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A Segunda Geração

por / quarta-feira, 23 maio 2012 / Publicado emEdição, Matéria de Capa, Preparando a Próxima Geração

Por: Christian Chen

O livro de Esdras relata a história de duas gerações do povo de Israel que retornaram a Jerusalém depois do cativeiro na Babilônia. Durante 70 anos, Jerusalém havia sido uma cidade vazia, e o templo permanecera em ruínas. No final daquele período, umas 50 mil pessoas sob a liderança de Zorobabel e Josué retornaram e edificaram primeiro o altar e, depois, o templo. Zorobabel era da geração mais antiga, nascida em Israel antes do cativeiro. Esse é o contexto dos três primeiros capítulos. Posteriormente, no capítulo 7, houve um segundo retorno para Israel de uma geração mais jovem, conduzido por Esdras, um escriba nascido na Babilônia.

Qual é o significado de Jerusalém? Na Bíblia, Jerusalém fala do testemunho de Deus, porque dentro da cidade estava o templo que representa a presença de Deus. A razão pela qual Jerusalém é uma cidade única é porque ali está o templo de Deus. Portanto, o testemunho de Deus deriva-se de sua presença. Esse é um princípio muito importante.

No princípio, nos dias de Salomão, quando o templo e a cidade estavam nos dias de glória, a presença de Deus e o seu testemunho estavam em Jerusalém. Logo depois, porém, os líderes e o povo abandonaram a Deus e passaram a adorar ídolos. Por isso, Deus permitiu que Nabucodonosor sitiasse a cidade, destruísse o templo e levasse o povo cativo para a Babilônia.

Foi o tempo mais trágico na história de Israel. O testemunho de Deus estava em desolação. Do templo, não ficou pedra sobre pedra. O povo de Israel foi como uma árvore desarraigada e levada a uma terra remota.

Depois de 70 anos, conforme Deus prometera por meio do profeta Jeremias, o povo voltou a Jerusalém para restaurar o testemunho de Deus. Antes que isso pudesse ocorrer, foi preciso edificar o altar e a casa de Deus. Isso indica que devemos ter primeiro a presença de Deus e, em seguida, teremos o testemunho.

A Igreja Cativa Na Babilônia

Há um paralelo muito claro com a história da Igreja. No início, havia o testemunho de Deus porque a presença de Jesus estava no meio do povo. Quando os santos se reúnem, o lugar em que estão torna-se a casa de Deus, o local onde a glória e a formosura de Cristo se manifestam. As pessoas de fora o veem e dizem: “Este é o testemunho de Deus”.

Quando a Igreja se encontra numa condição de normalidade, o testemunho de Deus é visto em todas as localidades: Taipei, Tóquio, Seul, São Paulo, Santiago, em todo lugar. Esse é o propósito de Deus. Porém, se examinarmos a história da Igreja e observarmos o que ocorre em nossos dias, veremos que a Igreja foi levada cativa, outra vez, para a Babilônia.

Babilônia significa confusão. Hoje em dia, as pessoas estão confusas e pensam que a igreja é uma instituição. Quando você chega a uma reunião, você sabe como se comportar, como cantar, como orar, o que esperar. Alguém vai compartilhar a Palavra, alguém muito espiritual vai ler a Bíblia para os demais. Só precisa comparecer aos domingos e escutar, e isso é tudo. Essa é a nossa confusão.

O que é a igreja? Sabemos que é o Corpo de Cristo. Se é corpo, cada membro deve estar funcionando. Entretanto, por que hoje só há um ou dois membros ativos? Onde está o testemunho? Onde está o testemunho coletivo? Se olharmos ao redor, veremos que há confusão. Fomos levados cativos para a Babilônia.

Movimentos de Restauração

Durante a História, por várias vezes, Deus levantou reformadores para conduzir o povo de volta para Jerusalém. Homens como Martinho Lutero, João Calvino, Zwínglio e outros, tiraram o povo da confusão da Idade Escura, em que as pessoas vendiam indulgências, não conheciam sequer a salvação, e a Bíblia estava encadeada. Não é de surpreender que a condição da igreja naquele tempo fosse de absoluta confusão.

Graças a Deus, esses homens levaram a igreja ao fundamento original. Reedificaram o altar e a casa. Voltaram à presença do Senhor e viram o seu testemunho restaurado.

Mas o que acontecia? Na primeira geração, tudo estava muito bem, cheio de vida. Porém, na segunda geração, perdia-se gradualmente a visão. Passavam a guardar tradições. Na primeira geração, a taça de bênção estava cheia; na segunda, caía para a metade. Na terceira, quase toda a bênção se tinha ido: ficava somente a taça.

Algum tempo depois, o Senhor levantava outras pessoas, havia outro avivamento, uma nova “primeira geração”. Outra vez, retornaram a Jerusalém. Entretanto, quando a bênção se foi, a confusão chegou de novo. Assim, o povo voltava outra vez para a Babilônia.

Foi assim com John Wesley, no século 18, quando Deus restaurou a verdade da santificação pela fé. Foi assim também com John Darby, no século 19.

