontece com tantos outros termos do nosso “jargão” bíblico ou cristão, a palavra profético perdeu grande parte do seu significado. Embora nem sempre nos séculos passados da história cristã esta palavra foi muito usada, e apesar de não ser comum em alguns setores da igreja até hoje, em muitos círculos vem sendo usada de forma cada vez mais freqüente, a ponto de virar uma espécie de modismo.

Um nível muito maior de unção profética realmente é uma das promessas de Deus para seu povo nos últimos dias (At 2.17). Porém, antes de concluirmos que a igreja já está experimentando o pleno cumprimento desta promessa na nossa geração, é importante examinar as Escrituras para entender o verdadeiro sentido da palavra. Assim como não é o uso constante dos termos , graça, ou poder que prova que temos estes elementos funcionando em nossas vidas ou igrejas, não serão as expressões adoração profética, conferência profética, ou ministério profético que darão este caráter às nossas atividades.

O Significado da Palavra

O termo mais antigo, no hebraico do Velho Testamento, para profeta é roeh, que quer dizer vidente. É uma palavra usada também para visão profética. Uma outra palavra, que surgiu depois, é nabi’, aquele que fala, um porta-voz. Nabi’ vem de uma raiz que significa levantar-se, vir à luz ou inchar-se. É relacionada com a palavra para um ribeiro borbulhante e com o verbo jorrar, com o sentido de proferir abundantes sons ou palavras (Pv 18.4).

Esta idéia pode ter um sentido passivo, como de alguém que se faz borbulhar pelo Espírito de Deus, que é inspirado por ele. O sentido mais correto, porém, é ativo e contínuo: alguém que jorra as palavras de Deus, um divulgador divinamente inspirado, um anunciador ou porta-voz (Êx 7.1).

Portanto, há um aspecto anterior, passivo e receptivo no profeta: ele vê. E há um aspecto ativo e comunicativo: ele fala. Antes de poder funcionar como boca ou comunicador, ele precisa receber revelação, percepção e visão; precisa “borbulhar” com os propósitos e sentimentos do coração de Deus.

“Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer e não posso” (Jr 20.9; ver também Jr 6.11).

“Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do Senhor, cheio de juízo e de força, para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado” (Mq 3.8).

Visão Espiritual

A primeira característica, então, do profético é sua capacidade de ver numa outra dimensão, de enxergar no mundo espiritual aquilo que a grande maioria não consegue vislumbrar. No Velho Testamento, este era um privilégio de poucos escolhidos. Raramente, Deus tinha no meio do seu povo mais do que um ou dois servos, numa mesma época, que podiam ver e ouvir além do mundo visível e material. Por isto, eram muito requisitados e, se alguém queria saber o que Deus pensava ou diria sobre um determinado assunto, era necessário ir atrás destas pessoas.

Veja o que Balaão disse acerca de suas capacidades proféticas, nem sempre utilizadas a serviço de Deus: “Palavra do homem de olhos abertos; palavra daquele que ouve os ditos de Deus, o que tem a visão do Todo-poderoso…” (Nm 24.3,4).

No Novo Testamento, porém, esta visão espiritual potencialmente passaria a todos os cristãos. “Porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior” (Hb 8.11). “E vós possuis unção que vem do Santo, e todos tendes conhecimento” (1 Jo 2.20). “Derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão…  Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito… e profetizarão” (At 2.17.18). “Porque todos podereis profetizar…” (1 Co 14.31).

Na prática, sabemos que a Nova Aliança e o derramamento do Espírito ainda não trouxeram este nível de conhecimento de Deus a todo o povo do Senhor. A grande maioria do povo de Deus e, infelizmente, até dos líderes, não tem estes olhos e ouvidos abertos para saber o que o Senhor está falando ou para onde está querendo nos conduzir dentro do seu plano. Assim, ainda dependemos, em grande parte, da promessa de que Deus não fará coisa alguma sem revelar seu segredo aos seus amigos, os profetas (Am 3.7). Ele também prometeu a Isaías que jamais retiraria da linhagem profética, no meio do seu povo, a unção de falar as suas palavras, para sempre. Até que se cumpra a promessa de fazer todo o seu povo andar cheio do Espírito e conhecer os tesouros do mundo invisível (1 Co 2.9-16), Deus prometeu que sempre encontrará alguém a quem possa revelar o seu conselho secreto.

Ter os olhos e os ouvidos abertos para o mundo espiritual não é só uma questão de ter algumas experiências deslumbrantes de forma isolada ou esporádica. A revelação, em todas as suas variadas manifestações, vem realmente através de uma “porta aberta no céu” (Ap 4.1), e isto depende não só da nossa disponibilidade, mas da vontade soberana de Deus. Ninguém tem estas experiências de forma ininterrupta. Porém, a característica profética, de ter o véu retirado para ver as coisas da perspectiva de Deus, vai muito além disto. É resultado de andar com Deus, de ter uma vida dedicada a conhecê-lo e de descobrir, progressivamente, o que ele realmente deseja falar e fazer com seu povo.

Portanto, a primeira prova para testar a qualidade profética de alguma mensagem, atividade ou ação é saber se provém de uma visão espiritual e de um genuíno contato com Deus, ou se é apenas cópia de algo que foi rotulado profético.

Proclamação

Depois que o mundo espiritual foi aberto, com certeza haverá conteúdo para proclamar. A essência do ministério profético é anunciar o que se viu, tendo em vista que poucos tiveram o mesmo acesso àquela dimensão. O profeta é um atalaia, posicionado numa torre de onde consegue ver muito além daquilo que a multidão enxerga. Por isto, precisa alertar, advertir e preparar o povo para aquilo que virá (Is 21.6,11; Ez 3.17). Hoje, esta função ainda precisa ser exercida em favor da própria igreja, já que poucos tiveram seus olhos abertos; no plano de Deus para a nova aliança, porém, seu povo, como um todo, deveria proclamar a vontade e o coração de Deus para o mundo (1 Pe 2.9).

Como a visão profética é a capacidade de ver as coisas da perspectiva de Deus e enxergar a situação como deveria ser, no seu ideal ou padrão perfeito, a proclamação sempre mostra o contraste com a situação atual, imperfeita e errada. Por isto, se alguém fizesse uma estatística, em termos de quantidade, de todas as palavras proféticas na Bíblia, a esmagadora maioria não teria relação alguma com previsão do futuro e, sim, com a exposição do pecado do povo de Deus e com o severo juízo que viria no caso de não abandoná-lo. Pode não parecer assim, mas é preciso ter os olhos abertos, é preciso ter visão espiritual, para enxergar a contaminação e a influência do espírito deste mundo na nossa vida e na vida da igreja.

Por este motivo, a proclamação profética, no geral, era muito impopular. Mostrava como o povo e os líderes estavam errando o alvo, vivendo fora dos propósitos de Deus, cumprindo as ordenanças exteriores, porém afastando-se dele no coração. O rei Acabe, por exemplo, não suportava o profeta Micaías: “Eu o aborreço, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau” (1 Rs 22.8).

A proclamação “profética” que diz apenas o que as pessoas querem ouvir pode ser muito popular, mas apressa ainda mais o juízo e a destruição do povo de Deus. Nas palavras de Jeremias: “Os teus profetas te anunciaram visões falsas e absurdas, e não manifestaram a tua maldade, para restaurarem a tua sorte; mas te anunciaram visões de sentenças falsas, que te levaram para o cativeiro” (Lm 2.14). Ezequiel também falou das terríveis conseqüências de dar ouvidos a proclamações de paz e prosperidade, quando não vêm da boca do Senhor: “Os teus profetas, ó Israel, são como raposas entre as ruínas. Não subistes às brechas, nem fizestes muros para a casa de Israel, para que ela permaneça firme na peleja no dia do Senhor” (Ez 13.4,5).

O objetivo da proclamação é abrir os olhos e os ouvidos dos ouvintes para que a luz de Deus alcance seus corações e o véu que está diante deles seja removido (2 Co 3.16; 4.3-6). Sem a operação desta luz sobrenatural, continuamos sem enxergar nossa impureza e nossos alvos centrados em nós mesmos, e caminhamos firmes em direção à ruína.

Assim, um segundo teste para aquilo que é chamado profético é verificar os resultados, para saber se houve alguma luz divina, no sentido de revelar pecados e desvios dos alvos de Deus, ou de desfazer o véu natural da nossa mentalidade humana.

Destino e Propósito

“Já não vemos os nossos sinais; já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando” (Sl 74.9).

O resultado final, e mais importante, de qualquer ação ou ministério profético é trazer uma revelação mais ampla do propósito eterno de Deus. Qualquer revelação de um acontecimento futuro só é relevante na proporção em que se relaciona com o plano maior do reino de Deus. O exemplo clássico é dos discípulos dos profetas em 2 Reis 2, que tinham revelação de um acontecimento futuro (o arrebatamento de Elias), porém, eram totalmente ignorantes do que isto significava para a continuação dos propósitos de Deus. Chegaram ao absurdo de procurar Elias pelos montes, caso o Espírito o tivesse jogado em algum lugar, depois de arrebatá-lo. Ter percepção de acontecimentos futuros, sem conhecer a natureza de Deus, é extremamente perigoso!

Já a revelação a Isaías quanto ao futuro imperador da Pérsia (Is 45.1) e a previsão exata feita por Jeremias a respeito dos setenta anos do cativeiro (Jr 25.11; 29.10) tinham importância fundamental na seqüência dos acontecimentos proféticos, ou seja, do desenvolvimento do plano de Deus com seu povo na terra.