Em cada mover de Deus, a primeira geração tinha vida, revelação direta de Deus, tudo era dirigido pelo Espírito Santo. A presença de Deus estava clara, o testemunho aparecia na Terra. Mas quando chegava a segunda geração, já sabiam como reunir-se, como fazer as coisas. Aprendiam o método dos mais antigos.

Depois de pegar o método, que maravilha! Como funciona bem! Nem precisa lutar tanto, buscar a presença do Senhor, estudar tanto a Bíblia ou orar. “Já conhecemos a vontade de Deus. É o que os anciões me falaram, o que me foi passado.” Isso é tradição.

A primeira geração tem revelação e bênção. A segunda tem revelação e tradição. A taça já está pela metade. E, ao chegar à terceira geração, a taça está vazia; quase tudo é tradição. É por isso que hoje há tantas taças – milhares de taças.

No princípio, cada taça tinha razão para gloriar-se, porque estava cheia de bênção. Mas quando a presença de Deus se foi, o que eles têm agora? Apenas uma taça vazia para comparar com outras: “A minha taça é melhor que a sua”.

Como podemos mudar esse padrão e preservar a presença e o testemunho do Senhor? Como a segunda geração pode pegar a taça da primeira geração e mantê-la cheia? Somente se ela tiver uma experiência de primeira mão, em contato com a fonte de vida, exatamente como teve a primeira.

Se você pertence à primeira geração, seja cuidadoso. A sua responsabilidade é trazer, para a geração mais jovem, a presença do Senhor. O Espírito Santo saberá como ensinar-lhes. A unção está neles. Não devemos usurpar o lugar do Espírito Santo. Só assim, podemos manter cada geração com vida. Isso é muito importante.

Esdras e a Segunda Geração

Voltemos ao livro de Esdras. Zorobabel foi o líder da primeira geração. Por ter deixado Jerusalém como cativo quando era jovem, o retorno tinha grande significado. Já com cerca de 90 anos de idade, ele sentia que seu lar estava em Jerusalém. Seu coração, profundamente comovido e saudoso, ansiava por retornar.

Para Esdras, como parte da segunda geração, nascida no cativeiro, que nunca vira Israel, a situação era bem diferente. Jerusalém lhes parecia uma cidade vazia, uma cidade morta. Por outro lado, olhe para a Babilônia! Havia um futuro brilhante esperando-os ali.

No entanto, de alguma forma, Deus estava operando na Babilônia, no meio da confusão. Se você vive em Jerusalém, tudo está claro; porém, para quem vive neste outro mundo, tudo é confuso. Esdras nasceu e cresceu naquele ambiente onde se adoravam ídolos, onde havia outras esperanças, outros anseios. Mesmo assim, de alguma forma, ele procurou a Palavra de Deus e foi cativado por ela. Esdras se tornou o grande escriba. Por meio dele, foram reunidos os 39 livros do Antigo Testamento. Pela primeira vez, a revelação do Antigo Testamento estava completa.

Esdras não tinha um motivo natural para ir a Jerusalém. No entanto, o Senhor é capaz de fazer algo além do que imaginamos e levantou um jovem que abandonou seu futuro brilhante na Babilônia, voltou as costas a esse mundo e chegou a Jerusalém. O que significa isso? Que embora a segunda geração tenha nascido fora de Jerusalém, sem revelação de primeira mão, ela pode chegar a ser mais rica que a primeira.

Na família natural, os pais sempre ficam muito orgulhosos quando seus filhos os ultrapassam, tornando-se melhores, mais bem-sucedidos e inteligentes do que a geração anterior. Essa é a prova de êxito de uma família. Não me diga que seus filhos têm só a metade de sua habilidade, e seus netos a metade da habilidade de seus filhos. Se for assim, sua família está indo cada vez mais para baixo. Como sabemos que uma família está realmente subindo e não descendo? Quando os filhos são melhores que os pais, têm mais êxito que eles – e os pais não sentem ciúme por isso. E quando chega a vez dos netos, eles irão ainda mais longe.

Foi exatamente isso o que aconteceu no livro de Esdras. O testemunho de Deus não ficou só na primeira geração, mas avançou ainda mais na segunda.

A Contribuição de Esdras

Vemos, na história da restauração, que a tarefa da primeira geração foi lançar o fundamento. Fizeram isso, edificando o altar e, depois, a casa. Durante 20 anos, sua obra foi voltada exclusivamente para os alicerces.

E qual foi a contribuição de Esdras para a segunda geração? Ao estudar esse livro cuidadosamente, vemos que ele trouxe duas contribuições.

Primeiro, ele procurou embelezar o templo (Ed 7.27 – “ornar” a casa do Senhor ou “glorificar”, em outra versão). Traduzindo isso para a linguagem do Novo Testamento, significa que a igreja deve crescer para atingir a maturidade. Na primeira geração, o fundamento está seguro.

Mas, depois, na segunda geração, Esdras não construiu outro templo. Não. Ele edificou algo sobre o fundamento para embelezar a construção original. É a igreja como segunda geração.

Lembre-se: a igreja não é só algo exato, algo “correto” de acordo com o entendimento da verdade. Esse é o primeiro passo, e é maravilhoso quando o alcançamos. Mas a igreja, o corpo de Cristo, deve crescer. Portanto, o que significa embelezar o templo? Muito simples. Por meio da segunda geração, a igreja chega a ser muito mais bela, mais amadurecida, sem mancha, pronta para ser apresentada a Cristo como uma igreja gloriosa.

Por que Esdras retornou a Jerusalém? Ele sabia, pela palavra profética do Antigo Testamento, que quando o Messias viesse, ele entraria no templo. Então, Jerusalém tinha de ser reedificada, e o templo, embelezado. Esdras retornou porque sabia que o Messias viria logo. Ele retornou por amor ao Messias.
Hoje, a geração mais jovem está, sem dúvida, mais próxima da volta do Senhor do que a primeira. Supõe-se que serão eles que receberão o Mestre quando voltar em glória. Para isso, a igreja precisa amadurecer. É claro que o templo precisa ser belo, glorioso. Portanto, essa foi sua primeira contribuição.

A segunda contribuição foi a restauração da autoridade da Palavra de Deus. Quando Esdras leu a Palavra, muitas pessoas choraram, foram tocadas (Ne 8.9). Então, a geração mais jovem deve ter uma palavra muito mais rica do que a primeira.

Como pode a igreja tornar-se gloriosa, sem mancha e sem ruga? A Bíblia diz que é “pela lavagem de água pela palavra” (Ef 5.26). No original grego, palavra neste texto é rhema, a palavra de vida, inspirada e aplicada pelo Espírito Santo.

Quando nossos jovens, nestes dias, estudam as Escrituras, eles estudam o Logos (Palavra escrita) e aplicam o coração ao estudo metódico e sistemático. Eles contam com melhores condições do que os da primeira geração, manejam o inglês, conhecem os computadores, sabem como utilizar livros de referências. Mas também vivem na presença do Senhor a fim de que o Espírito Santo fale outra vez à sua geração, tornando aquele Logos uma palavra viva.

Essas foram as contribuições de Esdras e da geração mais jovem.

A Responsabilidade da Primeira Geração

Portanto, se o Senhor for misericordioso conosco, se ele demorar a retornar, a nossa história não se reduzirá só aos primeiros capítulos do livro de Esdras (restauração dos fundamentos por meio da primeira geração), mas poderemos alcançar, além disso, a experiência do capítulo 7 (levantamento de uma segunda geração com encargo, revelação e autoridade na Palavra).

Diante disso, a primeira geração tem uma grande responsabilidade. Se você faz parte da geração “mais madura” e conheceu ao Senhor em uma experiência de primeira mão, sua taça está cheia. Mas, o que será da geração mais jovem? O que acontecerá nos próximos dez anos se o Senhor ainda tardar?

Você tem uma grande responsabilidade: a de orar pela geração mais jovem, incentivar e estimulá-la, ajudá-la a conhecer o Senhor diretamente.

O seu papel não é encontrar realização em seu próprio sucesso, mas fazer tudo para que a geração mais jovem vá muito mais longe do que a sua.

Os jovens gostam de competir, de superar, de vencer desafios. Que eles recebam o nosso ânimo e encorajamento para serem superiores a nós, para alcançarem o máximo no Reino dos céus. Se a taça deles estiver cheia, assim como a da primeira geração, o testemunho será, de fato, preservado, e a casa de Deus preparada para o retorno do Rei!

Adaptado de um artigo com o mesmo título da revista Águas Vivas, Ano 9, nº 54, de novembro e dezembro de 2008 (para ler o artigo original, acesse www.aguasvivas.ws/revista/54/02.htm).

Christian Chen, ex-professor de Física Nuclear na Universidade de São Paulo (USP) e em Taiwan Chung Yuan University, é autor e conferencista, profundo estudioso da Bíblia e das riquezas espirituais acumuladas pelos santos do passado. Reside atualmente em Nova York, EUA.

3 Responses to “A Segunda Geração”

  1. Onivaldo M. de Oliveira diz: Responder

    Realmente uma reflexão maravilhosa. Todos precisamos estar atentos para onde estamos nos movendo nestes dias.

  2. Hildo Ferezim Junior diz: Responder

    …estou em lágrimas de alegria por ver nessa reflexão respostas aos meus questionamentos e de muitos da primeira geração, embora saibamos que sempre haverá 7.000 que não se dobrarão, precisamos nos despertar e influenciar a segunda geração afim de que sejam 7.0000000000000000000000….

  3. elda maria costa botelho diz: Responder

    É maravilhoso compartilhar do Senhor através da meditação de Sua Palavra com os irmãos, sinto o derramar do Espirito Santo de Deus nos ensinando,aconselhando… que Deus os preservem assim com este Ministério Glorioso! Procuro sempre levar outros a conhecerem este trabalho.

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