Podemos dizer, então, que a essência do profético é entrar no mundo espiritual, ver e ouvir o que está acontecendo lá, e trazer esta visão para a dimensão material do mundo em que vivemos. E a essência do que se vê no mundo espiritual é a natureza e o coração de Deus e o seu tremendo e inimaginável plano aqui na terra.

A natureza desta visão espiritual explica as duas principais ênfases proféticas. Ao contemplar a beleza e a profundidade do plano de Deus e sentir seu coração de amor para com o povo que escolheu para fazer parte deste plano, o profeta anuncia a glória, a consumação e a esperança por vir – ou, em outras palavras, define e descreve o nosso destino. Mesmo nos momentos mais escuros da história de Israel, os profetas anunciavam a restauração e o triunfo final. Descreviam, também, a natureza de Deus, seus sentimentos, sua fidelidade, sua capacidade de tirar proveito e glória de qualquer situação de fracasso humano. Mostravam como Deus tinha a solução de todas as soluções, através da vinda do Messias e do “dia do Senhor”, através dos quais ele havia de triunfar sobre todos os obstáculos.

Este era um aspecto essencial da visão profética, pois trazia esperança e um senso de propósito. Nada pode ser considerado profético se não trouxer uma visão sobrenatural de destino, consumação e esperança, sem a qual “o povo se corrompe” (Pv 29.18), pois não sabe para onde vai e não tem uma causa a que se pode entregar. Não é apenas um alvo vago e distante, como ir um dia morar no céu; é algo que faz parte de um todo glorioso, que pouco a pouco passamos a compreender, à medida que a visão profética nos ajuda a completar peças no divino quebra-cabeças.

Mas não conseguiríamos nos ligar a esta visão do glorioso alvo futuro se não houvesse um segundo aspecto da ênfase profética, que falasse para dentro da nossa situação atual. Por isto, conforme já notamos, a maioria dos pronunciamentos proféticos tem a ver, não com o futuro, mas com a lastimosa e imperfeita situação presente.

Porém, mesmo para falar sobre nossa condição e posição atual, é necessário ter uma revelação do plano de Deus, de uma forma mais global e panorâmica. Não se pode aplicar as percepções do mundo espiritual à nossa situação hoje, sem compreender a história e o desenvolvimento do plano divino até o presente momento. Precisamos, como diz Rick Joyner, nos localizar no mapa de Deus. E como, sem visão profética, geralmente estamos tão longe do lugar onde deveríamos estar, de acordo com o mapa, a proclamação profética vem para mostrar como estamos errando o alvo e frustrando o progresso do plano de Deus.

Portanto, a proclamação profética que aponta o pecado do povo de Deus e que tem uma ação negativa de repreensão ou disciplina é mais do que uma capacidade de ver certos aspectos de impureza ou contaminação na igreja ou nas vidas individuais. É certo que quem teve uma visão da santidade de Deus sentirá profundamente sua própria impureza e a do povo no meio do qual vive (Is 6. 5). Mas a qualidade peculiar do profético é entender o que Deus vem fazendo desde o início do seu plano, para onde ele pretende conduzir-nos no futuro e em que posição e atitude deveríamos estar agora. É a verdadeira ligação do presente, tanto ao passado como ao futuro.

Esta dimensão do senso de história e do senso de destino é a falta mais gritante na grande maioria da igreja hoje. É também a maior prova de que o verdadeiro ministério profético ainda não foi restaurado.

O maior pecado da igreja não é sua contaminação com obras da carne, embora estas sejam realmente abomináveis diante de Deus. No Velho Testamento, a nação de Israel recebeu os dez mandamentos e quebrava-os constantemente. Porém, Deus não mandou os profetas para falar principalmente sobre este tipo de transgressão. Não porque não tivesse muita importância, mas porque havia algo muito mais fundamental – o coração do povo estava frio e distante, tinham outros interesses mais importantes e não queriam ouvir de Deus ou conhecer o seu propósito para suas vidas ou nação.

“Não havendo profecia o povo se corrompe” (Pv 29.18). Sem conhecer o alvo de Deus, vivemos sem propósito, sem rumo, e nos abrimos para toda espécie de corrupção. É uma contradição total buscar uma vida de pureza e santidade e continuar vivendo para nossos próprios alvos. É duro quando a palavra de Deus destrói nossos sonhos e projetos particulares. Mas é incomparavelmente melhor viver em função dos alvos de Deus.

Uma verdadeira atuação do ministério profético aplicará o machado à raiz de muitas árvores humanas, a fim de poder implantar um novo senso de destino e restaurar os alvos de Deus para seu povo. A promessa de Deus nas últimas palavras do Velho Testamento é exatamente esta: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (Ml 4.5).

Precisamos aguardar e desejar a vinda deste ministério em nosso meio; sua promessa se cumprirá, sem dúvida, mas não nos contentemos com nada menos que o genuíno!

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